Nancy Keller
Entro no quarto preparada para trabalhar como quem pisa em território sagrado.
O silêncio é quase absoluto, quebrado apenas pelo som suave da respiração da Aurora, ritmada, tranquila. A porta se fecha atrás de mim com cuidado, e por alguns segundos eu fico parada, apenas observando o ambiente. Tudo está organizado. Limpo. Perfeito demais. O quarto parece respirar calma, como se tivesse sido pensado para que nada ali perturbasse aquela bebê tão pequena.
Caminho devagar, quase na ponta dos pés. Não quero fazer barulho. Não quero quebrar aquele momento.
Aurora dorme profundamente no berço. O rostinho relaxado, a boquinha levemente entreaberta, os cílios escuros contrastando com a pele clara. Fico alguns segundos ali, só olhando. É impossível não sorrir. Existe algo de quase mágico em observar um bebê dormindo. É como se o mundo inteiro diminuísse de tamanho.
Eu começo a me organizar mentalmente. Verifico o relógio. Ainda é cedo. Ela deve dormir mais um pouco. Então procuro algo para fazer.
Dou uma volta pelo quarto, agora com mais atenção. Observo as prateleiras, os potes organizados por tamanho e função, os produtos de higiene alinhados, as roupinhas dobradas com um cuidado quase exagerado. Tudo aqui é novo. Tudo cheira a bebê. Um cheiro limpo, suave, acolhedor.
Arrumo uma fraldinha que está um pouco torta na gaveta. Alinho algumas roupas. Ajusto a mantinha sobre a poltrona. Nada realmente precisa ser feito, mas eu faço mesmo assim. É meu jeito de começar. Meu jeito de entrar no ritmo.
Volto ao berço.
Aurora ainda dorme, mas agora se mexe levemente. Um resmungo baixo escapa da boquinha. Meu corpo reage na mesma hora. Eu me aproximo.
— Oi, princesa… — Sussurro, mesmo sabendo que ela provavelmente não entenda.
Ela se remexe mais um pouco, vira a cabecinha para o lado. Os olhos ainda estão fechados, mas o corpinho já dá sinais de que o sono está ficando leve.
Espero.
Alguns segundos depois, ela abre os olhos.
E eu prendo a respiração.
Aurora acordada é ainda mais linda. Os olhos claros, grandes, atentos, tentando entender o mundo ao redor. Ela pisca algumas vezes, como se estivesse se ajustando à luz. O olhar dela se move devagar até mim.
— Bom dia… — Digo com a voz doce, automática. — Bom dia, coisa linda.
Ela me encara. Não sorri. Não chora. Apenas observa. Como se estivesse tentando decidir quem eu sou.
Quando me aproximo mais, sinto o cheiro. É inconfundível.
— Ah… então é isso. — Falo baixinho, sorrindo. — Alguém fez sujeira por aqui, né?
Ela emite um som pequeno, quase um protesto. Eu rio.
— Tudo bem. A gente resolve.
Começo a falar com ela enquanto preparo a troca de fralda, como sempre fiz com outros bebês. É automático para mim.
Eu gosto de falar.
— Vamos trocar essa fraldinha, meu amor. Vai ficar limpinha, cheirosa, confortável… prometo.
Coloco-a com cuidado sobre o trocador. Cada movimento meu é lento, calculado, atento. Ela me observa o tempo todo. Os olhos não desgrudam do meu rosto.
— Você é tão pequenininha… — Continuo. — Tão delicada… parece até de porcelana.
Ela se mexe, abre e fecha as mãozinhas. Um punho se fecha com força, como se estivesse segurando o ar.
— Perfeita! — completo, sem pensar. — Agora a gente vai tomar um banho rápido, tá? Bem gostoso.
Preparo tudo antes de colocá-la na água. Testo a temperatura. Seguro o corpinho com firmeza e delicadeza ao mesmo tempo. O banho é tranquilo. Aurora arregala os olhos ainda mais. Parece curiosa, intrigada com tudo. A água, o toque, minha voz.
— Isso… — murmuro. — Relaxa.
Depois do banho, seco bem. Ela continua me observando. Não chora. Não reclama. Apenas me olha, como se estivesse gravando meu rosto.
Troco a fralda, limpo com cuidado, passo a pomada, converso o tempo inteiro. Explico cada coisa, mesmo sabendo que ela ainda não entende as palavras, mas sente o tom, o ritmo, a intenção.
Eu aprendi bem isso.
É impossível não sentir algo diferente.
O dia começa a seguir o ritmo dela.
Preparo o leite. Dou a mamadeira. Aurora mama com vontade, como se estivesse faminta há horas. Ela toma tudo. Sem pausa. Sem frescura.
— Você gosta mesmo de comer, né? — Comento, sorrindo.
Pouco depois, ela dorme de novo.
E assim o dia segue.
Aurora acorda, come, troca fralda, cochila. Chora às vezes, mas eu reconheço rápido o tipo de choro. Fome. Fralda. Sono. Cólica leve. Nada fora do comum. Tudo muito natural para mim.
Enquanto faço essas coisas, um pensamento insiste em aparecer.
É estranho.
Uma bebê tão pequena… sem a mãe por perto.
Eu não falo isso para ninguém. Nem ouso comentar. É só um pensamento silencioso que passa pela minha mente enquanto balanço Aurora nos braços, enquanto preparo mais uma mamadeira, enquanto observo aquele quarto.
Não há nada ali que indique pais.
Nenhuma foto. Nenhum porta-retrato. Nenhum objeto pessoal. Nenhuma lembrança. Tudo foi preparado apenas para ela. Apenas para Aurora.
Em determinado momento do dia, ela chora mais forte. Um choro diferente. Eu tento a fralda. Nada. Mamadeira. Ela rejeita. Tento falar. Nada muda.
Então eu a pego no colo.
Coloco Aurora contra o meu peitö e me sento na poltrona. Ajusto o corpo dela, apoio a cabecinha, começo a balançar devagar.
— Tá tudo bem… — Murmuro. — Eu estou aqui.
Aos poucos, o choro diminui. Não são choros altos, são resmungos de incomodo. O corpinho relaxa. A mãozinha se fecha em punho e agarra o tecido da minha roupa.
Meu coração aperta.
Ela fica aqui, grudada em mim, respirando mais calma. E eu percebo, com uma clareza estranha, o quanto essa menina é delicada. Existe algo nela… algo que vai além do fato de ser um bebê. É uma fragilidade que pede cuidado. Presença. Constância.
O dia passa quase sem que eu perceba.
Quando começa a anoitecer, Aurora dorme novamente. Eu aproveito para organizar os itens que usei. Alinho os produtos de banho, dobro as toalhas pequenas, deixo tudo no lugar.
Odete entra no quarto.
— Como estão as coisas? — Pergunta em voz baixa.
— Tudo ótimo. — Respondo. — Ela se comportou muito bem. Já está dormindo de novo.
— Ela dorme bastante. — Odete comenta. — E come bastante também.
— Já percebi. — Digo, sorrindo. — Adora uma mamadeira.
Odete sorri satisfeita.
— Se quiser descer para jantar, é agora. Depois as meninas vão organizar a cozinha.
— Vou só tomar um banho rápido. — Respondo.
Saio do quarto com a babá eletrônica na mão. Vou até o meu quarto, tomo um banho completo, coloco uma roupa confortável. Desço para jantar.
A comida é simples e deliciosa. Sopa com torradas, depois carne em cubos com legumes. Caseira. Reconfortante.
Enquanto como, meu corpo sente o cansaço leve e bom de um dia produtivo.
Foi um dia muito bom.
Mas, mesmo assim, um pensamento insiste em ficar. Nada nessa casa fala sobre os pais da Aurora.
Nada.
E isso… isso não sai da minha cabeça.