CAP 10

1304 Words
Nancy Keller – Três meses depois O sol ainda não nasceu por completo quando eu saio do quarto com a Aurora nos braços. A mansão está silenciosa demais para um horário que, tecnicamente, já é manhã. O céu carrega aquele tom indeciso entre o azul escuro da madrugada e o dourado tímido do dia que insiste em chegar devagar. O ar lá fora está fresco, quase frio, e eu sinto como se estivesse respirando melhor agora, longe das paredes fechadas do quarto. A Aurora se mexe nos meus braços. Não chora, mas também não dorme. Está inquieta desde a madrugada. Essa noite foi difícil. Muito difícil. Ela teve cólica, se contorceu, chorou daquele jeito fino e desesperado que corta o peitö da gente por dentro. Eu tentei de tudo: massagem na barriguinha, posição correta, compressa morna, colo, conversa baixinha, música suave. Melhorou um pouco, mas não o suficiente para que ela dormisse de verdade. E quando ela não dorme, eu também não durmo. Por isso estou aqui agora. Caminho devagar até perto do jardim, ainda com ela aninhada contra o meu peitö. O corpo dela encaixa perfeitamente em mim, como se já conhecesse esse lugar. O cheirinho dela é leve, limpo, aquele cheiro de bebê que não se explica, só se sente. Eu balanço o corpo de um lado para o outro, quase imperceptivelmente, e falo baixo. — Calma, meu amor… já vai passar. Ela solta um resmungo pequeno, como se reclamasse do mundo por existir cedo demais. Passo a mão nas costas dela, subo até a nuca, faço carinho com o polegar. O sol começa a surgir timidamente, um fio dourado tocando as folhas do jardim. É um sol leve, exatamente como eu queria. Nada agressivo. Nada apressado. Três meses. Acabei de completar três meses trabalhando como babá da Aurora. E, se eu for honesta comigo mesma, a única coisa que me faz continuar aqui é ela. Porque cuidar da Aurora é… perfeito. Eu não canso. Não canso de segurar, de trocar, de alimentar, de observar cada mudança mínima. Não canso de ver como ela cresce, como reage aos sons, como abre os olhos curiosa quando eu falo. Ela já reconhece minha voz. Eu sei disso. O jeito como ela se acalma quando me ouve não é coincidência. Ela ri agora. Não é uma gargalhada, ainda é um sorriso torto, quase um reflexo, mas o meu coração reage como se fosse a coisa mais bonita do mundo. Eu estou começando a amar essa menina. Talvez já esteja amando. E isso me assusta um pouco. O restante… o restante ainda é estranho. A casa, o silêncio, as regras não ditas, as perguntas sem resposta. Tudo isso continua me incomodando. Mas o pagamento é ótimo. Nunca atrasam. Cai certinho na conta, no dia combinado. Eu não tenho gastos aqui dentro. Consigo ajudar minha mãe, minha irmã, pagar contas, aliviar um pouco o peso da casa delas. Minhas folgas são organizadas. A cada dez, quinze dias, tudo planejado. Tenho motorista para me levar e buscar. Não tenho do que reclamar nesse ponto. E tem a Odete. E algumas funcionárias da casa. Pessoas boas, dedicadas, que trabalham duro para manter tudo funcionando como um relógio caro e silencioso. Elas são respeitosas, gentis, profissionais. Tudo parece perfeito. Mas não é. Porque em três meses, eu nunca vi os pais da Aurora. Nunca. Nenhuma visita. Nenhuma ligação. Nenhuma tentativa de aproximação. Eu não sei o sobrenome dessa bebê. Não sei quem é a mãe. Não sei quem é o pai. Não sei se ela se parece com algum dos dois. Não sei absolutamente nada. É como se ela tivesse sido… deixada aqui. E só de pensar nisso, meu peitö dói. Quem abandona uma bebê indefesa? Quem tem coragem de virar as costas para uma criança assim? A Aurora se mexe de novo, e eu beijo o topo da cabeça dela. Não quero pensar nisso agora. Não com ela tão perto, tão dependente de mim. Depois de alguns minutos, volto para dentro da mansão. O silêncio interno é quebrado apenas pelo som distante da cozinha. Passo pelo corredor, entro ali e encontro a Margarida já trabalhando, avental preso na cintura, café sendo preparado. — Bom dia! — Ela diz, com um sorriso cansado. — Bom dia. — Respondo. Ela estende os braços. — Posso segurar um pouquinho? Entrego a Aurora com cuidado. Margarida a segura com experiência, apoiando bem o corpinho. A Aurora observa tudo, olhos atentos, curiosos. — Essa última noite foi complicada... — Digo. — Ela chorou muito. Um choro bem desesperado. Mas agora parece estar melhor. — Eu entendo. — Margarida responde. — Tenho dois filhos. Criei sozinha. Foram muitas noites assim. Eu suspiro. — Não é fácil. — Não mesmo. Mas vale a pena. Meus filhos são uma bênção. Sorrio, mas meu sorriso cai rápido quando a Aurora resmunga. Estendo os braços de novo, e assim que a pego, ela se acalma quase imediatamente. O corpinho relaxa. A respiração desacelera. — Ela já tem apego em você... dá pra ver. — Margarida comenta. Aquilo aquece meu peito. — Espero que isso signifique que estou fazendo meu trabalho direito. Volto para o quarto da Aurora pouco depois. Coloco-a no berço com cuidado, fico ali acariciando os cabelinhos finos até ela finalmente dormir. O rosto dela relaxa completamente, como se o mundo tivesse parado de doer. Estou exausta. Não dormi quase nada. Mas não consigo deitar agora. Pego meu celular. Vejo a hora. Tem mensagem da minha mãe. Vou até a varanda do quarto, ligo para ela. — Bom dia, filha. — Bom dia, mãe. Conversamos um pouco. Ela pergunta como estão as coisas. Digo que estão bem. Do mesmo jeito. Nada mudou desde que cheguei, quer dizer, a Aurora cresceu. Está linda e mais gordinha. Mais esperta. A minha mãe sabe de tudo que acontece aqui. Não escondo nada. Afinal, é uma forma d eu colocar pra fora o que sinto e penso. — Alguma novidade sobre os pais da bebê? — Ela pergunta. — Nenhuma. — Respondo. — Nada até hoje. Ela suspira, irritada. — Isso não é normal, Nancy. Tem alguma coisa errada nessa história. — Aqui não tem perigo nenhum, mãe. É só uma casa de luxo. — Mesmo assim… três meses. Nenhuma visita dos pais. Ninguém da família? Eu concordo em silêncio. Isso está cansando a minha mente, mas não posso fazer nada. — É estranho, eu sei. Eu nem tenho mais o que dizer. Desligamos pouco depois. Vou até a cozinha comer alguma coisa. A mesa está toda servida e eu pego algumas coisas. Odete aparece, me dá bom dia, senta ao meu lado. — Hoje é dia de renovar seu contrato. — Ela diz. — O próximo é de um ano. Você quer continuar? Hesito. Cinco segundos. Um filme passa pela minha mente. Tudo o que amo. Tudo o que me incomoda. E penso na Aurora. Não consigo desistir disso por causa dela. Quem vai cuidar se eu sair? — Sim. — Respondo. — Eu quero continuar. Odete sorri. — Fico muito feliz. O seu trabalho é excelente. Não queremos te perder. — Eu sorrio. — E olha... eu sei que tem coisas complicadas e nem imagino o que passa na sua mente. Então... você se tornou uma pessoa de confiança. Eu sei que está cheia de perguntas, mas... espere um pouco. Eu aceno. Depois de comer, eu assino o contrato com uma pequena bonificação. Sem medo. Mas enquanto caminho pela casa, enquanto vejo novos cômodos, novas salas, novos corredores… a sensação permanece. Não existe nada. Nenhuma foto. Nenhum quadro. Nenhum nome. Nenhum sinal de pais. Nem tios, avós, primos. Nada! E eu começo a me perguntar quem sustenta tudo isso. Quem banca essa casa. E, principalmente… por quê. E, no fundo, eu sei que talvez, eu nunca tenha essa resposta.
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