Erika Ramalho
Quando abri os olhos tudo o que eu vi,embora ainda embaçado, foi um teto de quarto de luxo. Nitidamente não era o meu! Me sentei tão rápido que o espírito não acompanhou o movimento de meu corpo. Levei uns segundos para me recompor. Tentava lembrar de todas as formas o que tinha acontecido. Mas a julgar pelo fato de não estar acorrentada e nem ferida, fico um pouco mais tranquila.
Olho para o lado, aonde tinha uma mesinha de cabeceira e ali tinha um copo de suco com pedrinhas de gelo, uma banana cortada em rodelas com aveia e mel em cima, pedacinhos de mamão e um sanduíche com pão de grãos. Se fosse um sequestro, acredito que não seria tratada bem assim. Toco o chão com os pés quando me levanto e reparo melhor ao entorno. A cama era uma King size bem parecida com quarto de hotel de luxo. As janelas com persianas, o ar condicionado ligado... Uma televisão bem grande e um caminho que provavelmente dava para um banheiro. Caminhei até ele... o banheiro era amplo, em cores escuras... Não estava na casa de um qualquer, era a casa de um riquinho, e como parei aqui? Aí está a grande questão.
Volto e reparo a cômoda, no canto próximo a porta tinha um tipo de setup gamer montado. Tudo exalava riqueza. Volto a mesa de cabeceira e cheiro o suco antes de tomar um gole. Meu estômago ronca e eu pego o pratinho com o sanduíche, o que fez um papel cair. O pego.
"Bom dia gata. Seja uma boa menina e coma tudo, tem remédio para dor de cabeça na gaveta do armário do banheiro. Aproveite e tome banho, tem escova de dente e toalha separada lá pra tu, quando tiver bem, tô no terceiro andar, só colar"
Não entendia os motivos de ter sorrido com isso... Um sequestrador não me deixaria livre e nem me trataria assim. Seja quem fosse o dono dessa casa, eu tive a maior sorte!
****
Depois de ter me alimentado e feito uma bela de uma higiene matinal, vesti a camisa que estava junto com a toalha. Ela tinha um cheiro amadeirado, tão bom... Não era cheiro de perfume barato. A camisa me serviu como um vestido largo batendo no meio da coxa. Senti meu rosto queimar... Estava prestes a conhecer quem foi o generoso cara com quem dormi, mesmo não lembrando, infelizmente. Sai do quarto e foi impossível a luz do sol não me fazer quase ficar cega. Mas quando restabeleço percebo um corredor extenso com três portas fechadas, me apressei para o final do corredor onde tinha uma escada, a subi e quando cheguei lá em cima...
O coração parou por alguns segundos...
Apesar de um espaço de lazer tão bonito, com churrasqueira, mesas de jogos, e uma cozinha com decoração industrial, meus olhos se perderam em uma coisa...
O complexo da Penha visto do topo. E lá encostado no muro, um homem forte e alto de costas, recostado e fumando.
Engoli nada a seco.
Caí no ninho... e na maior armadilha... meu coração acelera e parece bater na garganta, sinto um bolo se formar em meu estômago, estava prestes a vomitar. As mãos tremiam, e meu corpo estava travado no lugar...
O homem de ontem... me trouxe pra sua casa...
Um chefe de morro, trouxe uma Major pra casa!
Me perguntava o quanto ele sabia sobre mim. Na verdade me fazia muitas perguntas até uma voz cortar minha linha de raciocínio.
—Gata... finalmente acordou... cola aqui, chega mais!
Ele se vira o suficiente para que eu possa reparar suas tatuagens, seus braços fortes, o peitoral definido e o abdômen firme. O cara era um Deus no corpo de um demônio!
E eu gostei...
Gostei do que vi...
Minha mente começava a se ofuscar com pensamentos insanos demais.
O medo de morrer, parecia sumir aos poucos. A incerteza se ele sabia quem eu era ou não começava a desaparecer enquanto meu corpo andava lentamente na direção dele, como um metal sendo atraído por um ímã irresistível. Parei a poucos centímetros, o bastante pra olhar nos olhos dele e o ver tragar e soltar a fumaça para cima.
—O vilão foi um bom moço na noite passada.
Não respondo, apenas controlo minha respiração —tento —enquanto olhava ele, e além dele... a Favela vista de cima era a coisa mais linda...
—Um playboy te drogou, consegui chegar antes dele te tacar no carro. Taria fudida, gata! Sabe lá o que o cuzão ia arrumar contigo.
Ele apaga o cigarro no muro e o deixa ali. Cruza os braços e me olha de cima a baixo, o que me faz tremer um pouco.
—c*****o, faz tempo que não vejo minha roupa no corpo de uma mina...
—A gente... —interrompo a minha fala quando ele sorri.
—A gente não transou. Se tá com dúvidas. Muito cara de comunidade tem mais respeito que esses leite e pêra chei da grana. Eu mesmo mando cancelar o CPF quando um dos meus fazem algo assim. Aqui no complexo é lei, gata.
Ele toca meu rosto, a mão um pouco gelada fazendo a pele penicar.
— Não faria nada com tu, mulher! Só o que quisesse! Não posso mentir que te ver deitada na minha cama só de calcinha e sutiã não me deixou tentado. Deus tá de prova que me segurei.
Seguro o pulso dele pra afastar sua mão de meu rosto. Ele por certo não sabia minha identidade. E isso seria um baita de um problemão.
Aqui, eu sou o gato, e ele é o rato chefe que a polícia mais luta pra por a mão! E eu estava aqui! Na frente dele, com a chance da minha vida e da minha carreira. Mas... sozinha...
—Deus... meu celular?
Ele da um sorrisinho de canto e se vira de costas se escorando no muro outra vez, admirando a comunidade que comanda.
—Tua bolsa tá na sala. Primeiro andar, pode pegar lá. Só que assim, gata. Não é porque o Dom te salvou que vou aceitar que grave as coisas. Espero que só ligue o celular fora daqui.
Sinto mais uma vez um bolo se formar na garganta.
—Não... é que minha amiga... ela deve estar preocupada. Eu tenho que dizer pra ela que estou bem.
Passo as mãos nos cabelos, aproveito pra prender eles em um coque. Percebi quando ele me olhou enviesado.
—Como está na faculdade? Não é todo dia que bati de frente com uma pessoa que estuda leis.
Meu coração acelera, qualquer pisadinha fora da linha poderia significar morte.
—Que?! —pergunto olhando diretamente pra ele.
—Ontem foi cachaça dos alunos de Direito, certo? Tu tava lá! Tu é aluna —ele aponta pra pulseirinha no meu pulso na cor que indicava "aluno" —não precisa mentir. Se for boazinha pode ser minha advogada quando eu me der m*l, SE eu me der m*l.
—Não! —agito os cílios e pigarreio —estou cursando medicina! Foi open bar dos dois cursos. —minto, foi necessário.
Sou uma mulher muito valente, e corajosa. Se não fosse não estaria na polícia!
Mas não sou burra.
—Eu estou no terceiro ano de medicina, fui acompanhar minha amiga que acabou de entrar —minto mais uma vez.
—Ela te deixou de xereca! — ele ri — tu tava sozinha mó cota, gata!
Engulo nada a seco, fiquei sozinha porque quis me distanciar das meninas. E apenas isso... Se tivesse acontecido algo grave, a culpa seria inteiramente minha.
—Então, médica... —se vira pra mim mais uma vez e me olha como se fosse me devorar —menos m*l, traficante se envolver com gente da lei, arriscado e... burrice... p***a, tu não sabe o quanto desejei você... Dormi no outro quarto, papo reto, nem dormi.
Ele sorri, de canto, travesso.
E por algum motivo muito i****a meu corpo meu trai por completo. Desta vez eu que me aproximo. Sentia a adrenalina correr em meu corpo. Aquela sensação do proibido, do errado... Do insano... aquilo me tentava e me invadia. Don desceu os olhos para fitar os meus, e os meus lábios. Era como se ele incendiasse cada centímetro meu.
Toquei seus braços com a ponta dos dedos, tateei a pele com cuidado, com carinho... senti queimar aonde tocava, o corpo dele respondia aos meus toques, assim como o meu respondeu de imediato quando me puxou pela cintura, firme. Colou o corpo no meu, me fez erguer o queixo pra olhar em seus olhos. Os dedos que antes exploravam a pele dos braços firmes agora subiam até o pescoço, e seguiu para o rosto aonde parou.
—Obrigada por me salvar...
Ele repousa a mão em meu rosto e acaricia com o polegar. Queria saber exatamente o que pensava enquanto me olhava daquele jeito. Tinha perguntas, perguntas internas que foram senciadas quando ele de um jeito quente e repentino...
Selou seus lábios nos meus...