Capítulo 12- “Foi por um fio”

1057 Words
Flutuei por entre sonhos e lembranças. Tudo parecia borrado, como se eu estivesse submersa em água morna, incapaz de distinguir o que era real e o que era apenas memória. Vi nós três: eu, Natália e Shelma, ainda meninas, rindo no terraço do colégio. Tínhamos promessas demais, corações limpos, e uma confiança que achávamos eterna. Depois, as imagens mudaram — o beijo deles, a dor, a corrida, o clarão dos faróis. E, de repente, um breu…completa escuridão. Meu corpo parecia pesado, como se estivesse grudado ao colchão. Um zumbido invadia meus ouvidos. A respiração era fraca, lenta, mas existia. Ainda existia. Com esforço, abri os olhos. A luz do teto parecia um sol distante. Piscava. Tentei virar o rosto, mas não consegui. Foi quando vi um vulto branco se aproximar. Um homem alto, com uma expressão calma, vestindo um jaleco. Seus olhos me examinaram com atenção, e então… ele estendeu a mão e acariciou o meu rosto com uma delicadeza que eu não esperava. — “Você está segura agora,” ele murmurou, quase como se falasse para si mesmo. “Vai ficar tudo bem…” Quis perguntar quem era ele, mas as palavras não saíram. A presença dele, no entanto, acalmou algo em mim. Como se, por um breve instante, o mundo não doesse tanto. Fechei os olhos novamente. E mergulhei de volta naquele sono escuro… Mas agora, pela primeira vez desde o acidente, não havia medo. Dormi profundamente. Acordei com o som irritante de máquinas apitando. Uma dor s***a atravessava o meu corpo, como se cada célula estivesse tentando lembrar que ainda existo. Luz branca. Cheiro de hospital. E uma sensação de vazio tão grande que quase engoli. Tentei mexer os dedos, mas meu corpo parecia preso. Minha boca estava seca, a cabeça latejava. Ouvi vozes abafadas do lado de fora, uma delas chorava. Natália? Pisquei com esforço. Tudo embaçado. E, por um segundo, desejei não ter voltado. Porque voltar era lembrar. E lembrar… doía mais do que qualquer fratura. Vi um vulto se aproximar. Uma mão tocou a minha. — “Kataleya… graças a Deus…” — era a voz da Shelma. Mas havia culpa ali. No jeito que ela segurava minha mão. No jeito que ela não conseguia me encarar direito. Eu queria gritar. Queria perguntar por quê. Queria saber porque fez isso, como começou, quando começou. Mas tudo o que consegui foi uma lágrima solitária escorrendo pelo canto do olho. Depois que uma lágrima solitária escorreu ao ver Shelma ali, parada, eu virei o rosto lentamente em sua direção. Puxei minha mão de volta, ainda fraca, mas determinada, e disse, com a voz ofegante e baixa: — Vai embora. Shelma engoliu o choro, mas não conseguiu segurar. As lágrimas começaram a cair silenciosas enquanto ela se levantava. Com os olhos marejados, ela caminhou em direção à porta. Ao abri-la, deparou-se com Natália — O que foi que aconteceu? — Natália perguntou, aflita ao ver o estado de Shelma. Shelma não respondeu. Apenas desviou o olhar e saiu. Natália, assustada e confusa, entrou na sala. Quando viu que eu estava acordada, correu até a cama. — Kat! Graças a Deus… — ela tocou meu braço com cuidado — o que foi aquilo? Por que você bateu no Shelby e saiu daquele jeito do baile? Eu não respondi. Minhas mãos, mesmo fracas, apertaram com força o lençol. Meus olhos se encheram de raiva, e meu corpo inteiro tremia por dentro. Eu não queria falar daquilo. Não agora. Tentando mudar de assunto, perguntei: — O que aconteceu depois do acidente? Natália puxou uma cadeira e se sentou ao meu lado. — Todos ficaram desesperados — começou. — Shelby chorava muito, parecia em choque… como se tivesse a se sentir culpado. A Shelma ficou paralisada. Ninguém sabia o que fazer. A ambulância chegou rápido, você foi colocada na maca, e quando chegamos ao hospital, um médico apareceu quase que do nada. — Um médico? — Sim… ele estava de jaleco, parecia apavorado. Mandou que te levassem direto para a sala de operações. Falava com uma urgência… como se te conhecesse de alguma forma. Fiquei em silêncio por alguns segundos. O coração batia mais forte. Tentei lembrar, mas… tudo ainda era um borrão. — Você o conhece, Kat? — Natália perguntou. Balancei a cabeça lentamente. — Não sei… não vi o rosto dele. E isso me assustava ainda mais. Shelby foi me visitar no hospital dias depois. Entrou no quarto em silêncio, com o rosto abatido, os olhos cansados de tanto chorar. Carregava um buquê de flores e um pedido de perdão preso na garganta. — Kat… — ele murmurou, dando um passo à frente. — Vai embora — respondi, virando o rosto para a janela. Ele insistiu, tentou falar, tentou justificar. Mas todas as vezes em que voltava, mas a minha resposta era sempre a mesma: “Vai embora” E ele ia… sempre com o olhar quebrado e o coração nas mãos. … Os dias foram passando, e meu corpo começou a responder melhor aos tratamentos. As dores diminuíram, e a rotina do hospital se tornou um pouco mais suportável. As enfermeiras vinham constantemente me ver — sempre gentis, cuidadosas, trazendo comida, trocando curativos, verificando os batimentos. Numa tarde, enquanto uma delas me examinava e ajeitava a bandeja com o almoço, não aguentei a curiosidade que vinha crescendo desde o dia em que acordei. — Enfermeira… — chamei com a voz ainda um pouco rouca. — Você sabe quem foi o doutor que me operou? Ela sorriu, com um certo orgulho no olhar. — Foi o doutor Anderson. Um dos melhores cirurgiões que já passaram por aqui. — Ele está de plantão hoje? — perguntei, tentando disfarçar o interesse que fervia dentro de mim. A enfermeira balançou a cabeça negativamente. — Não. Foi chamado para uma cirurgia de emergência na Tailândia. Um caso grave, não podia recusar. — Sabe quando ele volta? — Em uma semana, talvez duas. Mas ele sempre volta. Esse hospital é como casa pra ele. Assenti, silenciosa. “Doutor Anderson”, repeti mentalmente. Depois agradeci a ela. Ainda não conseguia lembrar do seu rosto, mas havia algo naquele toque, naquele gesto suave no meu rosto antes de eu apagar novamente… algo que me deixava inquieta. Como se nossos caminhos já tivessem se cruzado antes…mesmo que eu ainda não soubesse como.
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