O dia da alta chegou. Eu ainda estava fraca, mas pronta para sair daquele lugar que só me lembrava dor. Natália apareceu para me buscar — e para minha surpresa, Shelby estava com ela.
— Oi, Kataleya — disse ele, com um sorriso tímido e culpado.
Fingi que não ouvi.
Natália me ajudou a levantar devagar. Shelby, preocupado, se aproximou e estendeu o braço para me apoiar.
— Deixa que eu te ajudo…
Puxei meu braço de volta com firmeza e disse, sem sequer olhar para ele:
— Natália me ajuda.
Shelby ficou paralisado. A rejeição doeu mais do que qualquer palavra que eu pudesse dizer. Natália, desconfortável, se aproximou e me apoiou com cuidado.
Enquanto saíamos do hospital, com passos lentos, Shelby caminhava atrás, em silêncio. Pela primeira vez, ele entendeu que tinha me perdido de verdade.
E eu… eu estava decidida a não olhar para trás.
Passou-se uma semana.
Eu já estava recuperada o suficiente para voltar ao trabalho. As cicatrizes físicas ainda doíam um pouco, mas as emocionais… essas pareciam crescer todos os dias.
Naquela sexta-feira, cheguei em casa cansada, com a mente cheia, querendo apenas um banho quente e silêncio. Mas, ao abrir a porta, encontrei Shelma sentada no sofá da sala. O rosto abatido, os olhos inchados de tanto chorar.
— Precisamos conversar — disse ela, levantando-se de imediato. — Eu não aguento mais essa rejeição, Kataleya.
Fechei a porta com calma. Deixei a bolsa sobre a mesa e a encarei.
— Rejeição? — repeti, com um riso irônico. — Acha mesmo que o que você fez merece só rejeição, Shelma?
Minha voz falhou no fim da frase. As lágrimas vieram sem aviso. Um nó na garganta me impedia de respirar direito.
— Eu confiei em ti — continuei, a voz embargada. — Contei meus segredos, dividi minha vida, falava de tudo que eu fazia com o Shelby… E você? Você beijou o Shelby! E não se sabe quantas vezes você fez isso, que me#da Shelma. Você tá zoando comigo? Sabia o que ele significava pra mim!
Shelma começou a chorar também, mas eu não parei.
— Eu podia esperar isso de muita gente… menos de ti! — gritei, deixando o choro me dominar de vez. — Você destruiu tudo. Minha confiança, minha paz, minha vontade de acreditar nas pessoas.
Ela tentou se aproximar, mas recuei um passo.
— Eu não sei se um dia vou conseguir perdoar, Shelma. Não sei. Porque tem dores que marcam mais do que qualquer acidente e talvez permanecem pra vida toda!
A sala ficou em silêncio, cortada apenas pelos nossos soluços. O que havia entre nós — aquela amizade tão pura e sólida — agora estava em ruínas.
O som da porta se abrindo cortou o silêncio carregado da sala. Natália entrou e nos encontrou frente a frente, as lágrimas ainda frescas no meu rosto e no de Shelma.
— O que está acontecendo aqui? — ela perguntou, olhando de uma pra outra.
Virei-me pra Shelma, com a voz firme e fria:
— Você vai contar… ou eu conto?
Shelma hesitou. Baixou os olhos, mas não disse nada.
Antes que qualquer uma respondesse, Willian e Shelby chegaram. Pareciam ter vindo juntos. Willian sorriu ao entrar, mas logo parou ao perceber o clima pesado.
— Ainda bem que todo mundo está aqui — eu disse, cruzando os braços, o coração batendo acelerado. — Porque é bom que todos ouçam de uma vez.
Todos ficaram em silêncio.
— Na noite do baile, enquanto eu procurava vocês… eu vi com os meus próprios olhos — respirei fundo, tentando não quebrar no meio da frase — a Shelma e o Shelby aos beijos no bar do salão.
Um silêncio mortal caiu na sala.
Willian arregalou os olhos e, sem pensar duas vezes, ava nçou em Shelby, agarrando-o pela camisa.
— TRAIDOR! — gritou, acertando um soco certeiro no rosto dele.
Shelby caiu no chão com o impacto. Levantou-se cambaleando, pronto para revidar, mas Shelma se colocou na frente dele, empurrando-o pra trás.
— CHEGA! — gritou ela, ofegante. — Já basta!
Willian cuspiu no chão e apontou pra ela com desprezo.
— E tu… v***a! — disse, com raiva nos olhos.
— Não fala assim com ela! — Shelby rebateu, empurrando Willian de volta. — Ela não tem culpa sozinha! Eu também errei!
Eu assistia tudo em silêncio. A cena diante de mim era o reflexo da dor que vinha corroendo meu peito. Traições, mentiras, destruição de laços que eu julgava eternos.
Olhei para Shelby. Mesmo depois de tudo, ele a defendia. O coração apertou. O estômago revirou.
Peguei minha bolsa, limpando as lágrimas com as coisas na mão.
— Vocês se merecem — sussurrei, e saí, com as lágrimas caindo livremente no rosto e fui pra rua.
A noite lá fora estava fria, mas nem se comparava ao gelo dentro de mim.
Caminhei sem rumo pelas ruas frias da cidade, abraçando a mim mesma, tentando conter o vendaval dentro do peito. As luzes dos postes lançavam sombras longas, e cada passo ecoava como um grito no silêncio da noite.
Virei a esquina, ainda enxugando uma lágrima… parei bruscamente.
Diante de mim, um homem alto, de aparência séria, vestindo um terno escuro, estava parado sob a luz fraca de um poste.
Quando me viu, deu um passo à frente, os olhos fixos em mim.
— Finalmente encontrei você— disse com a voz firme, mas não ameaçadora.
Meu coração disparou. Dei um passo para trás, surpresa, confusa, tentando reconhecer aquele rosto.
— Quem é você? — perguntei, a respiração presa na garganta.
Ele não respondeu de imediato. Apenas estendeu a mão em minha direção, como se quisesse mostrar que não era uma ameaça.
— A única pessoa que fazia você feliz quando criança — disse ele.
Fiquei meio confusa, sem dizer nada, porque não sabia na realidade o que dizer. Achei que fosse um predador. Coloquei a minha mão na pasta, tento procurar um spray de pimenta… e na realidade… eu não tinha nenhum spray.
Então tentei fugir… ele logo me agarrou de trás e disse uma frase:
— “t**a os ouvidos, que o medo acaba”.
…