Capítulo 14- “Meu primeiro amor”

1096 Words
Aquela frase… "t**a os ouvidos, e o medo acaba." Congelou tudo ao meu redor. Por um momento, meu corpo travou. A voz… aquela voz… Ela veio como um sopro do passado, arrancando memórias que eu achava enterradas. Ele dizia isso sempre… sempre que meu padrasto começava a gritar… sempre que ele me abraçava forte e tapava meus ouvidos pra que eu não ouvisse os gritos da minha mãe. Virei-me devagar, o coração disparado, e tudo em mim soube, antes mesmo de ver o rosto: — Anderson? Anderson, é você? Ele sorriu. E eu virei rápido, num salto, abracei ele com uma força que nem sabia que tinha. Era como se eu tivesse voltado a ser aquela menina assustada que só se sentia segura quando estava com ele. Depois de um tempo, sentamos num restaurante ali perto. Nossas mãos ainda tremiam. O rosto dele… estava tão diferente, mas ao mesmo tempo, tão familiar. O mesmo olhar protetor. Conversamos por horas, lembrando da infância, das vezes que nos escondíamos embaixo da mesa, das risadas baixas que compartilhávamos quando tudo finalmente silenciava. — Foi você que me operou, não foi? — perguntei, com a voz embargada. Ele assentiu, meio tímido. — Sim. Quando soube que era você, corri pra sala de cirurgia. Não ia deixar minha irmã partir assim. Senti as lágrimas voltando, mas sorri. — Você tá tão diferente… tão homem… tá super gato, aliás. — brinquei, tentando quebrar o clima. Rimos juntos. Eu perguntei sobre a Tailândia, e ele me contou sobre as cirurgias, os desafios, a solidão de viver longe. Eu ouvia tudo como se estivesse tentando recuperar cada ano que a vida arrancou da gente. Fiquei em silêncio por alguns segundos e então deixei escapar: — A última imagem que tenho de você…Foi te ver sendo colocado à força naquele carro, indo pro internato. Eu chorei tanto, Anderson. Achei que nunca mais ia te ver. Ele segurou minha mão, com aquele mesmo carinho de antes. — Mas agora eu voltei, Kataleya. E dessa vez, eu não vou mais sumir. Anderson me olhava com um sorriso meio bobo enquanto falávamos sobre o passado. O tempo não tinha apagado a lembrança do irmão que foi arrancado de mim tão cedo. Ver ele ali, na minha frente, me trouxe uma mistura de conforto e confusão. — E você… — disse ele, pegando minha mão com cuidado — mudou tanto e ao mesmo tempo, continua sendo aquela menina teimosa. Sorri sem jeito. Mas aquele momento logo se quebrou quando ele disse: — Kataleya, você precisa me contar… o que aconteceu com você? Quando te vi naquela maca, quase entre a vida e a morte, algo dentro de mim congelou. Eu achei que te perderia de novo. Abaixei o olhar. Por um momento, o restaurante sumiu, as luzes se apagaram na minha mente e tudo que veio foi o gosto da traição. As imagens. A dor. E aquela pergunta que me assombrava: por quê? — Não sei nem por onde c o estou pronta pra perdoar ninguém. Ele assentiu em silêncio. Mesmo sem saber o que realmente aconteceu, desde que me faz sair ferida, ele concorda comigo: — Então não perdoe ainda. Mas não deixe essa dor te consumir sozinha. Eu tô aqui agora, e não vou embora. Meus olhos marejaram. As palavras dele bateram forte. “Eu tô aqui agora, e não vou embora.” Foi como se alguém tivesse rebobinado a fita da minha memória, me jogando de volta para aquele tempo, antes de tudo desabar. **** Era uma tarde abafada de verão. Eu devia ter uns sete anos, Anderson tinha dez. Estávamos no quintal da nossa antiga casa, brincando com uma mangueira: — Kat, vem cá — ele disse, se escondendo comigo atrás do velho galinheiro quando ouvimos os gritos lá dentro de casa. A voz do nosso pai era sempre como trovão. Barulhenta. Amedrontadora. — Ele vai machucar a mamãe de novo? — perguntei com a voz embargada, os olhos cheios de lágrimas . Anderson, sem pensar duas vezes, tapou meus ouvidos com as mãos pequenas e sujas de lama e disse baixinho, encostando a testa na minha: — t**a os ouvidos e o medo acaba. Nunca vou deixar ninguém te machucar, tá? Eu acreditava nisso. Naquele momento, o mundo era meu dele. Meu porto seguro. **** Voltei à realidade com os olhos embaçados. Anderson ainda segurava minha mão com o mesmo cuidado de antes. Anderson insistiu em me levar até em casa. O caminho foi tranquilo, com ele tentando aliviar o peso da conversa com algumas piadas bobas — daquelas que só irmãos sabem fazer. Me fez sorrir. E, por alguns instantes, esqueci o caos da minha vida. Mas claro, a paz nunca durava. Assim que o carro estacionou em frente à minha casa, lá estava ele. Shelby. Encostado na mureta, com o olhar perdido, como se estivesse esperando há horas. Meu rosto mudou de expressão. — Quem é? — perguntou Anderson, enquanto desligava o motor. — Problemas — respondi seca, já abrindo a porta. Shelby deu dois passos em nossa direção, mas seus olhos pousaram em Anderson, que saía logo atrás de mim. Vi a mudança imediata em sua expressão. Ele franziu o cenho, e aquele tom sarcástico que eu odiava voltou com força total. — Nem esperou muito tempo pra encontrar consolo, né, Kataleya? E logo com o médico que te operou? Que conveniente… Me virei tão rápido que até Anderson se assustou. — Cala a boca, Shelby! — gritei. — Cê sabe o que está dizendo? Ele deu um passo pra trás, mas não recuou o olhar. — Tô vendo, só isso. — Pois vê melhor! — cuspi as palavras. — Esse é o meu irmão! E mesmo que não fosse, tu não tens mais direito nenhum sobre mim! Nenhum! Ele ficou calado por um segundo, mas ainda firme. O orgulho ferido estampado no rosto. — Eu nem entendo o que ainda estás a fazer aqui — continuei, a voz embargada. — Pra mim, seria melhor se você e a Shelma desaparecessem da minha vida. Longe. Bem longe. Shelby pareceu engolir seco. Seus olhos baixaram por um instante. Mas eu já tinha virado as costas. Anderson me segurou com delicadeza pelo ombro e murmurou: Relaxa Kataleya, relaxa. Eu te vejo amanhã. E, pela primeira vez em dias, senti que tinha alguém do meu lado, alguém que eu podia confiar. Entrei logo em casa, e Natália estava me esperando sentada, logo que entrei, ela levantou e me deu um abraço, fomos logo pra o quarto… e Shelma… parece que já tinha ido embora…
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