Capítulo 8- “Uma nova fase”

1294 Words
… Disfarcei encarando os sapatos como se eles fossem a coisa mais interessante do mundo. Era mais fácil lidar com couro sintético do que com o jeito como o olhar dele ainda pesava sobre mim. O clima ficou suspenso por um instante. Nem silêncio, nem conversa. Só aquela mistura estranha de riso, vergonha e algo que eu não queria — ou não podia nomear. Voltei para a cadeira tentando fingir normalidade, mesmo com o rosto ainda ardendo. O salto insistia em escapar dos meus dedos trêmulos, como se até ele tivesse decidido me sabotar naquele dia. Shelby continuava ali, quieto, sério demais para o que tinha acabado de acontecer — mas o canto da boca dele entregava um sorriso contido. Aquilo só me deixava mais desconcertada. Natália, por outro lado, parecia se alimentar da situação. Encostada numa arara, cruzou os braços e soltou uma daquelas provocações que só ela sabia fazer. Eu nem precisava ouvir as palavras pra saber que vinha algo constrangedor. Levantei os olhos, indignada, mas ela não parou. E quanto mais eu corava, mais ela se divertia. Tentei protestar, mas o que saiu foi uma risada abafada, nervosa. A verdade é que não dava pra lutar contra aquilo. Nem contra ela. Shelby olhou brevemente pra Natália, arqueando a sobrancelha, como se dissesse “sério isso?”. Depois apenas ajeitou o casaco e voltou a enfiar as mãos nos bolsos, mantendo distância — física e emocional, talvez. Mas ele ainda me observava, eu sabia. --- Depois de experimentar mais vestidos do que eu podia contar — e tropeçar em pelo menos dois pares de salto no processo —, finalmente encerramos as compras. Natália, sempre eficiente, ajeitou as sacolas nos braços e me puxou em direção à saída. Shelby vinha logo atrás, silencioso, mas atento como sempre. Era curioso o jeito como ele não se impunha, mas nunca deixava de estar presente. Foi aí que aconteceu. Um som longo e inconfundível ecoou no meio da calçada: meu estômago. Alto. Claro. Incontrolável. Natália, claro, explodiu em gargalhada como se aquilo tivesse sido o auge do entretenimento do dia. Shelby, por sua vez, deixou escapar uma risada discreta — e por um segundo, mesmo envergonhada, me peguei sorrindo também. Não tinha mais como disfarçar. Estava faminta. Suspirei e me rendi, já me preparando para ser zoada por dias. Logo a seguir, sentamos ao ar livre, em uma pequena lanchonete. Comemos. Risadas atrás de risadas e sem perceber, já era fim do dia. O sol já se despedia quando chegamos em casa. As sacolas balançavam nos meus braços e nos de Natália, enquanto Shelby, com a maior naturalidade do mundo, carregava as mais pesadas. Ninguém falou muito no caminho — era um silêncio confortável, quase cúmplice. Ao abrirmos a porta, o aroma quente de pão torrado e café fresco nos envolveu como um abraço. A luz amarelada do abajur suavizava a sala, onde Shelma e Willian riam baixinho, compartilhando um lanche simples, mas cheio de significado. Ela estava com o cabelo preso de qualquer jeito, a bolsa de cosméticos largada no canto. Ele, ainda meio contido, mas visivelmente mais à vontade. Havia algo ali — uma troca silenciosa, como se ambos tivessem encontrado uma pausa segura no meio do caos. Ficamos parados na porta por alguns segundos, só observando. Mas depois nos juntamos a eles. O clima leve se espalhou pela sala como perfume no ar. Risos, cheiros de comida, sacolas largadas pelo chão… por alguns instantes, a casa parecia esquecer de tudo o que já tinha suportado. Esquecer da dor, do medo, das marcas. A noite caiu devagar, envolvendo tudo num silêncio morno. As sacolas ficaram encostadas num canto, como vestígios das nossas pequenas vitórias — os tropeços, as piadas, os olhares desviados. A mesa, ainda com migalhas e copos esquecidos, parecia guardar o rastro de algo simples, mas verdadeiro. Vi Shelma recolher alguns pratos enquanto Willian se levantava ao lado dela. Shelby ficou ali, quieto, como sempre. Nenhum dos dois fez alarde — apenas um aceno, um abraço breve, um olhar que dizia mais do que palavras. E então, a porta se fechou. Os passos deles foram se afastando rua afora, e quando o som sumiu de vez, percebi como a casa tinha mudado. Ficamos só nós três. O silêncio agora não era vazio. Era um descanso. Era como se cada uma de nós, por um milagre pequeno e inesperado, tivesse conseguido respirar um pouco mais fundo naquela noite. Trinta dias já haviam passado. O dia tinha chegado. Acordei antes do despertador, com aquela inquietação que não deixava espaço nem para o sono. Arrumei o cabelo com mais cuidado do que o normal e me olhei no espelho tantas vezes que perdi a conta. O uniforme vestia perfeitamente — parecia feito pra mim — mas por dentro, eu m*l cabia em mim mesma. O coração batia alto, como se quisesse anunciar para o mundo inteiro que eu estava nervosa. Quando abri a porta para sair, levei um susto. Shelby estava ali, com a mão erguida, pronto pra bater. Parecia hesitante, como se estivesse medindo a própria coragem. Disse que pensou em me acompanhar até o trabalho. Que queria garantir que eu não fosse sozinha. Não sei o que me tocou mais — o gesto em si ou o jeito contido com que ele ofereceu ajuda. Mas aceitei. Nem precisei pensar duas vezes. A presença dele, silenciosa, acabou sendo um alívio inesperado. Seguimos até o carro. E o silêncio entre nós foi confortável… até certo ponto. Eu me mexia demais, mexia as mãos, os braços, os pés. A ansiedade me engolia em ondas. Foi então que senti a mão dele tocar meu braço. Um gesto simples, mas firme. Como se dissesse: “calma”. voz dele veio calma, quase baixa demais. —Respira.Vai dar certo.Você tem mais força do que imagina. Palavras curtas, mas que pareciam abrir espaço no meu peito. Como se, por um segundo, tudo fosse possível. Soltei um riso nervoso, e deixei que a esperança coubesse ali comigo, mesmo que só por aquele instante. Quando chegamos ao hotel, ele estacionou com calma e, antes que eu abrisse a porta, me olhou de um jeito diferente. Ele perguntou sobre o meu horário de saída. A voz dele era baixa, mas havia firmeza ali — como se quisesse garantir que eu soubesse que não estaria sozinha no fim do dia. Respondi quase num sussurro, e ele apenas assentiu, como quem acabava de selar um acordo silencioso. —“Então eu venho te buscar” — disse. Desci do carro com passos ainda um pouco incertos. Mas havia algo novo me acompanhando. Um sentimento que não era só medo, nem ansiedade — era expectativa. E, pela primeira vez naquela manhã, ela parecia mais leve do que o peso que eu carregava. Esses trinta dias passaram rápido demais, mas mudou tudo. Natália voltou a sorrir de verdade. Shelma e Willian se tornaram inseparáveis — leves, intensos, certos um para o outro. Shelby continuava sendo Shelby: distante, presente, difícil de decifrar… mas cada vez mais constante. O trabalho virou rotina, e a casa, um abrigo vivo de risos, silêncios e reencontros. Mas se algo acontecesse conosco a gente tava pronta —“pelo menos era o que eu pensava”. O fim do expediente chegou. Esperei na calçada, o coração acelerado a cada carro que passava. Quando vi o dele, reconheci de longe — e sorri. Mas então, dois rostos surgiram do vidro chamando meu nome — Natália e Shelma. Meu sorriso vacilou. Foi rápido, quase imperceptível. Mas aquela esperança silenciosa de que fosse só ele… desapareceu. Fingi não me abalar. Caminhei até o carro, com rosto calmo. Pelo retrovisor, ele me viu. Não disse nada. Mas eu soube — ele notou. …
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