Entrei no refeitório e, ao me ver, Shelby se levantou, puxando a cadeira para que eu sentasse. Tentei não mostrar que era tudo muito estranho, enquanto ele falava de Anderson e da Lukela, e logo depois perguntou como alguém que era meu irmão acabou se tornando meu namorado, como se quisesse ler minha mente. Revirei os olhos, desviando o olhar, e só consegui responder: "Vamos comer, estou com fome."
Terminamos o almoço em silêncio, e quando me levantei, senti sua mão no meu braço. Soltei-a imediatamente, surpresa. Foi então que vi Anderson do outro lado do vidro, parado, observando. Suspirei, tentando controlar o desconforto. Peguei minhas coisas e saí rapidamente dali, contornando o refeitório para encontrá-lo. Dei um abraço rápido nele, ele olhou pra mim fixamente, dei–lhe outro abraço sussurrando que não queria começar nenhuma briga por causa de Shelby.
Anderson me olhou preocupado e perguntou o que ele queria. Eu disse que também não sabia ao certo.
— Por favor, vamos deixar pra lá — pedi, segurando sua mão.
Enquanto falava, pude ver pelo vidro que Shelby continuava parado, observando-nos, mas não dei atenção. Meu foco estava totalmente em Anderson.
Nos retiramos daí, e Anderson comentou que estava me procurando e aproveitou a hora do almoço para me ver. Sorri, sentindo uma felicidade genuína pela surpresa, e disse que estava muito feliz com a sua visita, mas não podia ser frequente, pois era o meu local de trabalho.
Ele concordou com um leve sorriso e acrescentou que viria me buscar às 16h, no final do meu turno.
Ao sair, Anderson deu de cara com o Shelby. Ao ver aquela cena rapidamente me concentrei no que estava fazendo. Já estava na recepção atendendo um cliente, e sabia que não podia perder o foco. Era essencial manter o profissionalismo, mesmo que meu corpo e mente estivessem desconfortáveis com a situação. Cada sorriso e cada gesto precisavam ser precisos, e apesar de tudo, meu olhar não conseguia deixar de perceber a presença deles ali, imóveis do outro lado do balcão.
A única coisa que consegui ouvir da boca do Anderson foi uma pequena parábola ou metáfora:
“Cada morador cuida das plantas que estão à porta de sua própria casa. Se duas pessoas tentarem regar o que é do outro, sem respeito pelo espaço privado, pode murchar.”
Ele olhou para o Shelby, e acrescentou, quase como uma confirmação silenciosa de que o recado havia sido entendido:
— Eu sei que você entendeu.
Fiquei parada, observando a cena. As palavras não eram para mim, mas o peso delas chegava até mim, fazendo meu coração acelerar. Algo naquela tensão entre os dois parecia… sei lá, uma briga entre olhares.
“E então Anderson se foi. Mas havia algo no ar… Sabe aquela sensação estranha de saber que alguém te observa, mesmo sem encarar diretamente?... Eu tive essa sensação quando Shelby voltava pra sua sala. Meu corpo quis se retrair, mas eu me mantive firme, respirando fundo, afinal, quem controla meu corpo sou eu, e não ele a mim”.
Respirei fundo, contei mentalmente até cinco, e forcei um sorriso profissional para o cliente. Mas, por dentro, cada segundo parecia esticar-se, e eu desejava apenas que ele desaparecesse daquele corredor e que tudo voltasse ao normal, mesmo que por poucos minutos.
Depois de atender o cliente eu só conseguia pensar que eu não sabia exatamente o que o Shelby queria. Não deixei ele falar. Talvez não fosse nada demais, mas por que ele estava me deixando tão desconfortável? Qual é o problema dele? Parece que confundir as pessoas era o seu maior papel neste drama. Não queria mais pensar nisso.
Terminei meu turno, exausta, e já me preparava para sair do hotel quando, do outro lado do saguão, avistei o Shelby. Meu coração disparou sem que eu pudesse controlar. Tudo dentro de mim gritou “foge!”. Sem pensar duas vezes, empurrei a porta de saída e corri como se estivesse sendo perseguida.
Chegando à calçada, não hesitei: levantei o braço, sinalizei um táxi e, em poucos segundos, já estava dentro, com as mãos trêmulas e a respiração ofegante. Só depois percebi que havia esquecido completamente do Anderson, que prometeu me buscar hoje.
Cheguei em casa desorientada, ainda com o coração acelerado pela fuga do hotel. Natália saiu do quarto, atraída pelo estrondo da porta, e perguntou com preocupação:
— O que aconteceu?
Forcei um sorriso e respondi, tentando soar natural:
— Nada, só um dia pesado…
Para mudar de assunto, lancei:
— Já conheceu o vizinho novo?
Ela revirou os olhos e disse com ironia:
— Vizinhos novos? Isso é o que menos me preocupa. Não acrescenta nada ao meu dia.
Não resisti e brinquei:
— Estraga prazeres!
Fui até o quarto, fechando a porta atrás de mim.Não resisti e, ainda do quarto, gritei para ela:
— Você precisa conhecer pessoas novas e se deixar levar!
E ela gritou de volta:
— Tretas!
Depois sentei-me na cama, refletindo sobre o dia que tive.
Depois meu celular chamou.
Meu celular vibrava na bolsa. Olhei e vi o nome de Anderson na tela. O coração disparou antes mesmo de atender. Hesitei por um instante, tentando juntar as palavras certas, mas ele já estava falando:
— Kataleya? O que aconteceu? Cheguei no hotel e você não estava lá. Fiquei preocupado… ninguém me disse que você ia sair.
Minha garganta ficou seca. Eu queria explicar, mas tudo soava confuso na minha cabeça. Tentei soar calma, mesmo sentindo o peito apertado:
— Eu… precisei sair rapidinho, Anderson. Não queria te preocupar.
Ele respirou fundo do outro lado da linha, e eu podia sentir a tensão na sua voz, mesmo pelo telefone.
— Kataleya… você sabe que eu me preocupo, certo? Não some assim sem avisar.
Senti um peso no peito. Sabia que ele tinha razão, mas eu não podia dizer que saí correndo por causa do Shelby. Não sei bem se era uma mentira, mas foi a primeira vez que ocultei algo do Anderson.
— Eu sei… — murmurei, quase sem voz. — Prometo que te explico depois.
O silêncio caiu entre nós, pesado e cheio de palavras não ditas. E naquele instante, eu percebi que, mesmo tentando proteger meu espaço, Anderson já estava ali, segurando minha mão no sentido literal, com uma preocupação que não fazia sentido e que eu não sabia como ignorar.
Anderson era tão protetor que não se contentou com a ligação, então veio pra minha casa.
Enquanto dirigia de volta, algo chamou sua atenção: na calçada, de costas, um homem observava a nossa casa. Anderson parou, desceu do carro e se aproximou, com o instinto protetor.
— Ei! O que você está procurando aqui? — perguntou, firme, sem esconder a irritação.
O homem se virou levemente, tentando soar casual:
— Ah, nada demais… só achei que vi alguém familiar entrando na casa, é só isso… nada demais — respondeu, levantando as mãos em sinal de que não queria confusão.
Anderson estreitou os olhos, desconfiado, mas não insistiu. O homem deu de ombros, recuou alguns passos e logo se retirou, desaparecendo pela rua.
Logo a seguir Anderson entrou e me contou o que viu. Eu disse que ele era exagerado e que vivia desconfiando de todo mundo. Ele não disse nada e a noite seguiu.
…
Na manhã seguinte, Natália saiu para a sua corrida habitual. Já exausta, decidiu sentar-se em um dos bancos próximos ao lago. Foi quando percebeu uma mão estendida, oferecendo-lhe uma garrafa de água.
— Obrigada, mas já tenho água — disse ela, ainda recuperando o fôlego.