Ele sorriu levemente. — Eu não sabia o que você gostava, mas água todo mundo gosta, não é? — disse, oferecendo o gesto como uma forma de desculpa pelo incidente da outra vez.
Natália hesitou por um instante, mas respondeu:
— Já passou, não se preocupe.
Então ele disse seu nome: Zen. Natália fez uma pequena pausa, avaliando se deveria ou não revelar o seu. Mas, depois, estendeu a mão em cumprimento e também disse o seu nome. Despediu-se dele.
Seguiu correndo, e percebeu que ele também a acompanhava. Onde ela fazia a curva, ele fazia a mesma. Natália parou, cruzou os braços e perguntou:
— Você está me seguindo?
— Não — respondeu, ultrapassando-a com naturalidade. Ela viu que ele continuava seu caminho, e então prosseguiu a corrida.
Ao chegar em seu bairro, percebeu Zen abrindo a porta da casa ao lado. Ela parou, surpresa, e ele acenou, dizendo um “chau”. Sem pensar muito, Natália retribuiu o aceno, sentindo uma mistura de curiosidade e desconfiança.
Natália entrou em casa e me encontrou com Lukela na sala. Seus olhos se encontraram com os meus por um instante que durou mais do que alguns segundos — era como se ela quisesse me passar uma mensagem silenciosa, um código só nosso. Sem precisar de palavras, eu entendi: havia algo que ela queria dizer, mas não naquele momento.
Ela então desviou o olhar, sorriu e se aproximou de Lukela, cumprimentando-a com um abraço alegre, cheio de energia e simpatia. A atmosfera se tornou leve por um instante, como se nada tivesse acontecido, e Lukela retribuiu com um sorriso caloroso.
— Vou tomar um banho pra tirar o suor — disse Natália, ainda sorrindo, e se dirigiu ao banheiro.
Quando Natália finalmente desceu, estava super alegre. Ela parecia mais leve, mais solta, como se o banho tivesse lavado não só o suor, mas também parte do seu lado triste.O sorriso no rosto dela parecia natural e genuíno.
Nos acomodamos na cozinha, com Lukela ao nosso lado, e começamos a preparar um lanche. Enquanto cortava frutas e preparava sanduíches, observava as duas com atenção. Cada gesto, cada movimento, parecia contar uma história por si só. Ela falava com Lukela de forma descontraída, rindo de pequenas coisas.
O clima entre nós três era leve e agradável. Risadas surgiam com naturalidade, e por um momento tudo parecia simples, quase inocente. Por horas a gente esqueceu de todas preocupações.
O clima entre nós três continuava leve, com risadas e pequenas conversas, até que, em um momento sorridente, Lukela lançou a pergunta:
— E se chamássemos a Shelma?
Meu sorriso mudou, não de imediato, mas houve um deslocamento sutil, quase imperceptível, que tentei disfarçar com cuidado. Natália percebeu, talvez, mas não comentou.
— Talvez ela não venha… — respondeu Natália, com calma, como se já esperasse a minha reação. — Deve estar ocupada cuidando da empresa.
Mas Lukela insistiu, rindo, sem perceber o pequeno desconforto que eu sentia. Eu permaneci em silêncio, tentando controlar o turbilhão de pensamentos que se formou naquele instante. Não era raiva, nem mágoa , era apenas aquele aperto no peito que surgia sempre que o nome de Shelma aparecia.
Depois de alguns segundos, Natália pegou o telefone e ligou. Eu observei, o coração batendo mais rápido do que eu queria admitir. Para minha surpresa, Shelma atendeu e, no abrir e piscar de olhos, concordou em aparecer. A rapidez da resposta me deixou sem palavras.
Continuamos a conversa, rindo e trocando histórias leves, até que a campainha tocou. O som cortou o clima descontraído por um instante, fazendo meu coração acelerar sem que eu soubesse exatamente por quê.
Natália foi a primeira a se levantar e abrir a porta, e lá estava… Shelma.
Ela entrou com aquele jeito seguro, confiante, como se dominasse o espaço ao redor sem esforço. O sorriso dela era amplo, caloroso, mas havia algo nos olhos que sempre me fazia ficar alerta — uma mistura de energia, determinação e um leve toque de provocação, ou talvez era só coisa da minha cabeça.
— Oi, meninas! — disse, com a voz que preenchia o ambiente, fazendo o clima mudar imediatamente, carregando a presença dela para dentro da sala.
Natália retribuiu o cumprimento com entusiasmo, e Lukela também se aproximou, rindo de alguma brincadeira que Shelma fez no momento do cumprimento. Eu fiquei parada por um instante, observando cada gesto, cada expressão. Shelma tinha essa facilidade de se tornar o centro das atenções sem esforço, mas ao mesmo tempo fazia com que todos ao redor se sentissem especiais e incluídos.
Quando Shelma colocou o bolo sobre a mesa, Natália parecia encantada com a surpresa, Lukela não parava de comentar sobre o aroma e a aparência do bolo, e eu senti uma pontada de algo indefinido.
Sentei-me à mesa, observando as interações e tentando me concentrar no momento. Rimos, cortamos o bolo, conversamos sobre coisas simples, havia uma tensão silenciosa, quase imperceptível, que pairava no ar. Era Shelma, com seu jeito direto e confiante, trazendo algo doce e, de algum modo, mexendo com todos nós — incluindo comigo mesma.
E ali, naquele instante, a tarde descontraída ganhava uma nova camada de intensidade, simplesmente por causa da presença dela.
Enquanto elas conversavam animadamente na sala, eu senti algo apertando no peito. O jeito como Shelma mostrava amor e preenchia o ambiente… tudo me deixava confusa. Não sabia exatamente como reagir. Fingir estar bem parecia impossível, e não era minha personalidade me esconder atrás de sorrisos que não sentia.
Respirei fundo e decidi subir ao quarto. Fechei a porta atrás de mim e me encostei nela por alguns segundos, apenas tentando organizar os pensamentos. Aquele clima lá embaixo era desconcertante: alegria, i********e, cumplicidade… mas algo me dizia que eu ainda não tinha meu lugar ali, ou talvez estivesse tentando achar onde me encaixar sem perder quem eu era.
Olhei em volta, procurando algo que me descontraísse. Cada detalhe do quarto parecia silencioso demais em comparação com o barulho lá embaixo. Por um instante, senti vontade de voltar e me jogar na conversa, rir como se nada estivesse acontecendo, mas sabia que isso seria uma mentira. Eu precisava entender meu próprio sentimento antes de decidir como agir.
Sentei-me na beirada da cama, observando a porta fechada, tentando ouvir sem me expor demais. O som das vozes… tudo isso parecia distante, mas ao mesmo tempo chamava minha atenção. E eu fiquei ali, dividida entre a vontade de participar e o medo de me perder no meio daquela energia que eu ainda não conseguia decifrar.
Decidi me distrair e comecei a olhar algumas coisas no quarto, vasculhando aleatoriamente, sem um objetivo muito claro. Tentava, na verdade, ocupar minha mente. Foi então que meus olhos se fixaram na mesa de cabeceira com gavetas da Shelma. Estranhei por um instante — ainda estava ali, intacta, como se nada tivesse mudado desde a última vez que a Shelma foi embora.
Aproximei-me e, quase por instinto, abri uma das gavetas. Entre papéis e objetos espalhados, algo chamou minha atenção: uma carta, cuidadosamente dobrada, com meu nome escrito no exterior, em uma caligrafia inconfundível: “Para Kataleya”. Meu coração disparou. Um misto de curiosidade, ansiedade e um frio na barriga tomou conta de mim.
Com cuidado, tirei a carta da gaveta, sentindo o peso do papel em minhas mãos. Havia algo de íntimo ali. Respirei fundo antes de abrir, como se estivesse prestes a entrar em um território proibido, desdobrei o papel lentamente, os dedos trêmulos.
Tudo o que importava agora era o que aquela carta poderia conter. Parece que foi deixada especialmente para mim, algo que talvez mudasse a maneira como eu me sentia com ela. E a carta parecia ter sido escrita a muito tempo
E então, finalmente, comecei a ler.
…