Capítulo 36- Cartas, podem ser uma solução

1289 Words
As palavras, cuidadosamente escritas, pareciam atravessar o papel e tocar cada canto do meu coração: "Kataleya, Eu preciso ser honesta contigo, mesmo que seja apenas por esta carta. Nos últimos tempos, tenho sentido algo pelo Shelby… algo que sei que não é certo, que não deveria existir. Não quero te machucar, e sei que o que fiz ou senti poderia ter destruído tudo entre nós. Por isso, tomei uma decisão: vou me afastar dele. Preciso deixar esse sentimento para trás. Para que ele não cresça, para que eu consiga finalmente seguir em frente, vou viajar… me distrair, me reconectar comigo mesma e, principalmente, com a nossa amizade, que é muito mais importante do que qualquer erro que eu possa ter cometido. Eu te peço desculpas do fundo do coração. Amo você, de verdade, e não suporto a ideia de te magoar. Preciso que me perdoes, mesmo que seja difícil. Não consigo falar isso pessoalmente, porque a vergonha me paralisa. Mas prometo que vou deixar tudo em paz, vou me afastar do Shelby e respeitar todos os limites que nossa amizade precisa para sobreviver. Espero que, com o tempo, possamos encontrar novamente a confiança e o carinho que sempre tivemos. Amo você, Kataleya. E sempre vou amar." Fechei a carta por um instante, deixando que o silêncio do quarto absorvesse cada palavra. Meu coração estava apertado, confuso e, ao mesmo tempo, tocado. Shelma havia se exposto de uma forma que poucos teriam coragem. Ela estava pedindo perdão, mostrando vulnerabilidade, mas também reconhecendo seus próprios erros e limites. “Às vezes, quando alguém erra conosco, tudo o que precisamos é de um pedido de desculpas sincero. Não importa se é presencial ou por meio de uma carta , só isso já muda tudo e começa a diminuir a dor.” Eu senti vontade de correr para ela, abraçá-la e dizer que tudo ficaria bem. Mas ao mesmo tempo, sabia que nada seria tão simples. Aquela carta mostrava amor, arrependimento e honestidade, mas também deixava clara a verdade que podia machucar e mudar para sempre nossa amizade. Ainda assim, naquele momento, algo dentro de mim começou a se suavizar. Talvez…apenas talvez, houvesse espaço para perdoar. Fiquei um tempo no quarto, andando de um lado para o outro, tentando organizar meus pensamentos. As palavras da carta rodavam na minha cabeça, pesadas e ao mesmo tempo cheias de significado. Cada frase parecia tocar um canto diferente do meu coração, despertando dor, alívio e uma estranha sensação de esperança. Não consegui processar tudo calmamente. Só tive uma reação possível: sair correndo do quarto. Desci as escadas quase sem pensar, o coração acelerado, os dedos ainda segurando a carta com força. Quando cheguei à sala, vi Natália e Lukela conversando com a Shelma, mas, ao tentar falar ou me aproximar, simplesmente travei. Congelei, os olhos fixos a elas, respirando fundo, tentando me conter. Shelma me olhou, percebendo a carta na minha mão. Seus olhos se arregalaram por um instante, mas logo um sorriso suave surgiu. Sem pressa, mas com decisão, ela se levantou, caminhando devagar até mim. Quando chegou, envolveu-me em um abraço firme, cheio de calor e sinceridade. Eu paralisei. O mundo ao redor desapareceu. Todo o peso da mágoa e da saudade se dissolveu naquele abraço. E então, silenciosamente, lágrimas começaram a escorrer pelos meus olhos. Chorei sem perceber, sem resistência, deixando que toda a dor, o alívio e a emoção acumulados saíssem de uma vez só. Ela me segurou tu mais forte, como se soubesse exatamente o que eu precisava, e naquele instante entendi que, apesar de tudo, ainda havia espaço para reconstruir algo, mesmo que nada voltasse a ser exatamente como antes. Abracei-a de volta com força. E então, ela chorou. Chorar com ela era estranho e reconfortante ao mesmo tempo — um misto de alívio e emoção contida durante tanto tempo. Lukela, observando a cena, arqueou as sobrancelhas e perguntou a Natália o que estava acontecendo. Natália apenas respondeu, sorrindo de leve: — O choro delas é uma boa notícia. Tudo vai voltar ao normal. Lukela continuou a olhar para nós, claramente sem entender nada, mas decidiu não interromper, permanecendo em silêncio. Quando finalmente nos largamos do abraço, ficamos as duas sem jeito, incapazes de encontrar palavras que servissem para aquele momento. Foi então que comecei, com a voz trêmula: — Eu… encontrei a carta. Shelma, ao ouvir isso, não conseguiu segurar a emoção. Começou a chorar novamente, cobrindo o rosto com as mãos, e murmurou, quase entre soluços: — Eu… eu sinto muito, de verdade. O peso daquilo tudo parecia se dissolver aos poucos. O arrependimento, perdão e amor silencioso pairava no ar, mostrando que ambas queríamos reatar aquilo que prezávamos. Após os primeiros momentos de emoção, sentamo-nos mais próximas, ainda segurando as mãos uma da outra, tentando organizar os pensamentos. Shelma, entre lágrimas e suspiros, começou a falar: — Kataleya… eu quero que saiba que nunca passou pela minha cabeça roubar o seu namorado. Eu sei que o que senti pelo Shelby foi confuso, e me deixei levar, mas nunca foi minha intenção magoar você dessa forma. Eu a observei, sentindo cada palavra atravessar meu coração. Havia sinceridade nos olhos dela, uma vulnerabilidade que tornava impossível não acreditar. Lukela, que estava sentada ao nosso lado, ouviu a frase e arqueou as sobrancelhas, um sorriso meio divertido surgindo no rosto dela: — Uau… isso daria um bom livro! Ou melhor ainda, um filme de romance — brincou, tentando aliviar o clima intenso, mas ao mesmo tempo reconhecendo a gravidade da situação. Shelma sorriu entre lágrimas, e eu não pude deixar de soltar uma risadinha nervosa. Era estranho — aquela mistura de tristeza, perdão e até leve humor — mas de alguma forma, sentíamos todas que era um passo importante para reconstruir a confiança. — Shelma… eu sei que você não quis me machucar. E… eu te perdoo. — As palavras saíram com um misto de alívio e emoção, como se finalmente uma parte de mim pudesse respirar. Ela me olhou, como se não conseguisse acreditar no que acabava de ouvir. Um sorriso tímido começou a se formar no rosto dela, e eu pude ver que, naquele instante, toda a tensão, o medo e a culpa que carregava começaram a se dissolver. — Obrigada… Kataleya. Eu nunca vou esquecer que você me perdoou. Prometo que vou fazer de tudo para respeitar você, nossa amizade… tudo — disse, a voz ainda trêmula. Aproximei-me mais, e desta vez o abraço não foi só de emoção; era de reconciliação. Ambas seguramos uma à outra, reafirmando que, apesar do erro, ainda havia algo valioso que merecia ser preservado. Natália e Lukela observaram em silêncio, sorrindo. Lukela até comentou de leve, com aquele tom divertido que sempre tinha: — Viu? Eu disse que daria um bom livro ou filme… mas acho que o final está ficando melhor do que qualquer roteiro. Enquanto ainda nos segurávamos, Natália veio até nós e, sem aviso, nos envolveu em um abraço apertado. Aquele gesto inesperado trouxe um riso leve e divertido, quebrando a intensidade do momento e transformando a emoção em algo mais caloroso e alegre. — Tive saudades das duas juntas — disse Natália, sorrindo enquanto nos segurava. — Ficar entre vocês não era nada fácil, ainda mais sabendo que o Shelby é meu primo. Ainda bem que tudo está bem. O sorriso dela contagiou Lukela, que não quis ficar de fora. Ela correu até nós e se juntou ao abraço, rindo, tornando o momento ainda mais acolhedor.E ali estávamos: quatro amigas juntas. “Eu sabia que nem toda verdade é fácil de lidar, mas também percebi que a honestidade e o pedido de desculpas sincero podiam salvar aquilo que mais importava: a amizade que construímos juntas”.
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