Capítulo 20- “Ninguém é de pedra”

1171 Words
… Shelma hesitou. Olhou para as próprias mãos, respirou fundo… e respondeu com a voz baixa: — Sim. Meu estômago virou. Fiquei paralisada por um segundo, tentando digerir. — Então isso aqui é o quê? Tu estás com ele, mas quer que eu te perdoe? — soltei, com raiva contida. — Eu não queria que fosse assim — murmurou. — Mas eu… eu ainda gosto dele. — Então assume o que escolheste, Shelma — levantei da cadeira, indignada. — Mas não espera que eu sorria pra vocês dois como se nada tivesse acontecido. Eu “não sou feita de pedra”. Ela tentou dizer algo, mas eu levantei pra ir embora. — Não me procure de novo — falei, firme, antes de sair. — O tempo até cura, mas não apaga traições vivas. Eu estava magoada, e não com raiva. A raiva é momentânea, raiva tem prazo de validade. Já a mágoa pode durar, meses, anos ou talvez a vida inteira. Ao sair do café, ainda com o coração acelerado, respirei fundo, tentando engolir a raiva e o gosto amargo daquela conversa. Mas o universo, como se quisesse testar a minha força, me reservava mais um soco no estômago. Do outro lado da rua, parado ao lado de um carro, estava Shelby. Ele parecia esperar alguém… e bastou um segundo pra perceber: ele estava ali por causa da Shelma. Quando me viu, endireitou o corpo e deu dois passos em minha direção, como se quisesse falar algo. Talvez uma explicação, talvez uma desculpa qualquer. Mas não esperei. — Vai à m***a, Shelby — disparei, fria, firme, cortando qualquer tentativa de aproximação. Virei-me de costas e atravessei a rua às pressas. Meus passos estavam duros, o peito apertado.então quando me virei e olhei por cima do ombro… e vi. Lá estavam os dois. Ele e Shelma. Abraçados. Como se nada tivesse acontecido. Como se eu não fosse nada. Fechei os olhos por um segundo, engolindo a dor. Eu sempre me faço de forte. Sempre finjo que nada me atinge, que já superei. Mas a verdade? Ver aquela cena… me rasgou por dentro. No fundo, eu ainda gostava dele. Ainda doía. Naquele instante, fui invadida por uma sensação sufocasnte. O estômago revirou. Os olhos arderam. E meu coração… meu coração só queria parar de sentir. Eu me obrbem. . Mas por dentro… Por dentro eu estava despedaçada. O pior de tudo era admitir pra mim mesma que… eu ainda o amava. Mesmo depois de tudo. Mesmo sabendo que ele já não era mais meu. E o mais c***l era não entender… onde foi que eu falhei? O que foi que eu fiz de tão errado pra merecer ver o homem que eu amo, abraçando a mulher que mais compartilhei momentos felizes, tristes e até os meus sentimentos com Shelby. Muita falsidade! Cheguei em casa com o coração aos pedaços. A porta se fechou atrás de mim com um estalo seco, e vi Natália sentada no sofá, me olhando com aquele ar de quem queria perguntar, mas não sabia como. Não lhe disse nada. Nem um “oi”. Simplesmente fui direto para o quarto. Assim que entrei, fechei a porta e me joguei na cama, sem me importar com mais nada. As lágrimas vieram sem que eu conseguisse controlar. Molharam o travesseiro, escorreram pelo rosto e encharcaram o peito. Chorei por tudo. Pelo amor que perdi. Pela traição. Pela dor que finjo não sentir. Pela força que finjo ter. Naquele quarto silencioso, só havia eu… e o som abafado dos soluços do meu próprio choro. Sem que eu me apercebesse, já estava de noite. Anderson veio a minha procura, mas eu pedi a Natália pra dizer que não estou em casa. Mas no fundo sei que eles sabia que me escondia dele. Não sabia o que fazer. Estava vivendo diferentes situações ao mesmo tempo. Quando iria acabar? O que eu poderia fazer?. Eu orei. Pedi a orientação de Deus. Não era um hábito, não sabia como começar. Mas eu comecei… … Me tranquei no quarto por dois dias. No terceiro dia, decidi levantar. Me preparei. Não adiantava nada ficar no quarto trancada, isso não resolve nada e não cura nada!. Decidi que precisava resolver pelo menos uma das questões… uma delas…eu já tinha percebido que não adiantava eu ficar deprimida. Precisava superar. Liguei pro Anderson. Resolvi sair com ele. Sentados num banco de madeira à sombra de uma árvore, o clima estava ameno, e o som leve das folhas embalava a conversa que precisava acontecer. Kataleya cruzou as pernas, pensativa, antes de olhar para Anderson com um sorriso tímido. — “Sobre aquele beijo…” — ela começou, ajeitando o cabelo atrás da orelha — “não foi r**m, não. Seria mentira dizer isso.” Anderson sorriu de leve, mas permaneceu em silêncio, esperando que ela continuasse. — “O que seria r**m mesmo… seria eu te iludir. Eu ainda tô machucada, Anderson. O Shelby… ele ainda..está em mim. Cê sabe que a nossa relação terminou não porque eu queria, mas porque acabou de uma forma que eu não esperava. Um de nós vacilou. E ficou tudo ali, m*l resolvido.” Ela fez uma pausa, respirou fundo e concluiu: — “Eu não consigo entrar num relacionamento agora. Eu ainda te vejo como um irmão. E não quero perder isso.” Anderson a olhou com ternura, sem qualquer sinal de mágoa. — “Se tu ainda me vês como um irmão… tudo bem. Mas eu vou fazer o possível pra que um dia me vejas como teu futuro marido.” Kataleya abriu a boca pra responder algo, talvez recusar gentilmente, mas ele não deu tempo. Se aproximou devagar e a puxou pra um abraço firme, tranquilo, protetor. Ela não resistiu. Apenas fechou os olhos e, por um instante, permitiu-se apenas sentir. Às vezes, a gente se apega tanto à dor que esquece de deixar espaço pra qualquer outro sentimento. A verdade é que... muitos de nós não permitimos que alguém novo entre, não porque não apareçam pessoas boas, mas porque ainda estamos presos a quem nos feriu ou a quem não gosta de nós. É como se, inconscientemente, ficássemos esperando que aquele que nos machucou volte e conserte tudo. Como se só ele tivesse a chave pra resolver o que ficou quebrado. E nessa espera silenciosa, recusamos carinho, fechamos portas, evitamos sorrisos. A gente olha pra alguém novo e até sente algo, mas logo nos sabotamos: “Não. Ainda gosto de fulano” ou “eu sei que um dia ele vai voltar”, ou talvez “eu sei que um dia ele vai gostar”. Mas será mesmo que vale a pena? Ou só não conseguimos aceitar que no final nem sempre as coisas são como a gente quer? É c***l. Porque quando não deixamos de gostar de quem foi embora, a gente também se proíbe de gostar de quem está disposto a ficar. E no fundo, tudo que a gente quer… é só ser amado de volta.
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