Capítulo 22- “Ele voltou”

1132 Words
… Quando o vi, tudo dentro de mim parou. O tempo pareceu congelar. Meus olhos fixaram-se naquele rosto e, por mais que minha mente tentasse negar, meu corpo reagiu antes de qualquer pensamento conseguir me resgatar. Um frio percorreu minha espinha como se tivesse sido mergulhada em água gelada. Minhas pernas ficaram bambas. Meu peito apertou de um jeito tão sufocante que respirar se tornou um desafio. Eu tentava manter o controle, fingir que era apenas mais um cliente normal... mais um casal... mais um momento qualquer. Mas não era. Meus olhos ardiam, mas não por lágrimas — era como se meu corpo gritasse por dentro, em silêncio. Tentei me virar, fingir que não tinha visto, mas já era tarde. Aquele rosto que eu pensei que jamais voltaria a ver... estava ali. Vivo. Real. Tão perto. Minha visão começou a embaçar. O som ao redor ficou abafado, como se eu tivesse sido mergulhada debaixo d’água. Senti meu coração bater em descompasso, as mãos tremendo. Tentei dizer alguma coisa, chamar o meu colega, mas nenhuma palavra saiu. Tudo que consegui foi olhar em volta, tentando me agarrar a qualquer coisa que para me manter equilibrada. Mas a força faltou. Tudo girou. Desmaiei. ***** Tudo parecia escuro. Não sabia se estava sonhando ou afundando em memórias que, por anos, tentei apagar. Mas então… lá estava eu, aos 15 anos. Sentada num canto da sala, ouvindo os gritos. O som seco da mão dele batendo na minha mãe. Os choros. As súplicas. E o medo — aquele medo que me paralisava. Medo de cada porta batida, de cada silêncio pesado depois dos gritos. E a cada vez que ela chorava sozinha no quarto, eu prometia a mim mesma que um dia a tiraria dali. Os anos passaram, até que ela já não suportou mais. Um dia, com os olhos fundos e a alma quebrada, minha mãe decidiu ir embora. Fomos para um pequeno apartamento emprestado de uma amiga, com nada além de duas malas e alguma esperança. Mas dias depois, quando ela voltou à antiga casa só pra buscar o que restava de suas coisas, viu ele com outra mulher na sala. Como se nada tivesse acontecido. Como se todos aqueles anos com ela tivessem sido apenas um intervalo. Aquilo acabou de vez com o que restava dela. Por mais que tentasse esconder, eu sabia que, no fundo, ela ainda o amava. E foi isso que a destruiu. A dor foi fundo demais, mais do que qualquer agressão. Veio a depressão — forte, c***l, silenciosa. Com 18 anos, comecei a trabalhar. Me dividia entre estudos, turnos longos e noites m*l dormidas, só pra poder interná-la numa clínica especializada. Queria vê-la sorrir de novo. Queria que ela voltasse a ser minha mãe. Mas… em uma certa noite… ela simplesmente não acordou. Desde então, tenho vivido por mim, comigo, com os fantasmas do que sobrou. Cresci sozinha, aprendi a me sustentar, me ergui com feridas ainda abertas. E agora… ele ali, no mesmo lugar que eu, como se nada tivesse acontecido. Abri os olhos devagar, sentindo um peso estranho na cabeça. O teto branco da enfermaria foi a primeira coisa que vi, e por um instante, não soube onde estava. Tudo parecia meio embaçado. Respirei fundo, tentando organizar as ideias. A porta se abriu com cuidado. Uma enfermeira entrou e sorriu levemente ao me ver desperta. — Que bom que acordou, Kataleya. Você desmaiou há pouco, mas está tudo bem agora. Já avisamos a sua chefe. Me sentei devagar, ainda meio tonta. — Eu… estou bem — murmurei, tentando parecer firme. — Preciso voltar pra recepção. Ainda é meu turno. A enfermeira balançou a cabeça, compreensiva, mas firme: — Não tão rápido. Descansa um pouco. Minutos depois, a chefe dos recepcionistas apareceu. Sempre elegante, com a postura firme de quem comanda tudo com precisão. Ela se aproximou da cama, me avaliando com o olhar. — Kataleya, você precisa descansar. Não se preocupe, já pedi para alguém cobrir o seu posto. Vou chamar um motorista para te levar em casa. Hoje terás uma folga. Tentei protestar, mas ela levantou uma das mãos. Então eu obedeci e me deitei. Alguns segundos depois, Natália a porta se abriu com um estrondo suave. Natália apareceu com o rosto marcado pela preocupação. Ela andava apressada, e seus olhos me encontraram como se buscassem uma confirmação de que eu estava mesmo ali. Correu até minha cama e segurou minha mão com força, como se assim pudesse garantir que eu não sumiria de repente. — Eu saí do treino e vi a mensagem do hotel… — disse, quase sem fôlego. — Achei que fosse coisa leve, mas disseram que tu desmaiaste… tu me assustaste. Tentei sorrir, mas era um daqueles sorrisos que só disfarçam, não aliviam. — Foi só um susto, Naty… meu corpo apenas cedeu… memórias demais num só instante. Ela franziu o cenho. — Memórias? Assenti, engolindo a dor que insistia em subir. — Era ele… o meu pai. Vi o olhar dela mudar. Um silêncio pesado caiu entre nós. Ela não perguntou mais nada. Apenas me puxou para um abraço apertado, como se quisesse remendar cada pedaço quebrado em mim com o calor dos seus braços. Naquele instante, eu soube… que mesmo em meio a tantas perdas, ainda existiam presenças que me mantinham de pé. Saímos do hotel já ao fim da tarde. Natália insistiu que eu precisava respirar outro ar, ver outras coisas, e por mais que meu corpo ainda estivesse cansado, aceitei. Caminhávamos lado a lado, ela falava sobre parcerias novas e uma possível viagem, enquanto eu tentava manter a mente longe da confusão que me rondava. Foi quando, ao dobrarmos a esquina, ele surgiu. O papai…elegante, de porte firme. Cabelos grisalhos bem penteados, óculos escuros no rosto e um relógio caro no pulso. Ele caminhava sozinho, distraído, até que os olhos dele cruzaram com os meus. Por um segundo, senti o ar prender-se nos meus pulmões. O tempo parou. Ele me olhou. Direto. Como se algo ali tivesse chamado sua atenção. Franziu um pouco a testa, se aproximou e disse, com um leve sorriso educado: — Olá, tudo bem? Tenho a sensação de que já te vi em algum lugar. Meu corpo endureceu. O coração acelerou tanto que tive medo de desmaiar de novo. Mas dessa vez eu fiquei firme. Olhei nos olhos dele, e percebi... ele não me reconhecia. Aquele homem, o pai do Anderson, que um dia foi parte da sombra mais escura da minha vida... estava ali, na minha frente, tratando-me como uma estranha qualquer. — Acho que me confundiu senhor — disse olhando para ele firme Ele assentiu, educado, e seguiu seu caminho. Natália, que já percebera o desconforto no meu rosto, segurou meu braço. — Quem era? Olhei pra ela. — o papai.
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