Anderson desviou o olhar, limpou discretamente as lágrimas que insistiam em cair, e com a voz embargada, disse:
— Eu não vou pedir pra você ir embora… mas hoje não. Hoje estamos de luto.
A mulher tentou falar algo, mas ele levantou a mão suavemente, pedindo silêncio.
— Por favor… volta outro dia. Eu não tenho cabeça pra mais nada agora.
Ela assentiu devagar, com os olhos cheios d'água.
— Claro, meu filho… eu entendo.
Ele fechou os olhos ao ouvir aquilo. Respirou fundo.
— Não me chama assim. Não ainda.
Ela recuou um pouco, visivelmente magoada com a reação de Anderson. Seus olhos marejaram, mas ela tentou manter a postura.
— Eu entendo… — disse com voz embargada. — Mas eu precisava te ver. Só te ver, pelo menos uma vez.
Anderson desviou o olhar, respirando fundo. Kataleya se manteve ao lado dele, com a mão discretamente em seu braço.
— Hoje… não é o dia — disse Anderson com firmeza. — Estamos enterrando o meu pai.
A mulher assentiu, limpando uma lágrima que desceu pelo rosto.
— Voltarei outra hora — disse, com um último olhar demorado em Anderson.
Ela virou-se e saiu devagar, deixando olhares curiosos.
Olhei então para Anderson, que ainda olhava para o chão.
— Você quer conversar sobre isso? — ela perguntou baixinho.
— Não agora… — ele respondeu com a voz pesada. — Mas eu prometo que vou te contar … em breve.
Na volta pra casa, o silêncio dentro do carro era quase sufocante. Ninguém parecia ter forças para iniciar uma conversa. Anderson dirigia com o olhar perdido, os dedos apertando o volante com força. Eu sentei-me ao seu lado, enquanto Lukela foi no banco de trás, com a cabeça encostada na janela.
O sol começava a se pôr, tingindo o céu de laranja.
Eu quebrei o silêncio com um tom calmo:
— Vamos deixar você descansar um pouco quando chegarmos, tá bem?
Anderson apenas assentiu, sem tirar os olhos da estrada.
Lukela, que até então não havia dito nada, sussurrou:
— Pelo menos você ainda tem uma mãe.
Anderson apertou os lábios, respirou fundo e respondeu:
— mãe é uma palavra muito forte.
O resto do trajeto seguiu em silêncio. Quando chegaram, Natália já os esperava na porta, com os olhos preocupados. Ajudou Lukela a sair do carro e a levou pra dentro, enquanto eu e Anderson ficamos um instante sozinhos na entrada.
— Você quer ficar um pouco sozinho? —perguntei, olhando para ele.
— Quero que você fique… — ele disse, finalmente olhando nos meus olhos. — Só fica.
Assenti e segurei sua mão.
Depois de um tempo entramos juntos. O luto ainda pesava, mas havia também uma conexão e apoio mútuo que, mesmo em meio à dor, começava a se fortalecer.
Semanas depois…
A casa estava mais silenciosa. Havia dias em que Lukela m*l saía do quarto. Outros, parecia mais forte do que todos. A dor não sumia, apenas mudava de forma.
Anderson voltou ao trabalho, mas não era o mesmo. Os colegas diziam que ele estava mais reservado, mais intenso. De vez em quando eu o acompanhava até o trabalho. Era exatamente disso que ele precisava.
Me ofereci pra ficar com eles um tempo, ajudando Lukela, cozinhando, limpando, tentando manter a rotina.
Shelma e Shelby vinham sempre que podiam. Shelma, principalmente, havia criado um laço inesperado com Lukela. Às vezes conversavam por horas, outras apenas ficavam deitadas lado a lado, ouvindo música.
Enquanto organizava algumas coisas, ouvi a campainha tocar. Anderson gritou do corredor me pedindo para abrir, e quando o fiz, dei de cara com a mãe dele. No mesmo instante, Anderson descia as escadas, perguntando quem era. Quando seus olhos se encontraram com os dela, ele travou por um instante, e eu simplesmente me afastei da porta, sem conseguir dizer nada. Anderson fez uma pequena pausa enquanto continuava descendo, e então, com calma, convidou a mãe para entrar. Ela agradeceu e se acomodou, sentando-se confortavelmente. Aproveitei o momento para subir e ir até Lukela, garantindo que estivesse bem.
Sei que não devia ser fofoqueira, mas não resisti e pedi à Lukela que espreitássemos a conversa. Ficamos escondidas perto do corredor da escada, tentando ouvir sem sermos notadas.
No começo, Anderson parecia frio. Perguntou à mãe como conhecia a casa dele. Ela respondeu que sempre conheceu; desde que ele voltou da Tailândia, passava por ali com frequência. Anderson apenas pediu que mudasse de assunto, que estava fora de questão esse assunto.
Logo depois, perguntou por que só aparecera no dia do enterro. Ela explicou que estava sob restrições e que não podia vê-lo antes. Anderson, com um tom mais firme, quis saber por que ela tinha sido presa.
Fiquei parada, segurando a respiração, enquanto tentava captar cada palavra. O clima estava tenso, e eu sentia que qualquer movimento poderia revelar nossa presença.
Enquanto nos escondíamos, a mãe de Anderson começou a contar. Sua voz estava calma, mas carregada de uma dor antiga que parecia atravessar as paredes.
Ela falou de algo que aconteceu há 29 anos.
29 anos atrás:
Ela estava em casa cuidando do Anderson bebê, quando de repente, a porta foi aberta com força. Era o pai dele, bêbado, furioso. Ele a empurrou contra a parede sem piedade; ela caiu, sentiu seus cabelos sendo puxados, fazia acusações por ter perdido uma reunião de negócios importante porque dormiu demais, o bebê chorou durante toda noite. Naquela mesma noite, ele bebeu demais e começou a agredi-la. Ela não sabia como se defender, pegou um jarro enquanto ele apertava seu pescoço e bateu-lhe na cabeça. Acionou o botão de emergência, mas quando a polícia chegou, ela estava com o jarro na mão, e ele caído no chão. A polícia a algemou e a levou embora.
Presente:
Com os olhos cheios de lágrimas, ela disse que o pai do Anderson conhecia muita gente, e de alguma forma ele foi condenada e considerada um perigo para o próprio filho. Depois de dez anos, quando ela saiu enviou o Anderson para outro país, e ela m*l soube de do Anderson desde então.”
Observei Anderson parado, os olhos fixos na mãe, como se tentasse encaixar todas as peças de repente. Ele não dizia nada, e o silêncio entre eles era pesado, cheio de perguntas não feitas. Finalmente, sua voz saiu baixa, quase sufocada: “Lamento muito pelo que aconteceu… eu não sabia que você passou por tudo isso.”
A mão dele tremia levemente, e pude ver a confusão misturada com alívio no rosto dele. “Fico feliz… feliz por você ter conseguido sair de tudo isso”, continuou, os olhos brilhando de um jeito que mostrava que, mesmo depois de anos, a dor ainda estava ali, mas havia espaço para perdão e esperança.
Segurei minha respiração, sentindo a intensidade do momento, como se cada palavra dele carregasse anos de silêncio e dor finalmente expressos.
Anderson se levantou e abriu os braços. A mãe dele, visivelmente emocionada, correu para ele, e naquele instante se abraçaram com força. Foi um abraço que carregava anos de silêncio e dor, e pude sentir a intensidade de tudo aquilo sem nem estar no centro.
Lukela, curiosa, tentou esticar o pescoço para ver melhor, mas acabou escorregando em mim. Caímos juntas bem ao lado da escada, e por um instante fiquei sem jeito, tentando proteger a pequena sem atrapalhar o momento deles. Anderson se virou e nos viu, os olhos arregalados, com uma mistura de surpresa e preocupação.
Lukela, rápida como sempre, levantou num salto e correu para o quarto. Eu apenas suspirei, rindo baixo, tentando acalmar meu coração acelerado. “A gente tava… Lukela, cê viu meu brinco?” murmurei, e logo fui correndo atrás dela para garantir que nada tivesse quebrado.
Alguns minutos depois, sentimos a porta do quarto se abrir. No impulso, Lukela e eu começamos a fingir que estávamos ocupadas com qualquer coisa aleatória, como se nada estivesse acontecendo. Mas Anderson nos pegou no ato.