FUGITIVOS
Era o primeiro dia de aula depois das férias.
Eu estava animada. O último ano finalmente tinha chegado. Logo estaria na minha tão sonhada faculdade de Biologia.
Mas o destino não me deu essa oportunidade.
Acordei mais cedo, tomei um banho demorado e vesti minha roupa favorita. Desci para o café.
— Bom dia, pai. Bom dia, mãe.
— Bom dia, querida — responderam juntos. — Já chamou seu irmão? Ele vai se atrasar.
— Já chamei. O Steven não quer sair da cama. A Sofi já está vindo me buscar, não vou esperar.
Sofi é minha melhor amiga desde o primário. Somos inseparáveis. Ela é encantadora, com seus olhos azuis e cabelos loiros longos que sempre parecem perfeitos demais para uma segunda-feira de manhã.
— Temos que ir trabalhar — minha mãe disse, pegando as chaves. — Não deixe seu irmão se atrasar logo no primeiro dia.
Meus pais são médicos. Vivem viajando por causa do trabalho. Sempre foram meus heróis.
— Tá bom, eu vou chamar o pirralho.
Eles saíram.
— Eu já levantei, Scar! Pode parar de gritar! — Steven desceu as escadas arrastando a mochila.
— Você é um caso perdido.
A buzina soou lá fora.
— MEU DEUS! Nosso último ano! — Sofi praticamente gritava enquanto eu entrava no carro. — Esse ano vai ser só diversão, festas, liberdade!
— Inscrição para as faculdades — completei.
Ela revirou os olhos.
— Scar, você precisa se divertir mais. Vai ter tempo demais pra estudar.
Na minha opinião, festas eram perda de tempo.
O dia passou rápido demais. Matemática foi tão entediante quanto eu imaginava.
Mas nada me preparou para o que viria depois.
Quando chegamos em casa, a porta estava aberta.
A casa… destruída.
Móveis revirados. Gavetas no chão. Vidros quebrados.
Meu coração disparou.
— Mãe? Pai?!
Corri até o escritório do meu pai para ligar para a polícia.
Foi quando vi o bilhete.
"Scar e Steven,
Não há uma maneira fácil de dizer isso, mas estamos em perigo. Tivemos que fugir para manter vocês seguros. Deixamos dinheiro suficiente para passagens. Quero que vão para a casa do tio Robert. Ele explicará tudo.
Não podemos entrar em contato agora.
Amamos vocês.
Mamãe e papai."
O telefone tocou.
Quase deixei cair.
— Alô? — minha voz saiu fraca.
— Scar, é o tio Robert. Não temos tempo. Pegue suas coisas e vá para o aeroporto. Agora.
— Onde estão meus pais? O que está acontecendo?
— Não seja teimosa. Vá. Eu explico quando chegarem.
Ele desligou.
Eu sabia que não tinha escolha.
A viagem foi longa. Sete horas ouvindo Steven fazer perguntas que eu não sabia responder.
Chegamos a Security City, uma pequena cidade no norte da Califórnia.
Lá estava ele.
Alto. Forte. Olhos castanhos. Jaqueta de couro. Pose de bad boy.
Tio Robert.
— Está meio velho pra esse estilo, não acha? — provoquei.
— Só nos dias de folga — ele respondeu, sorrindo de lado.
Ele dirigia rápido demais.
— Eu quero chegar viva.
— Estamos quase lá.
A casa era grande, pintada de cinza escuro por fora. Por dentro, clara e organizada demais para alguém que dirige daquele jeito.
— Chega de enrolação, Robert. Quero explicações.
Ele suspirou.
— Eu não queria que fosse assim. Era trabalho dos seus pais…
Silêncio.
— Nossa família é diferente.
Eu cruzei os braços.
— Diferente como?
Ele hesitou.
— Somos caçadores.
— De animais? Isso é ilegal — Steven disse.
— Não. Caçadores de vampiros.
Eu ri.
— Isso é ridículo.
Ele foi até um armário sob a escada.
Voltou com uma mala.
Abriu.
Armas. Estacas. Punhais. Um deles tinha uma cápsula com um líquido vermelho preso à base da lâmina.
O riso morreu na minha garganta.
— Existe um clã. Os Genebras. Seus avós os enfrentaram. Eles estão atrás de nós.
O mundo parecia inclinar.
— Vampiros não existem — eu sussurrei.
— Seus pais são médicos — ele disse. — E ainda assim caçadores. Uma vida não impede a outra.
Steven parecia empolgado demais.
Eu só conseguia pensar em uma coisa:
Eles mentiram.
A vida inteira.
Subi para o quarto.
Minha vida normal tinha acabado.
E eu nem sabia ainda o que estava vindo atrás de mim.