Eu não consegui dormir.
A história ficava se repetindo na minha cabeça como um filme r**m que não para nunca. Vampiros. Caçadores. Clã inimigo. Meus pais desaparecidos.
Eu só queria que fosse um sonho.
Dormir apenas algumas horas foi o máximo que consegui.
Quando acordei, meu celular estava cheio de mensagens da Sofi.
Eu não queria responder.
Eu odeio mentiras.
E agora eu viveria dentro de uma.
Respirei fundo e digitei:
De: Eu
Oi, Sofi. Foi uma viagem de emergência. Não deu tempo de avisar.
Meus pais tiveram que ir às pressas para o Iraque atender emergências médicas e vão passar meses lá.
Não podíamos ficar sozinhos, então viemos morar com meu tio por um tempo.
Nos vemos em breve. xoxo.
Inventei qualquer coisa.
Precisava ser convincente o suficiente para não gerar mais perguntas.
Meu peito doeu ao apertar “enviar”.
— Bom dia, pequena. Podemos conversar? — a voz do tio Robert veio do andar de baixo.
— Bom dia. Eu não sou mais tão pequena assim, tio. Desço em um minuto.
Por um segundo, me senti criança de novo.
Se fosse em outras circunstâncias, eu até estaria feliz por estar ali.
Vesti uma calça jeans e uma blusa — fazia frio naquela cidade — e desci.
O cheiro de café invadiu minhas narinas. Só então percebi que não comia nada desde o dia anterior.
— O cheiro está ótimo — falei, já pegando um pedaço de brownie.
Tio Robert sempre foi um cozinheiro incrível.
Ele me observava com aquele olhar sério.
— Scar… eu sei que nada disso é fácil. Mas precisamos que vocês confiem em mim. Precisamos salvar nossa família.
— Não é fácil acreditar em algo que parece saído de um musical do Drácula — respondi seca. — Mas estou disposta a aceitar essa história… por enquanto.
Não havia escolha.
Era aceitar ou aceitar.
— O que fazemos agora? — perguntei. — Não tem mais escola? Faculdade? Sonhos?
Minha voz falhou na última palavra.
— Vocês vão continuar a vida normalmente. Escola. Faculdade. Rotina. E também treinos.
— Treinos?
— Para caçar.
A palavra ecoou dentro de mim.
— Ou seja, mentiras e mais mentiras. Isso não é vida. Meus amigos não estão aqui. Minha casa não é aqui. Eu não quero fazer parte disso.
O rosto dele endureceu.
— Não há escolha agora, Scar. Seus pais nunca teriam apresentado isso a vocês. Mas o cenário mudou. Precisamos nos unir por eles.
E ninguém pode saber. Amigos podem ser usados contra vocês. Esqueçam suas vidas antigas.
Havia amargura na voz dele.
Será que ele já tinha perdido alguém por causa disso?
— Bom dia, família! — Steven apareceu na cozinha animado demais.
Um cheiro forte de bebida o acompanhava.
Meu estômago embrulhou.
— Steven… você bebeu?
— No meu quarto tem algumas garrafinhas — ele riu.
— Seu grande i****a! — eu gritei.
Robert não gritou.
Não brigou.
Apenas colocou uma xícara de café preto, forte, na frente dele.
Silêncio pesado.
— Não é a primeira vez — eu disse, mais baixa. — Ele usa álcool… e outras coisas… pra fugir da realidade.
Robert assentiu.
— Eu sei, Scar. Seus pais me mantinham informado. Eu não era presente, mas falava com eles sobre tudo.
Aquilo me atingiu.
Eles conversavam com ele.
Sobre nós.
Sobre tudo.
E mesmo assim nunca confiaram o suficiente para nos contar a verdade.
Terminei o café sem sentir o gosto.
Subi para o quarto.
Fechei a porta.
E desabei.
Chorei até não restarem lágrimas.
Porque pela primeira vez, eu entendi:
Minha vida antiga tinha acabado.
E eu não sabia se queria a nova.