6

1506 Words
Vincent Vou ser sincero, a resposta da Melissa poderia ter sido qualquer uma. Ela é boa em esconder as emoções, mas eu a tenho observado há meses. Consigo ver a luta interna se desenrolando por trás daqueles olhos âmbar. Ela está curiosa sobre o que é eu sei, mas desconfia das minhas intenções. Tenho uma estranha sensação de culpa porque minhas intenções não são apenas com o Lorenzo. Essa culpa é pior depois de ver a esperança momentânea em sua expressão. Ela pode ser uma princesa da máfia que cometeu sabe-se lá quantos crimes, mas... O amor pelo irmão dela é real e é uma merda tirar vantagem disso. Mas, no final, ela concordou. Corro até o meu carro para encontrá-la no restaurante que eu sei que a família dela é dona, sua tentativa de manter o controle da situação. Gosto do seu fogo. Da sua inteligência. Gosto dela mais do que deveria, e tenho um mau pressentimento de que estou brincando com fogo. Lembro a mim mesmo que estou tentando solucionar um crime... dois ou três, como se vê. Se jantar com ela me der as informações necessárias para derrubar a família criminosa Mancini, solucionar o assassinato do pai de Declan e talvez até descobrir o que aconteceu com Lorenzo, bem, esse é um risco que estou disposto a correr. Quando entro no restaurante, um anfitrião me cumprimenta e imediatamente me mostra uma mesa em uma área privativa onde Melissa já está sentada. — Lugar agradável — digo enquanto me sento. — Não estamos aqui para conversa fiada. Nem para um encontro. — Estranhamente, sinto uma pontada de decepção. — Aquela pista que você mencionou. O que é? — ela pergunta enquanto um garçom coloca um martini à sua frente. Pego o cardápio. — Estou morrendo de fome. — Olho para a garçonete. — Vou querer o que ela está tomando. Os lábios de Melissa se contraem em irritação, mas ela não insiste. Ela sabe que eu tenho as cartas na mão agora. — Gin ou vodca? — pergunta o garçom. — Qual é o dela? — Gin. Arqueio uma sobrancelha. — À moda antiga. Gim. Sujo. — Quando o garçom sai, abro o cardápio. — O que tem de bom aqui? — Senhorita Mancini! Que prazer vê-la. — Um homem bem-vestido se aproxima e beija seu rosto. — E este é…? — Só um sócio, Marco — diz Melissa suavemente. Arqueio uma sobrancelha. A última coisa de que preciso é ser visto como aliado da Máfia. — O de sempre para o jantar? — pergunta Marco. Aposto que é o gerente. — Sim. E para o meu convidado também. — Ela me lança um sorriso afiado. — Muito bem. — Marco leva meu cardápio. — Então, o que vou jantar? — pergunto. — Risoto de lagosta. Minha carteira chora. Lagosta nunca é barata. — Por minha conta — ela acrescenta, e tenho certeza de que é uma cutucada à minha masculinidade. Como se eu não pudesse pagar. — Talvez valha a pena. Você vai ficar feliz por ter aceitado minha oferta. — E, por honra ao ego, eu ainda deveria pagar. — Agora que finalmente me pegou sozinho… o que pretende fazer comigo? — ela provoca. Inclino-me, imitando seu tom. — Isso depende de quão cooperativa você estiver, Sra. Mancini. Ela ri — um som musical e perigoso. — Ah, eu posso ser muito cooperativa quando devidamente motivada. Um arrepio sobe por minha espinha. Excitação e alerta. Preciso ter cuidado com essa mulher. — Vamos começar com um brinde — digo, erguendo meu copo d’água. — Às novas parcerias. Melissa encosta o martini no meu, sem desviar os olhos. — Para… seja lá o que isso for. Agora, sobre aquela pista do meu irmão. Recosto-me na cadeira. — Vamos começar do início. Por que você registrou o boletim de desaparecimento do Lorenzo? Os olhos dela brilham com raiva, frustração… e dor. — Porque meu irmão desapareceu, detetive. Isso não é motivo suficiente? — Normalmente, pessoas da sua… linha de trabalho não envolvem a polícia — digo com cuidado. Ela ri, amarga. — Esse é o seu problema. Você assiste O Poderoso Chefão e acha que sabe como tudo funciona. Dou de ombros. Não está totalmente errada. A Máfia moderna vive nas sombras, misturando negócios legítimos e ilícitos. Provavelmente esse restaurante lava dinheiro. — Então, como funciona? — provoco. Ela me lança um olhar divertido. — Boa tentativa, Vince. Droga. Gosto demais do jeito como ela diz meu nome. — Você já prendeu um CEO? — pergunta. — Não, mas sei que alguns já foram presos. Por quê? — Porque eles fazem as mesmas coisas que você acha que nós fazemos. Meu martini chega. Estou bebendo no trabalho. Que ironia. — Os bancos arruinaram a economia há vinte anos. Tomaram casas de pessoas que nunca deveriam ter recebido empréstimos. Quem foi preso por isso? Ela tem um ponto. — Mas eles não matam… — começo. — Um fabricante de aviões matou mais de 300 pessoas e escapou com uma multa. Dois acidentes, Vince. E ninguém foi para a cadeia. — Entendo seu ponto. — E se não for um bom ponto. — Mas ainda assim… lei é lei. — Estlse país nunca tratou a lei igualmente. Se tratasse, alguém teria investigado o desaparecimento do meu irmão. Mas ninguém se importou. Porque eu sou uma Mancini. Ela me encara, olhos faiscando. — Sabe quantas vezes liguei para a delegacia? Quantos detetives? Quantas informações eu entreguei? E ninguém, ninguém, me deu retorno. — Você é o primeiro policial a mencionar o nome do Lorenzo em três anos — continua. — Todos os outros o descartaram. Minha família também. Assumem que ele está morto. Levanto a sobrancelha pela franqueza sobre a máfia, mas o que me atinge é a certeza na voz dela. — Mas eu sei que ele está vivo — ela diz. — Eu sentiria se não estivesse. Inclino-me. — Conte-me o que descobriu. — Um lojista do centro disse ter visto o Lorenzo sendo espancado por três homens e jogado no porta-malas de um carro — ela relata, dedos roçando a taça. Concordo. Li isso no arquivo. — E a polícia não fez nada — acrescenta, amarga. — Um policial me disse que já tinham enterrado o caso. Outro sugeriu que eu deveria entrar para um convento se quisesse compaixão. Engulo a raiva. Policiais corruptos conseguem ser piores que criminosos. — p***a — murmuro, passando as mãos no cabelo. — Isso te choca? — ela provoca. — Você tem cara de escoteiro. Marco retorna. — Outro martini? — Sim — diz Melissa. — E o senhor? — Não, obrigado. Ela então me atravessa com o olhar. — Você está aqui mesmo pelo Lorenzo… ou isso faz parte do seu plano para derrubar minha família? — Eu quero ajudar — respondo, e é verdade. Ela duvida — mas também espera. — Entendo sua frustração. E admiro sua honestidade. Confiar na polícia não deve ser fácil. — Eu não confio — ela diz. — Estou desesperada. É diferente. — Justo. A comida chega. O risoto é sublime. Claro que é. — Então? — ela pressiona. — O que você sabe? Penso. Tenho pouca coisa, mas é mais do que ela teve em anos. — Há uma possível conexão com outro caso. — Que tipo de conexão? — Antes de continuar, preciso saber se você vai trabalhar comigo. De verdade. Ela estreita os olhos. — O que exatamente está propondo? — Eu uso os recursos do departamento para encontrar seu irmão. E você me dá informações. — Informações — ela repete. — Sobre minha família. Assinto. — Nada incriminador. Só… verdade. A expressão dela muda — a dor vira fúria gelada. — Seu desgraçado — ela sibila. — Está usando meu irmão como isca? Me dando esperança só para me fazer trair minha família? Levanto as mãos, alarmado. — Não é isso, Melissa. Não vou te usar assim. — Não? — O desgosto nos olhos dela me atinge como um soco. — Não vou trair minha família pra te ajudar. — E o Lorenzo… — Lorenzo seria o primeiro a mandar você para o inferno por sugerir isso. Ela está prestes a ir embora. Eu preciso salvá-la — e salvar o que temos. — Eu entendo por que você pensa isso. Mas vou seguir essa pista de qualquer forma. Não vou te manter refém. Ela me estuda, procurando mentira. — Então por que oferecer o acordo? — Porque o desaparecimento dele pode estar ligado a outro caso. E mesmo que não esteja, você sabe coisas sobre ele, sobre sua família, que podem ser cruciais. — Sustento o olhar dela. — Não estou pedindo que traia ninguém. Estou pedindo que me ajude a encontrar o seu irmão. Qualquer outra coisa é secundária. A tensão entre nós é quase palpável. Melissa respira fundo, os olhos ainda queimando conflito — medo, lealdade, esperança. E eu espero. Sabendo que as próximas palavras dela podem selar ou destruir a frágil aliança entre nós.
Free reading for new users
Scan code to download app
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Writer
  • chap_listContents
  • likeADD