Vincent
Vou ser sincero, a resposta da Melissa poderia ter sido qualquer uma. Ela é boa em esconder as emoções, mas eu a tenho observado há meses. Consigo ver a luta interna se desenrolando por trás daqueles olhos âmbar. Ela está curiosa sobre o que é eu sei, mas desconfia das minhas intenções. Tenho uma estranha sensação de culpa porque minhas intenções não são apenas com o Lorenzo. Essa culpa é pior depois de ver a esperança momentânea em sua expressão. Ela pode ser uma princesa da máfia que cometeu sabe-se lá quantos crimes, mas...
O amor pelo irmão dela é real e é uma merda tirar vantagem disso. Mas, no final, ela concordou. Corro até o meu carro para encontrá-la no restaurante que eu
sei que a família dela é dona, sua tentativa de manter o controle da situação. Gosto do seu fogo. Da sua inteligência. Gosto dela mais do que deveria, e tenho um mau pressentimento de que estou brincando com fogo. Lembro a mim mesmo que estou tentando solucionar um crime... dois ou três, como se vê. Se jantar com ela me der as informações necessárias para derrubar a família criminosa Mancini, solucionar o assassinato do pai de Declan e talvez até descobrir o que aconteceu com Lorenzo, bem, esse é um risco que estou disposto a correr.
Quando entro no restaurante, um anfitrião me cumprimenta e imediatamente me mostra uma mesa em uma área privativa onde Melissa já está sentada.
— Lugar agradável — digo enquanto me sento.
— Não estamos aqui para conversa fiada. Nem para um encontro. — Estranhamente, sinto uma pontada de decepção.
— Aquela pista que você mencionou. O que é? — ela pergunta enquanto um garçom coloca um martini à sua frente.
Pego o cardápio. — Estou morrendo de fome. — Olho para a garçonete. — Vou querer o que ela está tomando.
Os lábios de Melissa se contraem em irritação, mas ela não insiste. Ela sabe que eu tenho as cartas na mão agora.
— Gin ou vodca? — pergunta o garçom.
— Qual é o dela?
— Gin.
Arqueio uma sobrancelha. — À moda antiga. Gim. Sujo. — Quando o garçom sai, abro o cardápio. — O que tem de bom aqui?
— Senhorita Mancini! Que prazer vê-la. — Um homem bem-vestido se aproxima e beija seu rosto. — E este é…?
— Só um sócio, Marco — diz Melissa suavemente.
Arqueio uma sobrancelha. A última coisa de que preciso é ser visto como aliado da Máfia.
— O de sempre para o jantar? — pergunta Marco. Aposto que é o gerente.
— Sim. E para o meu convidado também. — Ela me lança um sorriso afiado.
— Muito bem. — Marco leva meu cardápio.
— Então, o que vou jantar? — pergunto.
— Risoto de lagosta.
Minha carteira chora. Lagosta nunca é barata.
— Por minha conta — ela acrescenta, e tenho certeza de que é uma cutucada à minha masculinidade. Como se eu não pudesse pagar.
— Talvez valha a pena. Você vai ficar feliz por ter aceitado minha oferta. — E, por honra ao ego, eu ainda deveria pagar.
— Agora que finalmente me pegou sozinho… o que pretende fazer comigo? — ela provoca.
Inclino-me, imitando seu tom. — Isso depende de quão cooperativa você estiver, Sra. Mancini.
Ela ri — um som musical e perigoso. — Ah, eu posso ser muito cooperativa quando devidamente motivada.
Um arrepio sobe por minha espinha. Excitação e alerta. Preciso ter cuidado com essa mulher.
— Vamos começar com um brinde — digo, erguendo meu copo d’água. — Às novas parcerias.
Melissa encosta o martini no meu, sem desviar os olhos. — Para… seja lá o que isso for. Agora, sobre aquela pista do meu irmão.
Recosto-me na cadeira. — Vamos começar do início. Por que você registrou o boletim de desaparecimento do Lorenzo?
Os olhos dela brilham com raiva, frustração… e dor. — Porque meu irmão desapareceu, detetive. Isso não é motivo suficiente?
— Normalmente, pessoas da sua… linha de trabalho não envolvem a polícia — digo com cuidado.
Ela ri, amarga. — Esse é o seu problema. Você assiste O Poderoso Chefão e acha que sabe como tudo funciona.
Dou de ombros. Não está totalmente errada. A Máfia moderna vive nas sombras, misturando negócios legítimos e ilícitos. Provavelmente esse restaurante lava dinheiro.
— Então, como funciona? — provoco.
Ela me lança um olhar divertido. — Boa tentativa, Vince.
Droga. Gosto demais do jeito como ela diz meu nome.
— Você já prendeu um CEO? — pergunta.
— Não, mas sei que alguns já foram presos. Por quê?
— Porque eles fazem as mesmas coisas que você acha que nós fazemos.
Meu martini chega. Estou bebendo no trabalho. Que ironia.
— Os bancos arruinaram a economia há vinte anos. Tomaram casas de pessoas que nunca deveriam ter recebido empréstimos. Quem foi preso por isso?
Ela tem um ponto.
— Mas eles não matam… — começo.
— Um fabricante de aviões matou mais de 300 pessoas e escapou com uma multa. Dois acidentes, Vince. E ninguém foi para a cadeia.
— Entendo seu ponto. — E se não for um bom ponto. — Mas ainda assim… lei é lei.
— Estlse país nunca tratou a lei igualmente. Se tratasse, alguém teria investigado o desaparecimento do meu irmão. Mas ninguém se importou. Porque eu sou uma Mancini.
Ela me encara, olhos faiscando. — Sabe quantas vezes liguei para a delegacia? Quantos detetives? Quantas informações eu entreguei? E ninguém, ninguém, me deu retorno.
— Você é o primeiro policial a mencionar o nome do Lorenzo em três anos — continua. — Todos os outros o descartaram. Minha família também. Assumem que ele está morto.
Levanto a sobrancelha pela franqueza sobre a máfia, mas o que me atinge é a certeza na voz dela.
— Mas eu sei que ele está vivo — ela diz. — Eu sentiria se não estivesse.
Inclino-me. — Conte-me o que descobriu.
— Um lojista do centro disse ter visto o Lorenzo sendo espancado por três homens e jogado no porta-malas de um carro — ela relata, dedos roçando a taça.
Concordo. Li isso no arquivo.
— E a polícia não fez nada — acrescenta, amarga. — Um policial me disse que já tinham enterrado o caso. Outro sugeriu que eu deveria entrar para um convento se quisesse compaixão.
Engulo a raiva. Policiais corruptos conseguem ser piores que criminosos.
— p***a — murmuro, passando as mãos no cabelo.
— Isso te choca? — ela provoca. — Você tem cara de escoteiro.
Marco retorna. — Outro martini?
— Sim — diz Melissa.
— E o senhor?
— Não, obrigado.
Ela então me atravessa com o olhar. — Você está aqui mesmo pelo Lorenzo… ou isso faz parte do seu plano para derrubar minha família?
— Eu quero ajudar — respondo, e é verdade.
Ela duvida — mas também espera.
— Entendo sua frustração. E admiro sua honestidade. Confiar na polícia não deve ser fácil.
— Eu não confio — ela diz. — Estou desesperada. É diferente.
— Justo.
A comida chega. O risoto é sublime. Claro que é.
— Então? — ela pressiona. — O que você sabe?
Penso. Tenho pouca coisa, mas é mais do que ela teve em anos. — Há uma possível conexão com outro caso.
— Que tipo de conexão?
— Antes de continuar, preciso saber se você vai trabalhar comigo. De verdade.
Ela estreita os olhos. — O que exatamente está propondo?
— Eu uso os recursos do departamento para encontrar seu irmão. E você me dá informações.
— Informações — ela repete. — Sobre minha família.
Assinto. — Nada incriminador. Só… verdade.
A expressão dela muda — a dor vira fúria gelada.
— Seu desgraçado — ela sibila. — Está usando meu irmão como isca? Me dando esperança só para me fazer trair minha família?
Levanto as mãos, alarmado.
— Não é isso, Melissa. Não vou te usar assim.
— Não? — O desgosto nos olhos dela me atinge como um soco. — Não vou trair minha família pra te ajudar.
— E o Lorenzo…
— Lorenzo seria o primeiro a mandar você para o inferno por sugerir isso.
Ela está prestes a ir embora. Eu preciso salvá-la — e salvar o que temos.
— Eu entendo por que você pensa isso. Mas vou seguir essa pista de qualquer forma. Não vou te manter refém.
Ela me estuda, procurando mentira.
— Então por que oferecer o acordo?
— Porque o desaparecimento dele pode estar ligado a outro caso. E mesmo que não esteja, você sabe coisas sobre ele, sobre sua família, que podem ser cruciais. — Sustento o olhar dela. — Não estou pedindo que traia ninguém. Estou pedindo que me ajude a encontrar o seu irmão. Qualquer outra coisa é secundária.
A tensão entre nós é quase palpável.
Melissa respira fundo, os olhos ainda queimando conflito — medo, lealdade, esperança.
E eu espero. Sabendo que as próximas palavras dela podem selar ou destruir a frágil aliança entre nós.