Melissa.
Respiro fundo, desejando que a fúria que borbulha dentro de mim se dissipe. A manobra manipuladora do Detetive Salvatore — usar Lorenzo como isca — acende minha raiva. Mas não posso perder o controle de novo como fiz ontem à noite com Matheo. A raiva não me levará a lugar nenhum com esse homem. Ele está esperando que eu exploda, pronto para me descartar como apenas mais uma criminosa impulsiva ou, pior, excessivamente… desequilibrada. Não vou dar essa satisfação a ele.
Em vez disso, recosto-me na cadeira com um sorriso brincalhão nos lábios.
— Entendo. Então, para haver justiça, é preciso que exista retribuição. — Rio baixo. — Acontece que o seu mundo não é tão diferente do meu.
O maxilar de Vince se contrai, os lábios se comprimem em uma linha fina. Por dentro, dou-me um ponto: ele definitivamente não gostou da minha insinuação.
— Para encontrar seu irmão, você precisa me dar mais informações.
Inclino a cabeça, finalmente sentindo que recuperei o controle. — E, no entanto, você me atraiu para esse jantar sob o pretexto de me dar informações. Informações que você não tem… ou que parece não querer me dar. Tem medo de que eu me adiante se compartilhar isso? Tem medo de que uma civil supere os melhores de Chicago?
Vince estreita os olhos. — Sra. Mancini, garanto que minhas habilidades investigativas estão mais do que à altura da tarefa.
Decido não lembrá-lo de usar Melissa. — Prove. — Ergo uma sobrancelha. — Ou você só fala e não faz nada?
Ele me observa por um instante. Então, toma um gole do martini e relaxa os ombros. — Não preciso provar nada para você. Meu histórico fala por si.
— Sério mesmo? — ronrono, inclinando-me para frente. — E eu aqui pensando que você era só mais um rostinho bonito com um distintivo.
Ele ri baixinho — um som grave que provoca um arrepio inesperado. — Cuidado. Bajulação não leva a lugar nenhum.
Desta vez, rio de verdade. — Ah, por favor. Como se você fosse imune a um pouco de charme.
Seus lábios se curvam nos cantos. — Sou um profissional. É preciso mais do que um sorriso bonito para me convencer.
— Isso é um desafio, detetive? — pergunto, sem conseguir disfarçar o tom de flerte. Estranho estar à altura disso. Estranho e perigoso.
Vince balança a cabeça, mas é claro que segura um sorriso. — Não posso divulgar detalhes de uma investigação em andamento. Existem regras, protocolos...
— Hmm, então você mentiu para me convidar para jantar. Por que não me chamou para sair?
— Eu não menti. Analisei o caso do seu irmão e estou acompanhando algumas pistas. Mas não posso te contar os detalhes.
— Desculpas, desculpas... — resmungo, apontando o dedo para ele. — Achei que você fosse um homem de ação, Salvatore. Não me diga que tem medo de quebrar algumas regras.
— Não se trata de medo — ele rebate, sério. — Trata-se de integridade. Algo que levo muito a sério na minha área.
Observo-o por um instante, procurando qualquer rachadura naquela armadura impecável. Mas Vince Salvatore permanece indecifrável, sólido, quase inabalável. Como eu imaginava. Um escoteiro...
Suspiro, percebendo o impasse. Por mais que eu odeie admitir, o Detetive Salvatore pode ser minha melhor chance de encontrar Lorenzo. A ideia do meu irmão sozinho, talvez em perigo, aperta meu peito.
— Tudo bem. Você venceu, detetive. Eu entro no jogo. Mas preciso de mais do que promessas vagas. Preciso que me conte algo sobre o Lorenzo.
Vince se recosta, com uma expressão irritantemente neutra. — Descobri algumas informações que podem lançar luz sobre o desaparecimento dele. Mas, como eu disse, não posso revelar detalhes sem comprometer a investigação.
Resisto à vontade de revirar os olhos. — Que conveniente. Tanto faz cumprir sua parte do acordo.
— Meu papel é investigar o desaparecimento do seu irmão. Contarei o que puder, quando puder. Mas essas coisas levam tempo. Preciso verificar certos detalhes antes de compartilhá-los.
Observo-o atentamente, buscando qualquer sinal de intenção escondida.
Nada. A cara de pôquer de Vince é impecável.
Então me ocorre um pensamento. Talvez ele esteja se controlando por causa do local.
— Está preocupado com ouvidos curiosos? — gesticulo ao redor do restaurante. — Normalmente é a minha família que tem medo de espiões escondidos.
Os lábios dele se contraem num quase sorriso. — Risco ocupacional, suponho. Nós dois temos segredos para guardar.
— De fato, temos. — Deixo o assunto de Lorenzo por agora. Vince está segurando as cartas, e pressioná-lo só vai piorar. Em vez disso, mudo a abordagem.
— Sabe, detetive — digo, tirando a azeitona da minha bebida — esta pode ser a primeira vez que confio em um policial. Considere-se especial.
Ele ergue uma sobrancelha, um sorriso discreto surgindo. — Estou lisonjeado. Ou devo me preocupar?
Rio. — Talvez os dois. Dizem para manter os amigos perto e os inimigos ainda mais perto. O júri ainda não decidiu em qual categoria você se encaixa.
— E eu achando que estávamos tendo uma noite tão adorável — brinca Vince, olhos brilhando.
— Ah, sim. Mas não deixe isso subir à cabeça. Ainda não decidi se você vale o risco.
— Risco? Está insinuando que sou perigoso?
— Não é? — provoco, com a voz baixa. — Um detetive bonitão que vê o mundo em preto e branco... você provavelmente prenderia sua avó por atravessar fora da faixa. Problema puro.
Ele não se ofende. Ostenta seus hábitos de escoteiro como medalha. — Eu poderia dizer o mesmo de você. Uma mulher bonita com conexões questionáveis? Isso é receita para desastre.
Sorrio, saboreando a troca. — Ora, detetive. Está flertando comigo?
— Só constatando fatos — responde suavemente, mas o brilho nos olhos o trai.
Entramos em um ritmo leve, trocando farpas e provocações. A tensão anterior se dissolve, substituída por algo elétrico.
É emocionante. E assustador.
À medida que a noite avança, percebo que realmente estou apreciando a companhia dele. Vince é perspicaz, afiado, surpreendentemente engraçado quando baixa a guarda. Por um momento, quase esqueço quem ele é.
Quando o garçom retira os pratos, um gosto amargo surge na minha boca. Apesar da noite surpreendente, ainda não sei nada sobre Lorenzo.
Brinco com a taça vazia, estudando o rosto dele, mas ele volta ao modo detetive com facilidade irritante. Toda a vulnerabilidade desaparece.
Determinada a salvar algo da noite, tomo uma decisão rápida.
— Bem, detetive, está ficando tarde. Deixe-me levá-lo para casa.
As sobrancelhas dele se erguem, surpresas, antes de retornarem ao lugar. — Não precisa. Meu carro está aqui.
Levanto-me, alisando a saia com um exagero calculado.
— Com medo de me contar onde mora?
Ele hesita, claramente avaliando minhas intenções.
Aproximo-me, inclinando-me o suficiente para que ele sinta meu perfume. — Vamos lá, detetive. Onde está aquela bravura toda? Certamente os melhores de Chicago não têm medo de mim.
Os lábios dele se contraem, divididos entre diversão e cautela.
— Não é medo. É cautela. Uma qualidade que tenho certeza de que você aprecia.
— Aprecio, sim. Mas às vezes… — aproximo a boca do ouvido dele — um pequeno risco pode ser estimulante. Além disso, você disse estar preocupado com olhares curiosos. Como vamos colaborar no caso do meu irmão se não podemos nos encontrar em particular?
Suas bochechas coram levemente. Perfeito. Ele achou que minhas artimanhas tinham outro propósito. Que ótimo.
— A menos que prefira nossos encontros em restaurantes lotados — continuo. — Tenho certeza de que isso não vai levantar suspeitas na delegacia.
Vince suspira e passa a mão pelos cabelos.
— Você tem razão. Mas entende minhas reservas.
— Claro. E é por isso que proponho um acordo. Que tal uma bebida antes de dormir? Podemos discutir o desaparecimento do meu irmão e qualquer… caso relacionado em que você esteja trabalhando.
Ele pondera. O ar entre nós vibra.
O quanto Vince quer minha ajuda?
O suficiente para se arriscar a ficar sozinho comigo?