Vincent
Chego cedo ao restaurante, com os nervos à flor da pele. Esse jantar com Melissa é uma péssima ideia. Preciso de informações, mas não posso baixar a guarda outra vez. A ligação que tenho com ela — essa atração imprudente e perigosa — me diz que o sentimento é mútuo, que não preciso me preocupar com flertes ou joguinhos. Isso não me tranquiliza nem um pouco.
Sou tão cúmplice quanto ela do encontro m*l planejado da noite anterior, e minha libido, traidora, não para de me lembrar disso. Do jeito que foi. Do quanto foi fácil perder o controle. Do quanto eu não devia querer repetir aquilo — e, ainda assim, querer mais do que qualquer outra coisa.
Ajeito a gravata pela terceira vez e observo a entrada do restaurante. Quando Melissa surge no vão da porta, prendo o fôlego.
Ela está deslumbrante. Um vestido preto justo delineia cada curva, elegante e provocante na medida exata. O cabelo escuro cai em cascata sobre um dos ombros, revelando o pescoço longo e exposto. Por um instante — só um — esqueço completamente por que estou ali.
Então ela me vê.
Melissa se aproxima com passos seguros, embora um sorriso hesitante dance em seus lábios.
— Detetive.
Levanto-me imediatamente.
— Sra. Mancini. Obrigado por se juntar a mim.
Ela assente e se senta na cadeira que puxo para ela. Não me corrige. Não pede que eu a chame de Melissa.
É como um soco no estômago.
Recosto-me no assento, hiperconsciente de cada movimento dela, de cada centímetro de espaço entre nós.
— Espero que não se importe — digo, apontando para a mesa —, tomei a liberdade de pedir um vinho.
Ela me observa por um instante longo demais.
— Esperando que isso solte minha língua?
A lembrança dela ajoelhada diante de mim, lambendo o pré-g**o com uma calma deliberada, atravessa minha mente como um golpe baixo.
Merda.
— Achei que poderia relaxar nós dois.
— Então não está interessado em repetir o que aconteceu ontem à noite? — ela pergunta, com um arqueio de sobrancelha. — Devo dizer que você tem um jeito… pouco convencional de interrogar mulheres.
Ela brinca, mas algo mudou. O humor leve da noite anterior não está ali por inteiro. Não sei se é cautela ou arrependimento.
— Acho que concordamos que a noite passada foi… pouco profissional da minha parte. Não vai acontecer de novo.
Ela suspira e se recosta na cadeira no exato momento em que o garçom chega com o vinho. Ele serve as taças, e bebemos quase ao mesmo tempo, como se precisássemos desesperadamente daquele intervalo.
— Então — diz ela —, hoje à noite é para garantir que eu não esteja por aí causando problemas? Ou seu parceiro está ocupado assaltando outro negócio da minha família?
A leveza voltou à sua voz, e é perturbador o quanto isso me agrada.
Sorrio.
— Alguém precisa ficar de olho em vocês, Mancini.
Ela ri — um som rico, melodioso, que me provoca um arrepio involuntário.
— Ah, claro. E você se voluntariou para o trabalho, pelo visto. — Os olhos âmbar brilham com malícia. — Que dedicação exemplar.
Dou de ombros, fingindo indiferença.
— É um trabalho difícil, mas alguém precisa fazê-lo.
— E me diga, Vince — ela inclina a cabeça —, esse seu “trabalho” normalmente envolve jantares íntimos e… atividades noturnas?
Quase me engasgo com o vinho.
— Aparentemente, só quando você está envolvida.
— Então sou um caso especial?
— Pode-se dizer que sim.
Por dentro, quero levá-la para longe daqui. Para qualquer lugar onde possamos conversar, rir… e fazer tudo aquilo de novo. O que há nessa mulher que me atrai como uma mariposa em chama?
Respiro fundo. É hora de lembrar por que estou aqui.
— Melissa — começo, deixando o tom mais sério —, tenho pensado no desaparecimento do seu irmão. Lorenzo tinha algum inimigo específico? Alguém que quisesse vê-lo fora de circulação?
Ela ri, e a reação me pega desprevenido.
— Ah, Vince… — balança a cabeça. — A pergunta certa seria: quem não era inimigo de Lorenzo?
Inclino-me para a frente.
— Pode explicar?
— Lorenzo nunca foi conhecido por seu tato ou diplomacia. Era mais do tipo “atirar primeiro, nunca perguntar depois”. Estou exagerando, claro… mas nem tanto.
— Entendo.
— Tirando a família, ele não era exatamente querido.
Assinto, encorajando-a a continuar.
— Depois que Lorenzo desapareceu, Matheo passou meses investigando cada pessoa que ele já tinha passado para trás. A lista era… extensa.
— E isso levou a alguma coisa?
Ela dá de ombros.
— Nada concreto. Muitas ameaças, muita gente apavorada… mas nenhum resultado. É por isso que Matheo acredita que Lorenzo está morto. Se alguém o tivesse levado, já teria feito exigências. Ou se gabado.
— Não se gabariam de tê-lo matado?
— Não necessariamente. — Ela me encara. — No nosso mundo, silêncio também é uma mensagem.
Franzo a testa.
— Você concorda com ele?
Ela suspira, longa e lentamente.
— Não. Não sei explicar. Só sei que Lorenzo está vivo. Eu sinto.
— Sente?
— Somos gêmeos fraternos. Talvez seja só isso… ou talvez seja mais. Mas eu sei que ele está lá fora.
Penso por um instante.
— E você? Descobriu algo que Matheo não descobriu?
Ela hesita.
— Investigávamos juntos. Mas ele disse que eu estava perdendo tempo ao tentar envolver a polícia. — Seus olhos se fixam nos meus. — Não parecia que vocês estavam se esforçando muito para encontrá-lo.
Decido mudar de abordagem.
— Há quatro anos, um policial foi morto perto de uma das propriedades da sua família. Você se lembra de algo?
A mudança nela é imediata.
O flerte desaparece. O sorriso some. O olhar se fecha numa máscara fria e impassível, capaz de congelar o inferno.
— Você acha que alguns orgasmos e vinho caro vão me fazer trair minha família?
— Eu…
— Os orgasmos foram bons, admito — ela continua, cortante —, mas achei que já tivéssemos superado esse jogo de gato e rato.
— Não é um jogo.
A decepção nos olhos dela me atinge em cheio.
— Você propôs um acordo, Vince. Algo mútuo. Mas agora parece que é só físico. Você não compartilhou nada comigo. Achei que fosse diferente.
Ela joga o guardanapo sobre a mesa e se levanta.
— Você trabalha para os Barone? Ou para alguém pior? — avalia meu terno. — Um homem que pode pagar por isso tudo sempre está a serviço de alguém.
Engulo a irritação.
— Você despreza os policiais que trabalham para o seu irmão?
— Não. — Ela cerra os lábios. — Mas eles não tentam me usar.
Ela dá meia-volta.
Seguro seu pulso, ciente do risco.
— Melissa. Por favor. Me desculpe.
Ela para.
— Houve um boato — continuo — de que Lorenzo poderia estar ligado à morte daquele policial. Mas não é por isso que estou perguntando.
Ela me encara, desconfiada.
— Então por quê?
— Porque acho que pode haver uma ligação entre esse assassinato e o desaparecimento do seu irmão.
Ela se senta lentamente, os braços cruzados.
— Explique.
— Um policial morto. Um ano depois, Lorenzo desaparece sem deixar rastros. Pode não ser coincidência.
— Você está sugerindo que Lorenzo o matou… e que alguém o levou em retaliação.
— É uma teoria. Só isso. Mas é uma possibilidade que ainda não foi explorada.
Ela pensa.
— No nosso mundo, ninguém espera um ano para se vingar.
— Talvez quisessem algo dele. Informação. Ou sofrimento.
Algo passa pelos olhos dela — raiva, medo — antes da máscara voltar ao lugar.
— Se encontrarmos Lorenzo — pergunta, finalmente — o que acontece?
— Primeiro, encontramos a verdade. Depois… vemos o resto.
Ela me observa, olhar demorado. Vejo o conflito ali. A lealdade. O medo. A esperança.
Enquanto espero sua resposta, uma certeza amarga se forma em mim: quero tirá-la disso tudo. Salvá-la do destino que a família pode impor — prisão ou morte.
Mas isso é mentira.
A verdade é mais simples e mais perigosa.
Quero que ela fique longe porque é a única razão pela qual desejá-la é errado. E porque sua devoção ao irmão desaparecido me diz que eu nunca — nunca — serei mais forte do que isso.