O celular ainda estava suspenso no ar entre eles, a tensão era densa como névoa no peito de ambos.
Kalie o encarou, os olhos âmbar ainda marejados, a voz saindo baixa, mas firme como aço recém-forjado.
— “Prometa pra mim que não vai me fazer mal.” — disse, cada sílaba cortando o silêncio com precisão.
Damon não respondeu de imediato.
Os olhos dourados se apertaram, o maxilar cerrando devagar como se as palavras dela o ferissem mais do que a joelhada no peito.
Ele franziu o cenho. Deu um passo pra trás, então voltou como se precisasse estar mais perto pra dizer o que vinha do fundo da alma.
— “Você ainda não entendeu, né?” — sua voz era grave, baixa, carregada.
— “Eu nunca… nunca vou te machucar. Nunca vou te fazer m*l, Kalie. p***a… eu morreria antes disso.”
E ela acreditou. Mesmo com medo. Mesmo ferida. Mesmo desconfiada.
O tempo entre eles se dobrou por um segundo, o mundo lá fora parecia um eco distante.
Kalie respirou fundo, juntando coragem que nem sabia que tinha.
— “Então vamos fazer um trato.” — disse, levantando lentamente do sofá, o tornozelo doendo, mas a firmeza voltando aos olhos.
— “Eu não digo nada pra ninguém sobre o que aconteceu… nem sobre você.”
— “Mas você me solta.” — fez uma pausa, encarando-o com determinação crua.
— “E nós continuamos… nos vendo. Nos conhecendo.”
Damon a encarou como se ela tivesse acabado de atravessar todos os muros que ele construiu por anos.
A mandíbula relaxou. Os olhos queimaram de novo — agora de surpresa, de desejo, de esperança.
Ele passou a língua pelos lábios secos e deu uma risada baixa, quase incrédula.
— “Você quer continuar me vendo mesmo depois de tudo?”
Ela apenas assentiu com o queixo, sem abaixar o olhar.
Não era mais só medo. Era controle. Era estratégia. Mas também… curiosidade perigosa.
Damon abaixou o celular, estendeu pra ela com mais firmeza agora.
— “Então é um trato, pequena.”
Os dedos dela tocaram os dele ao pegar o celular. Um arrepio percorreu os dois.
E naquele instante, algo novo foi selado.
Não era amor ainda.
Mas era uma queda inevitável para o abismo.
E eles estavam dispostos a pular.
O celular agora estava nas mãos dela.
Mas junto com ele, vinha o peso do acordo… e das condições dele.
Damon, ainda com a máscara n***a moldando o rosto, deu um passo mais perto. Os ombros largos, a presença dominante. A voz saiu baixa, firme, possessiva como aço fundido:
— “Tenho condições.”
Kalie arqueou uma sobrancelha, cruzando os braços — desafiadora, mesmo ainda de olhos inchados e joelho ralado.
— “Ótimo. Eu também.”
Ele ignorou, como se tivesse que tirar aquilo do peito antes de ouvir mais nada:
— “Eu não aceito mais ninguém — mais nenhum homem — perto de você.”
— “Se você mentir, eu vou saber.”
— “Nos vemos todas as noites.”
O silêncio mordeu o espaço entre eles.
O coração de Kalie martelava no peito, e a indignação explodiu nos olhos âmbar:
— “Você acha que pode me dar ordens agora? Eu nem sei quem você é!”
Ele continuou parado, os olhos fixos nela, como se cada palavra dela fosse esperada — e ignorável.
— “Ok…” — ela respirou fundo, tentando manter a calma — “Mas você vai tirar essa maldita máscara então?”
Damon não respondeu de imediato.
A tensão se esticou como um fio prestes a arrebentar.
Ela insistiu, a voz com um toque provocativo — talvez pelo medo, talvez pela raiva:
— “Você tem medo de quê? Que eu não goste do que veja? É feio?”
— “Careca?” — completou com sarcasmo e um meio sorriso irônico.
Ele não sorriu. Nem se ofendeu.
Apenas estreitou os olhos devagar, como uma fera avaliando se vai atacar ou brincar.
A tensão s****l entre os dois era palpável. Bruta. Intocada.
— “Estamos de acordo?” — ele disse, com aquela calma perigosa, sem responder nenhuma provocação.
Como se o resto não importasse. Como se o rosto dele fosse um segredo guardado por mil muralhas… por enquanto.
O silêncio era cortante.
Kalie ergueu a mão com firmeza, mas os dedos tremiam só um pouco.
— “Fechado?” — perguntou com a voz rouca, mas firme.
Damon não respondeu de imediato.
Seus olhos pousaram na mão dela como se pesassem o universo inteiro ali… então ele estendeu a mão, mas ao invés de apenas apertá-la, deixou seus dedos deslizarem pela palma dela, subindo até o queixo delicado e, por fim, acariciando o lábio inferior com o polegar.
O toque era gentil, mas carregado de uma promessa bruta.
Desejo contido. Obsessão velada.
Kalie prendeu a respiração.
Ele se afastou um passo, o corpo ainda másculo e tenso sob o suéter rasgado.
— “Faça sua ligação.” — disse, enquanto se virava. — “Vou tomar um banho.”
Ela ainda observava o sangue seco marcando o peitoral dele, o r***o denunciando a tentativa de fuga.
— “Você não vai cuidar do seu corte?” — perguntou, mais num impulso do que por preocupação.
Ele parou na porta, sem virar o rosto.
— “Estou acostumado com isso. Não se preocupe.”
E então virou o rosto por cima do ombro, seus olhos cruzando os dela por entre a máscara.
— “Estou confiando em você, pequena. Não me decepcione.”
As palavras ficaram suspensas no ar como um feitiço.
A voz dele ecoou dentro de Kalie como um martelo — pesado, lento, inescapável.
Ela ficou ali, com o celular nas mãos, encarando o reflexo da praia que entrava pela parede de vidro.
Respirou fundo. Discou o número de Vanessa.
Os dedos ainda lembrando do toque dele.
O coração dividido entre a adrenalina da liberdade e o buraco fundo da atração por aquele homem perigoso.
O telefone toca. Uma, duas vezes.
Na terceira, a voz de Vanessa explode do outro lado da linha, mais afiada que navalha molhada.
— “KALIE?! PELO AMOR DE DEUS, ONDE VOCÊ TÁ?!”
Kalie engoliu em seco, olhou pra porta do banheiro onde Damon estava e apertou o celular com mais força.
— “Eu tô bem, Van. Juro. Eu só… saí da festa com alguém.”
— “COM ALGUÉM?! VOCÊ SURTOU? VOCÊ SUMIU! LUCAS TÁ LOUCO! ELE VIU UM CARA TE CARREGANDO! ELE TENTOU IR ATRÁS E VOCÊS SUMIRAM NO AR!”
A voz de Vanessa era alta demais, desesperada, o som parecia ricochetear nas paredes de vidro da casa de praia.
— “Van, me escuta!” — Kalie sussurrou, tentando manter o tom firme. — “Foi um cara da festa. Um veterano. A gente só saiu pra conversar e… eu passei m*l. Ele me ajudou. Só isso.”
— “VOCÊ PASSOU m*l E ELE TE LEVOU EMBORA NO MEIO DA FESTA SEM FALAR COM NINGUÉM? ISSO É LOUCURA, KALIE!”
Kalie se afastou da parede de vidro, andou até um canto mais reservado, e respirou fundo.
— “Você tá me ouvindo? Eu tô segura agora. Eu tava bêbada, com o estômago vazio, fiquei zonza. Eu pedi pra ir embora. Só não consegui avisar na hora. Me perdoa.”
Houve um silêncio do outro lado. Um silêncio cheio de tensão.
— “Lucas ficou péssimo. Você não viu a cara dele quando você sumiu. Ele tá obcecado, Kalie. E agora vai saber que você saiu com outro cara assim, do nada…”
— “Eu não saí com ele pra isso. Foi só… confuso. Eu tô tentando entender.”
Vanessa bufou, ainda exaltada.
— “Você tá onde agora?”
Kalie hesitou. Sua língua coçou pra contar, pra pedir ajuda, pra explodir tudo. Mas ela se lembrou: “Estou confiando em você, pequena.”
As palavras de Damon queimavam como brasas no seu pensamento.
— “Numa casa perto da praia. Ele me trouxe pra descansar, só isso. Eu já tô indo embora.”
— “Eu não confio nisso, Kalie. Manda localização. Agora.”
— “Eu vou mandar… só espera um pouco, por favor. Confia em mim dessa vez.”
O silêncio agora era diferente. Era decepção misturada com medo.
— “Kalie, se você não aparecer até o final do dia, eu vou chamar a polícia. Eu juro por Deus.”
E clic.
A ligação caiu.
Kalie ficou com o celular na mão, o coração galopando.
Olhou pra porta. Ouviu o chuveiro ainda ligado.
Ela tinha pouco tempo.
Para decidir o quanto confiava…
Ou se tudo aquilo era apenas mais uma armadilha à beira do abismo.