CAPÍTULO 16 - segundas chances

1463 Words
O celular ainda estava suspenso no ar entre eles, a tensão era densa como névoa no peito de ambos. Kalie o encarou, os olhos âmbar ainda marejados, a voz saindo baixa, mas firme como aço recém-forjado. — “Prometa pra mim que não vai me fazer mal.” — disse, cada sílaba cortando o silêncio com precisão. Damon não respondeu de imediato. Os olhos dourados se apertaram, o maxilar cerrando devagar como se as palavras dela o ferissem mais do que a joelhada no peito. Ele franziu o cenho. Deu um passo pra trás, então voltou como se precisasse estar mais perto pra dizer o que vinha do fundo da alma. — “Você ainda não entendeu, né?” — sua voz era grave, baixa, carregada. — “Eu nunca… nunca vou te machucar. Nunca vou te fazer m*l, Kalie. p***a… eu morreria antes disso.” E ela acreditou. Mesmo com medo. Mesmo ferida. Mesmo desconfiada. O tempo entre eles se dobrou por um segundo, o mundo lá fora parecia um eco distante. Kalie respirou fundo, juntando coragem que nem sabia que tinha. — “Então vamos fazer um trato.” — disse, levantando lentamente do sofá, o tornozelo doendo, mas a firmeza voltando aos olhos. — “Eu não digo nada pra ninguém sobre o que aconteceu… nem sobre você.” — “Mas você me solta.” — fez uma pausa, encarando-o com determinação crua. — “E nós continuamos… nos vendo. Nos conhecendo.” Damon a encarou como se ela tivesse acabado de atravessar todos os muros que ele construiu por anos. A mandíbula relaxou. Os olhos queimaram de novo — agora de surpresa, de desejo, de esperança. Ele passou a língua pelos lábios secos e deu uma risada baixa, quase incrédula. — “Você quer continuar me vendo mesmo depois de tudo?” Ela apenas assentiu com o queixo, sem abaixar o olhar. Não era mais só medo. Era controle. Era estratégia. Mas também… curiosidade perigosa. Damon abaixou o celular, estendeu pra ela com mais firmeza agora. — “Então é um trato, pequena.” Os dedos dela tocaram os dele ao pegar o celular. Um arrepio percorreu os dois. E naquele instante, algo novo foi selado. Não era amor ainda. Mas era uma queda inevitável para o abismo. E eles estavam dispostos a pular. O celular agora estava nas mãos dela. Mas junto com ele, vinha o peso do acordo… e das condições dele. Damon, ainda com a máscara n***a moldando o rosto, deu um passo mais perto. Os ombros largos, a presença dominante. A voz saiu baixa, firme, possessiva como aço fundido: — “Tenho condições.” Kalie arqueou uma sobrancelha, cruzando os braços — desafiadora, mesmo ainda de olhos inchados e joelho ralado. — “Ótimo. Eu também.” Ele ignorou, como se tivesse que tirar aquilo do peito antes de ouvir mais nada: — “Eu não aceito mais ninguém — mais nenhum homem — perto de você.” — “Se você mentir, eu vou saber.” — “Nos vemos todas as noites.” O silêncio mordeu o espaço entre eles. O coração de Kalie martelava no peito, e a indignação explodiu nos olhos âmbar: — “Você acha que pode me dar ordens agora? Eu nem sei quem você é!” Ele continuou parado, os olhos fixos nela, como se cada palavra dela fosse esperada — e ignorável. — “Ok…” — ela respirou fundo, tentando manter a calma — “Mas você vai tirar essa maldita máscara então?” Damon não respondeu de imediato. A tensão se esticou como um fio prestes a arrebentar. Ela insistiu, a voz com um toque provocativo — talvez pelo medo, talvez pela raiva: — “Você tem medo de quê? Que eu não goste do que veja? É feio?” — “Careca?” — completou com sarcasmo e um meio sorriso irônico. Ele não sorriu. Nem se ofendeu. Apenas estreitou os olhos devagar, como uma fera avaliando se vai atacar ou brincar. A tensão s****l entre os dois era palpável. Bruta. Intocada. — “Estamos de acordo?” — ele disse, com aquela calma perigosa, sem responder nenhuma provocação. Como se o resto não importasse. Como se o rosto dele fosse um segredo guardado por mil muralhas… por enquanto. O silêncio era cortante. Kalie ergueu a mão com firmeza, mas os dedos tremiam só um pouco. — “Fechado?” — perguntou com a voz rouca, mas firme. Damon não respondeu de imediato. Seus olhos pousaram na mão dela como se pesassem o universo inteiro ali… então ele estendeu a mão, mas ao invés de apenas apertá-la, deixou seus dedos deslizarem pela palma dela, subindo até o queixo delicado e, por fim, acariciando o lábio inferior com o polegar. O toque era gentil, mas carregado de uma promessa bruta. Desejo contido. Obsessão velada. Kalie prendeu a respiração. Ele se afastou um passo, o corpo ainda másculo e tenso sob o suéter rasgado. — “Faça sua ligação.” — disse, enquanto se virava. — “Vou tomar um banho.” Ela ainda observava o sangue seco marcando o peitoral dele, o r***o denunciando a tentativa de fuga. — “Você não vai cuidar do seu corte?” — perguntou, mais num impulso do que por preocupação. Ele parou na porta, sem virar o rosto. — “Estou acostumado com isso. Não se preocupe.” E então virou o rosto por cima do ombro, seus olhos cruzando os dela por entre a máscara. — “Estou confiando em você, pequena. Não me decepcione.” As palavras ficaram suspensas no ar como um feitiço. A voz dele ecoou dentro de Kalie como um martelo — pesado, lento, inescapável. Ela ficou ali, com o celular nas mãos, encarando o reflexo da praia que entrava pela parede de vidro. Respirou fundo. Discou o número de Vanessa. Os dedos ainda lembrando do toque dele. O coração dividido entre a adrenalina da liberdade e o buraco fundo da atração por aquele homem perigoso. O telefone toca. Uma, duas vezes. Na terceira, a voz de Vanessa explode do outro lado da linha, mais afiada que navalha molhada. — “KALIE?! PELO AMOR DE DEUS, ONDE VOCÊ TÁ?!” Kalie engoliu em seco, olhou pra porta do banheiro onde Damon estava e apertou o celular com mais força. — “Eu tô bem, Van. Juro. Eu só… saí da festa com alguém.” — “COM ALGUÉM?! VOCÊ SURTOU? VOCÊ SUMIU! LUCAS TÁ LOUCO! ELE VIU UM CARA TE CARREGANDO! ELE TENTOU IR ATRÁS E VOCÊS SUMIRAM NO AR!” A voz de Vanessa era alta demais, desesperada, o som parecia ricochetear nas paredes de vidro da casa de praia. — “Van, me escuta!” — Kalie sussurrou, tentando manter o tom firme. — “Foi um cara da festa. Um veterano. A gente só saiu pra conversar e… eu passei m*l. Ele me ajudou. Só isso.” — “VOCÊ PASSOU m*l E ELE TE LEVOU EMBORA NO MEIO DA FESTA SEM FALAR COM NINGUÉM? ISSO É LOUCURA, KALIE!” Kalie se afastou da parede de vidro, andou até um canto mais reservado, e respirou fundo. — “Você tá me ouvindo? Eu tô segura agora. Eu tava bêbada, com o estômago vazio, fiquei zonza. Eu pedi pra ir embora. Só não consegui avisar na hora. Me perdoa.” Houve um silêncio do outro lado. Um silêncio cheio de tensão. — “Lucas ficou péssimo. Você não viu a cara dele quando você sumiu. Ele tá obcecado, Kalie. E agora vai saber que você saiu com outro cara assim, do nada…” — “Eu não saí com ele pra isso. Foi só… confuso. Eu tô tentando entender.” Vanessa bufou, ainda exaltada. — “Você tá onde agora?” Kalie hesitou. Sua língua coçou pra contar, pra pedir ajuda, pra explodir tudo. Mas ela se lembrou: “Estou confiando em você, pequena.” As palavras de Damon queimavam como brasas no seu pensamento. — “Numa casa perto da praia. Ele me trouxe pra descansar, só isso. Eu já tô indo embora.” — “Eu não confio nisso, Kalie. Manda localização. Agora.” — “Eu vou mandar… só espera um pouco, por favor. Confia em mim dessa vez.” O silêncio agora era diferente. Era decepção misturada com medo. — “Kalie, se você não aparecer até o final do dia, eu vou chamar a polícia. Eu juro por Deus.” E clic. A ligação caiu. Kalie ficou com o celular na mão, o coração galopando. Olhou pra porta. Ouviu o chuveiro ainda ligado. Ela tinha pouco tempo. Para decidir o quanto confiava… Ou se tudo aquilo era apenas mais uma armadilha à beira do abismo.
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