Ele começou a morder brincando, a enchendo de beijinhos, cochichou no ouvido:
— Seque o seu desenho, lembra do que te ensinei? Sobre o feitiço do fogo?
Ela olhou para a mãe de costas, balançou a cabeça que sim. Quando ia fazê-lo secar com magia, Sumayla se virou:
— Já falei para não fazerem isso aqui dentro, parem agora!
O desenho começou a pegar fogo na bancada, ele a ajudou rindo.
— Fui eu, desculpa. Você me distraiu, Sumayla! — Ele disse rindo.
Ela colocou o lixo na bancada, irritada.
— É isso que ensina a ela? Mentir? Trapacear?
— Quer o quê na minha cozinha a essa hora, Zaymon?
Ele começou a limpar a bagunça, pediu para a sobrinha sair, ir pegar o celular dele, lá em cima no quarto. Assim que ela se afastou, ele começou a falar que Évora queria conversar e podia ser algo do interesse deles. Sumayla interrompeu, irritada:
— Tipo o quê? Ela não é nossa amiga. Por que você tem dado tantos ouvidos a ela?
— Sei que foi lá escondido, se esqueceu de quem eles são?
— Acha mesmo que aquela garota veio até aqui por acaso?
— Que tipo de loba não olha por onde anda a esse ponto?
— Estão manipulando você, não seja inocente. Eles querem nos usar.
Ele respondeu exultante:
— Não fiz nada demais, ela não sabia o que estava fazendo aqui.
— Não sabe nem o que é, acha isso normal?
— Eu vi um pouco, nas memórias dela.
— Nessa idade, acha normal ainda não saber? Ela é uma coitada.
— Você viu as marcas dela, teve sorte de que veio parar aqui.
— Não custa ouvir a Évora, tem muitas coisas estranhas acontecendo na cidade.
— Dois hippies deram entrada feridos, achando que caíram de uma montanha.
Sumayla sorriu irônica:
— São elas, como pode ter dúvidas?
— Vi sim as marcas… em você, seu t**o!
— Ela pode, te matar. Já te atacou.
— Elas chegaram e, misteriosamente, coisas aconteceram?
— Diga pra àquela vaca que, se quiser falar comigo, vai precisar me convencer.
Ele pegou o celular, mostrou tocando:
— Nós sabíamos que algo ia acontecer, eles já não vêm aqui há mais de dez anos.
— Acha que vão esquecer de tudo assim?
— Acho que seja um vampiro ou dois, desleixados e atrás de encrenca!
— E se voltarem querendo algo?
— Não temos muitos aliados, graças à sua simpatia. Vamos estar em perigo, as crianças.
Ela se sentou, respirou fundo pensativa.
— Querendo você?
— Nós não podemos contar com os lobos, coloca isso na sua cabeça.
— Vamos lá logo, eu aposto a louça que ela vai pedir um favor.
— Atende essa vaca desesperada.
Ele se afastou para atender, disse que logo iriam. Évora não quis adiantar nada por ligação. Sumayla saiu gritando, chamando as crianças, as deixou jantando com o pai e saiu, reclamou o caminho todo, dando motivos para não ajudarem com nada.
Évora estava sozinha com Kaya, os recebeu no quintal, simpática:
— Obrigada por terem vindo, você está tão linda e pareci…
Sumayla interrompeu hostil, a encarando séria:
— O que quer conosco?
— Vejo todos os dias o quanto pareço com a minha falecida mãezinha, não precisa me falar.
Évora ficou desconcertada, foi entrando.
— Venham, aqui dentro é mais seguro.
— A acústica não deixa ninguém de fora ouvir.
— Não tenho a quem recorrer e não confio nos outros clãs.
— Apesar das diferenças, temos muito em comum, somos quase família.
— Duvidem o quanto quiserem, mas me ouçam.
Os levou para o quarto de Kaya. Ela estava dormindo, acorrentada. Évora parou na porta, dando espaço para eles.
— Não tenho como ajudá-la, sou muito fraca.
— Podem olhar, entrar na cabeça dela, ela não vai acordar.
— A mãe tem feito coisas que eu não sei exatamente o que são, mas não parecem boas.
— Sumayla, por favor, entre e a toque, verifique você mesma.
— Ela é só uma menina assustada. Rejeitada.
Sumayla sorriu, olhando Kaya com desprezo, tocou as correntes que a prendiam.
— Um animal, né?
— Feroz e descontrolado, fazendo suas vítimas!
— Por que as trouxe para cá, se não tem capacidade de fazer algo?
— Quer que elas chamem a atenção dos vampiros?
— Tem pessoas sendo atacadas desde que elas chegaram.
Se afastou e foi indo para perto da porta.
— Quer uma reprise de toda aquela desgraça que atraiu para nós?
— Zay, vamos embora. Não queremos nos envolver. Ela é uma híbrida. Vai acabar, com a paz.
Ele se aproximou de Kaya, se sentindo angustiado, com pena dela, colocou a mão sutilmente em seu rosto, sentindo a temperatura.
— Sumayla, calma. Ela nem sabe, do poder que tem. — Ele disse.
— Ela está febril. O que houve?
— Sumayla, já viemos até aqui, deixe ela falar.
Évora se aproximou da porta, foi saindo do quarto. Respondeu preocupada.
— Teve um surto e cortou o pulso, mas eu não vi.
— A mãe dela quem me contou. E ela agrediu a mãe.
— Eu não as trouxe, não exatamente.
— A mãe delas me procurou, estavam voltando pra cá e ela teve medo do passado.
— Eu devia isso à Yesenia, assim como à mãe de vocês.
— Elas me ajudaram quando precisei.
— Ela as escondeu o quanto pôde, o marido dela, a ajudou. Eles se afastaram de tudo.
Zay saiu também, foi indo atrás. Entraram no escritório, Évora continuou falando:
— Vou direto ao ponto.
— Queremos segurança e eu tive uma previsão da Nilufer e do Rick.
— Vocês sabem como são essas coisas, vão acontecer de qualquer jeito. Estão destinados, vão ter filhos.
— São duas híbridas de linhagens diferentes, uma é da antiga realeza e eu só tenho um filho.
— Cansei de viver com medo. Dos vampiros.
— Quem sabe o que aqueles lou.cos vão fazer quando voltarem? Eu vi eles, vão voltar.
— Estamos cada vez mais fortes com eles longe e um bebê híbrido vai nos ajudar. Vocês sabem.
— Seus filhos já fazem feitiços, não é? Desde os três? Cinco anos? Sumayla?
— Não sou a única que os sente, querida.
— Na feira da cidade, a barraca de vocês tinha combinações de cores nas flores que eu nunca nem imaginei. Aquela sua menina, maior, é como a sua mãe.
— Como você, ela é forte, demais.
— Eu vi o meu filho e a Nilufer, irmã da Kaya. Vai acontecer.
— E eu não quero estar vulnerável com a minha família na próxima guerra.
— Não vou sacrificar mais nada, nem ninguém. Nós já perdemos muito!
Sumayla começou a rir ironicamente. Falou ríspida.
— Ok, alguém andou assistindo filmes demais.
— E onde nós entramos nisso?
— Quer que morramos protegendo seu neto precioso?
— Você não sabe fazer um remédio direito, como teve uma previsão? Tão importante?
Se levantou.
— Mentirosa, manipuladora… Zay, vamos…
Évora interrompeu falou com firmeza:
— Vocês podem ter o mesmo e nos tornarmos aliados, ninguém precisa saber. Até o momento certo.
— Olhem pra ela, a mãe deve ter feito tudo de caso pensado.
— Ela fez um feitiço, unindo as filhas, as conectando desde a gestação. A Kaya, já salvou a vida da Nilufer, sem nem saber e a tornou híbrida.
— São filhas, de pais diferentes.
— Não temos que ficar contra uns aos outros.
— Você pode ter um híbrido também, Zay, proteger sua família toda. Se tornar, mais forte, invencível, usando o sangue do seu bebê.
Ele se levantou também, incomodado. Falou ríspido.
— E como isso iria funcionar?
— Porque elas não sabem o que são.
— Pelo que vejo, a irmã boa você já escolheu.
— Vou seduzir a irmã má e deixá-la grávida?
— Não tem sentido nenhum isso.
— Não sei o que está escondendo, mas não vamos participar.
— Elas não têm propósito, ligação com ancestrais, família, um clã ou qualquer coisa para lutar, amar e defender, morrer por isso se preciso for.
Foi saindo do escritório.
— Vão fazer igual à mãe, fugir.
— Espero que não a ofereça a outros como mercadoria, porque se isso chegar aos ouvidos errados vai parecer conspiração.
Sumayla também saiu, desacreditada, reparando em tudo. Falou nervosa.
— Não parece, é! Ela quer conspirar, contra os vampiros.
— Quer proteger sua família?
— Vá embora, antes que a sua visão mirabolante seja concretizada, se é que já não foi.
— Ao ver o quanto protege elas, dá pra entender seu desespero.
— Como fechou a casa com feitiço se não sabe fazer uma poçãozinha ou uma florzinha colorida?
— É para vampiros não entrarem? Quanta sofisticação.
— Híbridos passam, lobos e bruxas também.
Évora ficou surpresa, sem entender, respondeu.
— Não fui eu, deve ter sido a Yesenia.
— Não quero conspirar ou criar um exército.
— Se vai acontecer de qualquer forma, por que não ajudar o destino?
— Sua família tem tanto a ganhar quanto a minha.
— Não vou oferecer ela a ninguém.
— A coitada já tem sofrido muito a vida toda, eu não a colocaria nas mãos erradas, jamais.
— Confio em vocês, sei que não iriam maltratá-la como a mãe tem feito a vida toda.
— Sumayla, você sabe que isso vai proteger vocês.
— Pense nos seus filhos. Seu irmão, é um homem bom, íntegro. Pode proteger ela, a ajudar se encontrar na vida.
Sumayla voltou para perto, hostil:
— Se formos morrer, será por nós e não por ninguém, como a tola da minha mãe.
— Nós podemos nos proteger e você não.
— Por isso quer ajuda.
— Mantenha as vira-latas bem longe da minha casa ou então nem ele irá me impedir de fazer algo.