Capítulo 23

1636 Words
Ele começou a morder brincando, a enchendo de beijinhos, cochichou no ouvido: — Seque o seu desenho, lembra do que te ensinei? Sobre o feitiço do fogo? Ela olhou para a mãe de costas, balançou a cabeça que sim. Quando ia fazê-lo secar com magia, Sumayla se virou: — Já falei para não fazerem isso aqui dentro, parem agora! O desenho começou a pegar fogo na bancada, ele a ajudou rindo. — Fui eu, desculpa. Você me distraiu, Sumayla! — Ele disse rindo. Ela colocou o lixo na bancada, irritada. — É isso que ensina a ela? Mentir? Trapacear? — Quer o quê na minha cozinha a essa hora, Zaymon? Ele começou a limpar a bagunça, pediu para a sobrinha sair, ir pegar o celular dele, lá em cima no quarto. Assim que ela se afastou, ele começou a falar que Évora queria conversar e podia ser algo do interesse deles. Sumayla interrompeu, irritada: — Tipo o quê? Ela não é nossa amiga. Por que você tem dado tantos ouvidos a ela? — Sei que foi lá escondido, se esqueceu de quem eles são? — Acha mesmo que aquela garota veio até aqui por acaso? — Que tipo de loba não olha por onde anda a esse ponto? — Estão manipulando você, não seja inocente. Eles querem nos usar. Ele respondeu exultante: — Não fiz nada demais, ela não sabia o que estava fazendo aqui. — Não sabe nem o que é, acha isso normal? — Eu vi um pouco, nas memórias dela. — Nessa idade, acha normal ainda não saber? Ela é uma coitada. — Você viu as marcas dela, teve sorte de que veio parar aqui. — Não custa ouvir a Évora, tem muitas coisas estranhas acontecendo na cidade. — Dois hippies deram entrada feridos, achando que caíram de uma montanha. Sumayla sorriu irônica: — São elas, como pode ter dúvidas? — Vi sim as marcas… em você, seu t**o! — Ela pode, te matar. Já te atacou. — Elas chegaram e, misteriosamente, coisas aconteceram? — Diga pra àquela vaca que, se quiser falar comigo, vai precisar me convencer. Ele pegou o celular, mostrou tocando: — Nós sabíamos que algo ia acontecer, eles já não vêm aqui há mais de dez anos. — Acha que vão esquecer de tudo assim? — Acho que seja um vampiro ou dois, desleixados e atrás de encrenca! — E se voltarem querendo algo? — Não temos muitos aliados, graças à sua simpatia. Vamos estar em perigo, as crianças. Ela se sentou, respirou fundo pensativa. — Querendo você? — Nós não podemos contar com os lobos, coloca isso na sua cabeça. — Vamos lá logo, eu aposto a louça que ela vai pedir um favor. — Atende essa vaca desesperada. Ele se afastou para atender, disse que logo iriam. Évora não quis adiantar nada por ligação. Sumayla saiu gritando, chamando as crianças, as deixou jantando com o pai e saiu, reclamou o caminho todo, dando motivos para não ajudarem com nada. Évora estava sozinha com Kaya, os recebeu no quintal, simpática: — Obrigada por terem vindo, você está tão linda e pareci… Sumayla interrompeu hostil, a encarando séria: — O que quer conosco? — Vejo todos os dias o quanto pareço com a minha falecida mãezinha, não precisa me falar. Évora ficou desconcertada, foi entrando. — Venham, aqui dentro é mais seguro. — A acústica não deixa ninguém de fora ouvir. — Não tenho a quem recorrer e não confio nos outros clãs. — Apesar das diferenças, temos muito em comum, somos quase família. — Duvidem o quanto quiserem, mas me ouçam. Os levou para o quarto de Kaya. Ela estava dormindo, acorrentada. Évora parou na porta, dando espaço para eles. — Não tenho como ajudá-la, sou muito fraca. — Podem olhar, entrar na cabeça dela, ela não vai acordar. — A mãe tem feito coisas que eu não sei exatamente o que são, mas não parecem boas. — Sumayla, por favor, entre e a toque, verifique você mesma. — Ela é só uma menina assustada. Rejeitada. Sumayla sorriu, olhando Kaya com desprezo, tocou as correntes que a prendiam. — Um animal, né? — Feroz e descontrolado, fazendo suas vítimas! — Por que as trouxe para cá, se não tem capacidade de fazer algo? — Quer que elas chamem a atenção dos vampiros? — Tem pessoas sendo atacadas desde que elas chegaram. Se afastou e foi indo para perto da porta. — Quer uma reprise de toda aquela desgraça que atraiu para nós? — Zay, vamos embora. Não queremos nos envolver. Ela é uma híbrida. Vai acabar, com a paz. Ele se aproximou de Kaya, se sentindo angustiado, com pena dela, colocou a mão sutilmente em seu rosto, sentindo a temperatura. — Sumayla, calma. Ela nem sabe, do poder que tem. — Ele disse. — Ela está febril. O que houve? — Sumayla, já viemos até aqui, deixe ela falar. Évora se aproximou da porta, foi saindo do quarto. Respondeu preocupada. — Teve um surto e cortou o pulso, mas eu não vi. — A mãe dela quem me contou. E ela agrediu a mãe. — Eu não as trouxe, não exatamente. — A mãe delas me procurou, estavam voltando pra cá e ela teve medo do passado. — Eu devia isso à Yesenia, assim como à mãe de vocês. — Elas me ajudaram quando precisei. — Ela as escondeu o quanto pôde, o marido dela, a ajudou. Eles se afastaram de tudo. Zay saiu também, foi indo atrás. Entraram no escritório, Évora continuou falando: — Vou direto ao ponto. — Queremos segurança e eu tive uma previsão da Nilufer e do Rick. — Vocês sabem como são essas coisas, vão acontecer de qualquer jeito. Estão destinados, vão ter filhos. — São duas híbridas de linhagens diferentes, uma é da antiga realeza e eu só tenho um filho. — Cansei de viver com medo. Dos vampiros. — Quem sabe o que aqueles lou.cos vão fazer quando voltarem? Eu vi eles, vão voltar. — Estamos cada vez mais fortes com eles longe e um bebê híbrido vai nos ajudar. Vocês sabem. — Seus filhos já fazem feitiços, não é? Desde os três? Cinco anos? Sumayla? — Não sou a única que os sente, querida. — Na feira da cidade, a barraca de vocês tinha combinações de cores nas flores que eu nunca nem imaginei. Aquela sua menina, maior, é como a sua mãe. — Como você, ela é forte, demais. — Eu vi o meu filho e a Nilufer, irmã da Kaya. Vai acontecer. — E eu não quero estar vulnerável com a minha família na próxima guerra. — Não vou sacrificar mais nada, nem ninguém. Nós já perdemos muito! Sumayla começou a rir ironicamente. Falou ríspida. — Ok, alguém andou assistindo filmes demais. — E onde nós entramos nisso? — Quer que morramos protegendo seu neto precioso? — Você não sabe fazer um remédio direito, como teve uma previsão? Tão importante? Se levantou. — Mentirosa, manipuladora… Zay, vamos… Évora interrompeu falou com firmeza: — Vocês podem ter o mesmo e nos tornarmos aliados, ninguém precisa saber. Até o momento certo. — Olhem pra ela, a mãe deve ter feito tudo de caso pensado. — Ela fez um feitiço, unindo as filhas, as conectando desde a gestação. A Kaya, já salvou a vida da Nilufer, sem nem saber e a tornou híbrida. — São filhas, de pais diferentes. — Não temos que ficar contra uns aos outros. — Você pode ter um híbrido também, Zay, proteger sua família toda. Se tornar, mais forte, invencível, usando o sangue do seu bebê. Ele se levantou também, incomodado. Falou ríspido. — E como isso iria funcionar? — Porque elas não sabem o que são. — Pelo que vejo, a irmã boa você já escolheu. — Vou seduzir a irmã má e deixá-la grávida? — Não tem sentido nenhum isso. — Não sei o que está escondendo, mas não vamos participar. — Elas não têm propósito, ligação com ancestrais, família, um clã ou qualquer coisa para lutar, amar e defender, morrer por isso se preciso for. Foi saindo do escritório. — Vão fazer igual à mãe, fugir. — Espero que não a ofereça a outros como mercadoria, porque se isso chegar aos ouvidos errados vai parecer conspiração. Sumayla também saiu, desacreditada, reparando em tudo. Falou nervosa. — Não parece, é! Ela quer conspirar, contra os vampiros. — Quer proteger sua família? — Vá embora, antes que a sua visão mirabolante seja concretizada, se é que já não foi. — Ao ver o quanto protege elas, dá pra entender seu desespero. — Como fechou a casa com feitiço se não sabe fazer uma poçãozinha ou uma florzinha colorida? — É para vampiros não entrarem? Quanta sofisticação. — Híbridos passam, lobos e bruxas também. Évora ficou surpresa, sem entender, respondeu. — Não fui eu, deve ter sido a Yesenia. — Não quero conspirar ou criar um exército. — Se vai acontecer de qualquer forma, por que não ajudar o destino? — Sua família tem tanto a ganhar quanto a minha. — Não vou oferecer ela a ninguém. — A coitada já tem sofrido muito a vida toda, eu não a colocaria nas mãos erradas, jamais. — Confio em vocês, sei que não iriam maltratá-la como a mãe tem feito a vida toda. — Sumayla, você sabe que isso vai proteger vocês. — Pense nos seus filhos. Seu irmão, é um homem bom, íntegro. Pode proteger ela, a ajudar se encontrar na vida. Sumayla voltou para perto, hostil: — Se formos morrer, será por nós e não por ninguém, como a tola da minha mãe. — Nós podemos nos proteger e você não. — Por isso quer ajuda. — Mantenha as vira-latas bem longe da minha casa ou então nem ele irá me impedir de fazer algo.
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