Luxo e Nada Mais

1567 Words
O salão principal do hotel era um oceano de luzes douradas, champanhe borbulhante e risadas contidas. Um evento “beneficente” para arrecadar fundos para a restauração de igrejas históricas em Veneza — pelo menos, era assim que estava no convite. Eu sabia que, nos bastidores, boa parte daquele dinheiro iria para movimentar remessas que não poderiam passar por bancos tradicionais. Estava cercado de homens engravatados, todos com seus sorrisos treinados, e mulheres que pareciam saídas de editoriais de moda. O cheiro de perfume caro se misturava ao aroma sutil de trufas que vinha das bandejas dos garçons. Eu conversava com um investidor suíço sobre “exportação de gemas certificadas”, enquanto meus olhos varriam o ambiente como quem procura um detalhe precioso numa pilha de pedras brutas. Foi quando a vi. Encostada casualmente perto do bar, uma taça de vinho tinto nas mãos, ela parecia alheia à movimentação. Vestido preto justo, costas nuas, cabelos loiros lisos caindo até o meio das costas. Pele clara, iluminada pelas luzes amareladas. E o detalhe que me prendeu: um batom vermelho tão provocante que parecia um desafio. Não era só bonita — havia algo no jeito que ela olhava para a sala, como quem mede cada pessoa e calcula seu valor. Reconheci o instinto. Aproximei-me sem pressa, como faço com qualquer alvo valioso. — Esse vinho… — falei, apontando para a taça dela — … não combina com um evento como esse. É encorpado demais para tanta falsidade. Ela ergueu uma sobrancelha, surpresa pela abordagem. — Então sugere o quê? — perguntou, a voz baixa, levemente rouca. — Uma taça de champanhe francesa. É o que todos esperam de você, e justamente por isso é melhor não dar. Surpreender é sempre mais interessante. O canto da boca dela se curvou. Peguei a taça de suas mãos e, sem pedir, entreguei ao garçom que passava, pedindo o champanhe. Ela não protestou — apenas me olhou como quem aceita o jogo. — E qual é o seu nome? — ela perguntou. Sorri, mas não respondi de imediato. Olhei para ela, segurando o olhar como quem pesa uma decisão importante. — Talvez eu diga mais tarde. Por enquanto, vamos fingir que somos estranhos que se conhecem há muito tempo. Conversamos por alguns minutos, sobre nada e sobre tudo: viagens, arte, restaurantes. Eu já sabia, pelo sotaque leve, que ela era francesa. E, pelo anel discreto no dedo, que provavelmente era casada — mas não do tipo fiel. Quando a música mudou para um jazz suave, ofereci minha mão. Ela aceitou, e a leveza do toque já me dizia que eu tinha controle da situação. Dançamos, e senti o perfume dela — jasmim com algo mais amadeirado, perfeito para misturar com o cheiro de pele depois. Não demorou muito para que eu a conduzisse para fora do salão. No elevador, não falamos nada. Apenas o som da respiração dela e meus olhos fixos nos dela. No quarto, não houve gentilezas demoradas. Ela sabia o que queria, e eu também. Minhas mãos exploraram seu corpo com a mesma precisão com que avalio uma safira rara — sem desperdício de tempo, indo direto ao que importa. O vestido deslizou pelo chão como se estivesse implorando para ser esquecido. O corpo dela reagia ao meu toque com uma mistura de urgência e rendição. Seus lábios buscavam os meus, mas eu me afastava de propósito, prolongando a expectativa. Não era sobre pressa — era sobre controle. Horas depois, ela estava deitada ao meu lado, o lençol cobrindo apenas metade do corpo. Os cabelos bagunçados, a boca ainda levemente vermelha. Ela parecia pronta para iniciar alguma conversa íntima. Eu, por outro lado, não tinha interesse. Levantei-me, vesti a camisa, ajustei os punhos e olhei para ela. — Foi ótimo. — Disse, como quem comenta a qualidade de um vinho. — O elevador está no fim do corredor. Ela piscou, surpresa. — Só isso? — Só isso. — Sorri de lado, e fechei a porta assim que ela saiu. No silêncio do quarto, voltei para a janela. Lá embaixo, a cidade ainda brilhava, e a festa continuava. Para mim, era apenas mais uma noite. E, como sempre, eu já estava pensando no próximo movimento. O silêncio do quarto ainda tinha o perfume dela. Era doce, floral, com aquele fundo amadeirado que grudava na pele e nos lençóis. Sentei na beira da cama, lembrando do vestido preto largado no tapete como se fosse um troféu esquecido. Mulheres como ela não me marcavam; eram apenas passagens — momentos bons para serem vividos, mas que não tinham o menor valor no dia seguinte. Do vigésimo quarto andar, os carros pareciam vagalumes em fila, e o som abafado da festa chegava como um eco distante. Eu ainda tinha que voltar. Não porque me importasse com o evento em si, mas porque havia gente que esperava me ver lá. Aparições calculadas fazem parte do meu trabalho tanto quanto fechar acordos. O “rei das pedras preciosas” não podia simplesmente sumir. A imagem era um ativo, e eu cuidava dela com a mesma frieza que cuidava dos meus cofres. Passei no banheiro, lavei o rosto e troquei de camisa. Vesti meu terno cinza-claro, com gravata preta. O relógio de platina no pulso brilhava mais do que o necessário — um detalhe proposital para lembrar quem estava olhando que eu jogava num nível onde ninguém podia entrar sem convite. Ao descer, o elevador refletia minha própria expressão: séria, confiante, inabalável. A cada andar que passava, eu já montava mentalmente a narrativa para quem perguntasse sobre a minha ausência. Talvez um telefonema urgente para o exterior, talvez uma reunião reservada com um potencial doador. Tudo plausível. Tudo limpo. O salão continuava cheio. As luzes eram mais baixas agora, criando um clima intimista. O jazz havia sido trocado por um quarteto de cordas tocando algo mais lento. O ar estava mais pesado, carregado de perfume e álcool. Caminhei até o bar, cumprimentando dois empresários no caminho. Um deles, Maurício, era um velho amigo — ou melhor, um velho aliado de negócios. — Sumiu, Gabrian — disse ele, com aquele sorriso de quem já sabia a resposta. — Você sabe como é — respondi, pegando uma taça de champanhe. — Alguns compromissos precisam ser atendidos na hora certa. Ele riu, deu um tapinha no meu ombro e se afastou. De onde estava, vi minha conquista da noite saindo discretamente pela porta lateral. Sem olhar para trás, sem se despedir. Perfeito. Mulheres inteligentes não fazem cena, e eu sempre preferi assim. O resto da festa passou numa mistura de conversas e observações. Eu olhava para cada rosto, cada gesto, e via mais do que as pessoas queriam mostrar. O investidor que ria alto demais para disfarçar a insegurança. A socialite que mantinha as mãos sobre a bolsa como se escondesse algo. O político que evitava cruzar o olhar comigo porque sabia que eu sabia. Por trás de toda aquela cortina de caridade e música clássica, negócios aconteciam. Discretos, silenciosos, mas acontecendo. Um aperto de mão aqui, um brinde ali. Sinais. Quem sabia, sabia. Quem não sabia, apenas aplaudia os discursos sobre “preservar a cultura e a história”. Terminei minha taça e me afastei para o terraço. O ar fresco da noite bateu no rosto e trouxe um certo alívio. Do alto, via a cidade respirando. Era bonita à sua maneira — viva, pulsante, mas cheia de sombras. Como eu. Uma mulher me abordou no terraço. Morena, cabelo curto, vestido vermelho. Um sorriso que parecia inocente demais para ser real. — Você é o Gabrian Varella, não é? Olhei para ela por um instante, avaliando. — Depende. Quem pergunta? — Alguém que sempre quis conhecer o homem por trás das revistas e das colunas sociais. Sorri de lado. — Cuidado com o que deseja. Conversamos por alguns minutos. Ela me fazia perguntas sobre viagens, sobre negócios, sobre “as pedras maravilhosas” que eu comercializava. Respondi metade, inventei a outra metade. No fundo, não me importava com o que ela queria saber; eu só decidia se valia a pena gastar mais tempo com ela. E valia. Quando percebi, já estávamos próximos demais para um simples bate-papo. O cheiro do perfume dela era mais doce que o da anterior, e o toque da mão no meu braço deixava claro que ela estava disposta. Era como pescar num lago cheio: bastava escolher o peixe. Voltei com ela para dentro, circulamos juntos por alguns minutos para que todos vissem, e depois desaparecemos pelo mesmo caminho lateral. No elevador, encostei-a contra a parede, segurando seu queixo com firmeza. O olhar dela era de quem já tinha imaginado essa cena antes mesmo de chegar. E eu apenas executei. No quarto, a história se repetiu — mas com outra intensidade. Essa era mais ansiosa, mais entregue, como se estivesse vivendo uma fantasia antiga. E eu a conduzi até o fim, até ela cair no sono exausta, um sorriso satisfeito nos lábios. Levantei-me, vesti minha roupa e, sem sequer olhar para trás, deixei o quarto. Não era crueldade — era apenas minha regra. Nunca durmo com ninguém. Nunca me deixo vulnerável. Caminhei pelo corredor do hotel sentindo que a noite ainda não tinha acabado. E, de fato, não tinha. Eu ainda tinha um encontro marcado com alguém que não podia ser visto no salão. E era ali, nas sombras, que as coisas realmente aconteciam.
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