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1294 Words
Lucas não gostava da ideia. Desde o momento em que Isabela sugeriu — com uma leveza quase irritante — que poderiam começar o projeto na casa dela, algo dentro dele se contraiu. Ele preferia a biblioteca. Silêncio. Organização. Foco. Mas não. — “Vai ser mais confortável, Lucas. E eu tenho espaço, confia.” Ela tinha dito isso com um sorriso tão natural que ele nem teve tempo de recusar direito. E agora ali estava ele. Parado em frente a uma casa que parecia… grande demais. Lucas olhou uma última vez para o portão antes de tocar a campainha. Respirou fundo. É só um projeto, disse a si mesmo. Só um mês. Foco no objetivo. A campainha tocou. Segundos depois, o portão abriu. E ela apareceu. Isabela. Cabelo solto, levemente bagunçado, como se tivesse acabado de sair de um momento despreocupado. Vestia uma t-shirt larga e um short simples, mas ainda assim parecia… natural demais. Bonita demais. Lucas desviou o olhar quase imediatamente. — Você veio. — ela disse, com um sorriso fácil. — Marcámos. — respondeu ele, direto. Ela riu baixo, como se aquilo fosse… engraçado. — Relaxa, engenheiro. Você tá entrando numa casa, não numa missão militar. Lucas não respondeu. Entrou. --- Dentro do mundo dela A primeira coisa que ele notou foi o cheiro. Algo doce. Aconchegante. Diferente. Depois… o ambiente. A sala era ampla, organizada, mas cheia de vida. Quadros nas paredes — alguns claramente pintados à mão. Almofadas coloridas. Livros espalhados de forma… quase artística. Aquilo não era bagunça. Era… expressão. — Pode sentar — disse Isabela, jogando-se no sofá como se o mundo não tivesse peso algum. Lucas permaneceu de pé por um segundo. Observando. Analisando. — Podemos começar? — disse ele, ignorando completamente o ambiente. Isabela levantou uma sobrancelha. — Uau. Nem um “gostei da casa”, nem um “bom ambiente”… você é sempre assim? — Objetivo. — Rígido. — Organizado. — Chato. Lucas finalmente olhou para ela. — Focado. Silêncio. Um segundo. Dois. E então… Isabela riu. — Ok, isso vai ser divertido. --- O início do caos Eles se sentaram. Lucas abriu o caderno, já com anotações feitas. Organizadas. Detalhadas. Planeadas. — Eu já pensei numa estrutura para o projeto — começou ele, direto. — Uma instalação interativa baseada em sensores de movimento com resposta visual em tempo real. Isabela piscou. — …Você pensou nisso tudo sozinho? — Sim. — Ontem? — Sim. Ela o encarou por alguns segundos. Depois cruzou as pernas no sofá. — Certo… então basicamente você quer fazer um projeto sozinho e eu fico só… decorando? Lucas franziu o cenho. — Não foi isso que eu disse. — Foi exatamente isso que você disse, só que com palavras difíceis. — Eu estou a apresentar uma base. — Não. Você está a impor uma base. Silêncio. Lucas respirou fundo. Já começou m*l. — O prazo é curto — disse ele, controlado. — Não podemos perder tempo com ideias vagas. Isabela inclinou a cabeça. — Ideias vagas… tipo criatividade? — Tipo falta de estrutura. — Estrutura sem criatividade é só… chato. — Criatividade sem estrutura é inútil. O olhar dela mudou. Não era mais leve. Agora tinha… desafio. — Ok, engenheiro. Vamos esclarecer uma coisa. Eu não vou ser figurante no seu projeto. — E eu não vou comprometer a qualidade por falta de organização. — Você nem me deu chance. — Ainda não vi proposta. Ela levantou-se. Caminhou até uma mesa. Pegou um caderno. — Quer proposta? Então presta atenção. Ela abriu o caderno e virou na direção dele. Desenhos. Conceitos. Formas. — Uma instalação que reage ao toque humano, mas não só com luz… com emoção. Cores diferentes dependendo da intensidade, talvez som ambiente… algo que faça a pessoa sentir, não só ver. Lucas observou. Em silêncio. Mais atento do que queria demonstrar. — Isso exige sensores — disse ele. — Óbvio. — E programação. — Óbvio. — E estrutura. — Óbvio. Ela cruzou os braços. — Viu? Não sou inútil. Lucas fechou o caderno lentamente. — Não disse que era. — Pensou. — Pensei que você não levaria a sério. Ela se aproximou. Mais perto do que o necessário. — E agora? Lucas sustentou o olhar. — Ainda estou a avaliar. Ela soltou uma pequena risada. — Você é impossível. — E você é dispersa. — Eu sou criativa. — Ainda não provou consistência. Silêncio novamente. Mas dessa vez… diferente. Mais carregado. --- Interrupção inesperada — Isabela? A voz veio da cozinha. Uma mulher apareceu. Elegante. Postura firme. Olhar observador. — Ah, mãe! — disse Isabela. — Esse é o Lucas, meu parceiro do projeto. A mãe analisou Lucas com um olhar rápido, mas atento. — Prazer. Helena. — Lucas. Prazer. — Vocês já começaram? — Estamos… tentando — respondeu Isabela. Helena sorriu de leve. — Bom. Trabalhar em grupo ensina muito mais do que qualquer aula. Lucas assentiu. Mas Isabela apenas revirou os olhos discretamente. — Se precisarem de algo, estou na cozinha. Ela saiu. E o silêncio voltou. --- A tensão cresce — Sua mãe é professora? — perguntou Lucas. — Sim. Dá para perceber, né? — Sim. — E o seu pai? Lucas hesitou por um segundo. — Não está. Isabela percebeu. Mas não insistiu. — Ok… então — ela bateu palmas uma vez. — Vamos tentar fazer isso funcionar. Lucas assentiu. — Dividimos tarefas. — Não. Ele a olhou. — Não? — Trabalhamos juntos. Desde o início. — Isso atrasa. — Isso melhora. — Isso complica. — Isso equilibra. Lucas fechou os olhos por um segundo. Respirou fundo. — Uma tentativa. — Uma tentativa — repetiu ela. --- Primeira tentativa… falha Eles começaram. Mas nada fluía. Lucas queria precisão. Isabela queria liberdade. Ele corrigia. Ela contrariava. Ele estruturava. Ela quebrava. — Isso não faz sentido técnico — disse ele. — Nem tudo precisa ser técnico! — Isso é engenharia! — Isso é arte também! — Não assim. — Então como? — Com lógica. — E emoção? — Não é prioridade. Ela levantou-se novamente. Irritada. — Sério? Você ouve o que você fala? Lucas também se levantou. — Ouço. — Então você quer fazer um projeto frio. — Quero fazer um projeto eficiente. — Eu quero fazer algo que as pessoas sintam. — Eu quero ganhar. Silêncio. Pesado. Direto. Ela o encarou. — Então é só isso? — Sim. — Dinheiro? — Futuro. Aquilo… mudou o clima. Isabela ficou em silêncio por alguns segundos. Observando-o de verdade pela primeira vez. Não só como o cara sério. Mas como alguém… carregando algo. — Você é sempre assim? — perguntou ela, mais baixa. — Assim como? — Como se tudo fosse… sobrevivência. Lucas não respondeu imediatamente. — Para mim, é. Ela não sabia o que dizer. E isso… era raro. --- O fim do dia Depois disso, o trabalho não avançou muito. Mas algo mudou. Eles já não estavam apenas em lados opostos. Agora havia… curiosidade. Desconfortável. Mas real. Lucas guardou suas coisas. — Amanhã continuamos. — Na faculdade — disse ele. — Aqui é melhor. — Não. Ela sorriu. — Vamos negociar isso depois. Ele já estava indo embora. Quando ela disse: — Lucas. Ele parou. — Eu vou levar isso a sério. Ele olhou para ela. Por um segundo. — Espero que sim. E saiu. --- Pensamentos no caminho No caminho de volta, Lucas caminhava em silêncio. Ela é distraída. Mas… não é burra. E… tem ideias. Ele apertou o passo. Mas precisa de disciplina. Já Isabela, sentada no sofá, pegou o celular e colocou uma música qualquer — “As It Was” de Harry Styles começou a tocar baixo. Ela ficou olhando para o teto. — Ele é tão… complicado. Ela riu sozinha. — E irritante. Pausa. — …e interessante.
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