Lucas não gostava da ideia.
Desde o momento em que Isabela sugeriu — com uma leveza quase irritante — que poderiam começar o projeto na casa dela, algo dentro dele se contraiu.
Ele preferia a biblioteca. Silêncio. Organização. Foco.
Mas não.
— “Vai ser mais confortável, Lucas. E eu tenho espaço, confia.”
Ela tinha dito isso com um sorriso tão natural que ele nem teve tempo de recusar direito.
E agora ali estava ele.
Parado em frente a uma casa que parecia… grande demais.
Lucas olhou uma última vez para o portão antes de tocar a campainha. Respirou fundo.
É só um projeto, disse a si mesmo. Só um mês. Foco no objetivo.
A campainha tocou.
Segundos depois, o portão abriu.
E ela apareceu.
Isabela.
Cabelo solto, levemente bagunçado, como se tivesse acabado de sair de um momento despreocupado. Vestia uma t-shirt larga e um short simples, mas ainda assim parecia… natural demais.
Bonita demais.
Lucas desviou o olhar quase imediatamente.
— Você veio. — ela disse, com um sorriso fácil.
— Marcámos. — respondeu ele, direto.
Ela riu baixo, como se aquilo fosse… engraçado.
— Relaxa, engenheiro. Você tá entrando numa casa, não numa missão militar.
Lucas não respondeu.
Entrou.
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Dentro do mundo dela
A primeira coisa que ele notou foi o cheiro.
Algo doce. Aconchegante. Diferente.
Depois… o ambiente.
A sala era ampla, organizada, mas cheia de vida. Quadros nas paredes — alguns claramente pintados à mão. Almofadas coloridas. Livros espalhados de forma… quase artística.
Aquilo não era bagunça.
Era… expressão.
— Pode sentar — disse Isabela, jogando-se no sofá como se o mundo não tivesse peso algum.
Lucas permaneceu de pé por um segundo.
Observando.
Analisando.
— Podemos começar? — disse ele, ignorando completamente o ambiente.
Isabela levantou uma sobrancelha.
— Uau. Nem um “gostei da casa”, nem um “bom ambiente”… você é sempre assim?
— Objetivo.
— Rígido.
— Organizado.
— Chato.
Lucas finalmente olhou para ela.
— Focado.
Silêncio.
Um segundo.
Dois.
E então…
Isabela riu.
— Ok, isso vai ser divertido.
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O início do caos
Eles se sentaram.
Lucas abriu o caderno, já com anotações feitas.
Organizadas.
Detalhadas.
Planeadas.
— Eu já pensei numa estrutura para o projeto — começou ele, direto. — Uma instalação interativa baseada em sensores de movimento com resposta visual em tempo real.
Isabela piscou.
— …Você pensou nisso tudo sozinho?
— Sim.
— Ontem?
— Sim.
Ela o encarou por alguns segundos.
Depois cruzou as pernas no sofá.
— Certo… então basicamente você quer fazer um projeto sozinho e eu fico só… decorando?
Lucas franziu o cenho.
— Não foi isso que eu disse.
— Foi exatamente isso que você disse, só que com palavras difíceis.
— Eu estou a apresentar uma base.
— Não. Você está a impor uma base.
Silêncio.
Lucas respirou fundo.
Já começou m*l.
— O prazo é curto — disse ele, controlado. — Não podemos perder tempo com ideias vagas.
Isabela inclinou a cabeça.
— Ideias vagas… tipo criatividade?
— Tipo falta de estrutura.
— Estrutura sem criatividade é só… chato.
— Criatividade sem estrutura é inútil.
O olhar dela mudou.
Não era mais leve.
Agora tinha… desafio.
— Ok, engenheiro. Vamos esclarecer uma coisa. Eu não vou ser figurante no seu projeto.
— E eu não vou comprometer a qualidade por falta de organização.
— Você nem me deu chance.
— Ainda não vi proposta.
Ela levantou-se.
Caminhou até uma mesa.
Pegou um caderno.
— Quer proposta? Então presta atenção.
Ela abriu o caderno e virou na direção dele.
Desenhos.
Conceitos.
Formas.
— Uma instalação que reage ao toque humano, mas não só com luz… com emoção. Cores diferentes dependendo da intensidade, talvez som ambiente… algo que faça a pessoa sentir, não só ver.
Lucas observou.
Em silêncio.
Mais atento do que queria demonstrar.
— Isso exige sensores — disse ele.
— Óbvio.
— E programação.
— Óbvio.
— E estrutura.
— Óbvio.
Ela cruzou os braços.
— Viu? Não sou inútil.
Lucas fechou o caderno lentamente.
— Não disse que era.
— Pensou.
— Pensei que você não levaria a sério.
Ela se aproximou.
Mais perto do que o necessário.
— E agora?
Lucas sustentou o olhar.
— Ainda estou a avaliar.
Ela soltou uma pequena risada.
— Você é impossível.
— E você é dispersa.
— Eu sou criativa.
— Ainda não provou consistência.
Silêncio novamente.
Mas dessa vez…
diferente.
Mais carregado.
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Interrupção inesperada
— Isabela?
A voz veio da cozinha.
Uma mulher apareceu.
Elegante. Postura firme.
Olhar observador.
— Ah, mãe! — disse Isabela. — Esse é o Lucas, meu parceiro do projeto.
A mãe analisou Lucas com um olhar rápido, mas atento.
— Prazer. Helena.
— Lucas. Prazer.
— Vocês já começaram?
— Estamos… tentando — respondeu Isabela.
Helena sorriu de leve.
— Bom. Trabalhar em grupo ensina muito mais do que qualquer aula.
Lucas assentiu.
Mas Isabela apenas revirou os olhos discretamente.
— Se precisarem de algo, estou na cozinha.
Ela saiu.
E o silêncio voltou.
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A tensão cresce
— Sua mãe é professora? — perguntou Lucas.
— Sim. Dá para perceber, né?
— Sim.
— E o seu pai?
Lucas hesitou por um segundo.
— Não está.
Isabela percebeu.
Mas não insistiu.
— Ok… então — ela bateu palmas uma vez. — Vamos tentar fazer isso funcionar.
Lucas assentiu.
— Dividimos tarefas.
— Não.
Ele a olhou.
— Não?
— Trabalhamos juntos. Desde o início.
— Isso atrasa.
— Isso melhora.
— Isso complica.
— Isso equilibra.
Lucas fechou os olhos por um segundo.
Respirou fundo.
— Uma tentativa.
— Uma tentativa — repetiu ela.
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Primeira tentativa… falha
Eles começaram.
Mas nada fluía.
Lucas queria precisão.
Isabela queria liberdade.
Ele corrigia.
Ela contrariava.
Ele estruturava.
Ela quebrava.
— Isso não faz sentido técnico — disse ele.
— Nem tudo precisa ser técnico!
— Isso é engenharia!
— Isso é arte também!
— Não assim.
— Então como?
— Com lógica.
— E emoção?
— Não é prioridade.
Ela levantou-se novamente.
Irritada.
— Sério? Você ouve o que você fala?
Lucas também se levantou.
— Ouço.
— Então você quer fazer um projeto frio.
— Quero fazer um projeto eficiente.
— Eu quero fazer algo que as pessoas sintam.
— Eu quero ganhar.
Silêncio.
Pesado.
Direto.
Ela o encarou.
— Então é só isso?
— Sim.
— Dinheiro?
— Futuro.
Aquilo… mudou o clima.
Isabela ficou em silêncio por alguns segundos.
Observando-o de verdade pela primeira vez.
Não só como o cara sério.
Mas como alguém… carregando algo.
— Você é sempre assim? — perguntou ela, mais baixa.
— Assim como?
— Como se tudo fosse… sobrevivência.
Lucas não respondeu imediatamente.
— Para mim, é.
Ela não sabia o que dizer.
E isso… era raro.
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O fim do dia
Depois disso, o trabalho não avançou muito.
Mas algo mudou.
Eles já não estavam apenas em lados opostos.
Agora havia… curiosidade.
Desconfortável.
Mas real.
Lucas guardou suas coisas.
— Amanhã continuamos.
— Na faculdade — disse ele.
— Aqui é melhor.
— Não.
Ela sorriu.
— Vamos negociar isso depois.
Ele já estava indo embora.
Quando ela disse:
— Lucas.
Ele parou.
— Eu vou levar isso a sério.
Ele olhou para ela.
Por um segundo.
— Espero que sim.
E saiu.
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Pensamentos no caminho
No caminho de volta, Lucas caminhava em silêncio.
Ela é distraída.
Mas… não é burra.
E… tem ideias.
Ele apertou o passo.
Mas precisa de disciplina.
Já Isabela, sentada no sofá, pegou o celular e colocou uma música qualquer — “As It Was” de Harry Styles começou a tocar baixo.
Ela ficou olhando para o teto.
— Ele é tão… complicado.
Ela riu sozinha.
— E irritante.
Pausa.
— …e interessante.