Samael se levantou, ajeitando o terno, e saiu em direção à cozinha. Uma das empregadas, uma mulher idosa chamada Lúcia, estava ajustando os pratos na mesa de jantar. Assim que o viu, apressou-se em se curvar perante dele.
— O jantar será servido em dez minutos, senhor Vittore.
— Ótimo. — Ele respondeu secamente, mas sua atenção não estava na comida ou na disposição dos pratos. Estava na direção do corredor, onde Amara desapareceu.
Amara, por sua vez, estava no quarto que havia escolhido para si. Pelo menos, ela acreditava ter feito essa escolha. Era difícil dizer se algo naquela casa era realmente decidido por ela. Aquele quarto era espaçoso, decorado com móveis que pareciam pertencer a outro século, mas isso só reforçava o que ela sentia ali. Aquele lugar era sua cela disfarçada com luxo.
Ela escutou uma batida na porta. Não precisou adivinhar quem era.
— Amara. O jantar está pronto. — A voz de Samael estava grave, mas sem traços de agressividade.
— Não estou com fome. — Ela respondeu de forma curta.
— Isso não foi um convite. — Ele rebateu, e a frustração em sua voz ficou evidente.
Amara suspirou e com relutância, desceu para o salão de jantar. Quando entrou, Samael já estava sentado à cabeceira, com os talheres em posição impecável como se estivesse em um restaurante luxuoso. Ele eleva os olhos para ela com uma expressão neutra.
— Por favor, sente-se.
Ela hesitou, mas como ele pediu educadamente, acabou se acomodando na cadeira oposta a ele. Lucia serviu os pratos com delicadeza, mas o clima entre o novo casal era evidente e desconfortável. Durante os primeiros minutos, apenas o som dos talheres contra a porcelana quebrava o silêncio. Amara estava determinada a não iniciar uma conversa e se ele estivesse também seria melhor para ela.
Mas, claro, Samael nunca deixaria as coisas serem como ela quer.
— Lúcia é uma excelente cozinheira. — Ele comentou casualmente, sem tirar os olhos dela. — Espero que você aproveite.
— Eu aproveitaria mais se pudesse escolher o que comer. — Ela rebateu, sem levantar o olhar do prato.
— Você sempre tem uma resposta na ponta da língua, não é? — Ele sorriu de canto, como se estivesse se divertindo.
— E você sempre tem a última palavra. Não deve ser surpresa para ninguém.
Samael inclinou na cadeira, deixando o garfo de lado.
— Eu prefiro pensar que estou guiando as coisas da maneira certa.
— Guiando ou controlando? — Ela ergueu o olhar, finalmente encontrando os olhos dele.
O sorriso dele se desfez, substituído por uma expressão séria.
— Talvez você ainda não entenda, Amara, mas às vezes, o controle é necessário. Especialmente em um mundo onde qualquer fraqueza pode ser explorada.
Ela segurou o garfo com força e os nós dos seus dedos ficaram brancos.
— Controle não é sinônimo de respeito.
Samael riu baixo, mas o som não tinha humor.
— Respeito, docinho, é algo que se ganha. E você ainda tem muito a aprender sobre isso, posso te ensinar com prazer se pedir com jeitinho. — Samael falou com mälicia.
Foi nesse momento que Amara pegou a faca ao lado do prato e começou a passá-la lentamente sobre a superfície da mesa. O som metálico se espalhou pela sala, e Samael, pela primeira vez naquela noite, pareceu surpreso.
Ela olhou diretamente para ele.
— Isto é o nosso limite. E eu peço que respeite os limites que tracei entre nós, enquanto estou pedindo com jeitinho. — A ameaça foi clara.
A sala ficou em silêncio absoluto. Lucia, que ainda estava por perto, parou no meio do caminho, olhando de um para o outro com uma expressão de medo.
Samael, no entanto, não recuou, nem reagiu. Ele observou a faca nos dedos dela, depois estendeu os olhos para encontrá-los novamente.
— Limites... — Ele repetiu, como se estivesse provando a palavra. Um sorriso frio e calculista surgiu em seu rosto. — Muito bem, Amara. Você quer limites? Vamos ver até onde eles vão.
Ela largou a faca sobre a mesa com um som seco e se levantou em um movimento brusco.
— Não brinque comigo, Samael Vittore. Não sou como você!
Ele também se levantou, mas com uma calma que era ainda mais intimidadora.
— Não se esqueça, docinho. Você escolheu estar aqui quando aceitou ser minha esposa. Agora, você tem duas opções, aprenda a lidar ou ser engolida.
Ela o encarou, o coração estava acelerado, mas não deu o braço a torcer.
— Isso não significa que eu preciso andar seguindo suas regras.
– Veremos. — Ele murmurou, voltando a se sentar, como se a discussão tivesse terminado.
Amara saiu da sala sem olhar para trás, Samael permaneceu onde estava, o sorriso voltou lentamente ao rosto.
— Essa mulher... — Ele murmurou para si mesmo. — Vai ser minha ruína... — Ele segurava o garfo entre os dedos, girando-o distraidamente, perdido em pensamentos.
Lúcia, que estava recolhendo os pratos com delicadeza, respondeu baixo, como se falasse para si mesma.
— Ou sua salvação...
Samael levantou os olhos imediatamente, mas ela já havia dado as costas e estava saindo da sala, carregando os pratos. Um sorriso discreto e sábio enfeitava o rosto da mulher idosa, como se ela soubesse algo que ele não sabia.