Capítulo 5

1044 Words
Os papéis estavam sobre a mesa. Amara encarava o documento como se ele fosse um decreto de sua própria prisão. Samael, no entanto, parecia despreocupado e relaxado. Ele pegou uma caneta dourada do bolso interno do paletó e a colocou diante dela. — Assine, Amara. A voz dele era baixa, mas tão autoritária que deixaria qualquer pessoa comum intimidada. Amara, contudo, não era “qualquer pessoa”. Ela pegou a caneta, mas antes de mover um músculo, olhou diretamente para ele. — E o que exatamente estou assinando aqui? — Sua voz era doce, mas o desafio era evidente. — Um contrato de casamento. Nada além do que foi acordado entre nossas famílias. — Samael apoiou as mãos sobre a mesa, inclinando-se na direção dela. — Ou você acha que é algo mais complexo? Ela arqueou uma sobrancelha. — É sempre assim que você negocia? Faz as pessoas colaborarem sem responder? A expressão de Samael era impassível, mas os olhos, sombrios como um abismo, cintilaram com algo próximo a luxurioso. Ele não estava acostumado a ser questionado, muito menos por uma mulher que, em teoria, deveria ser sua subordinada naquele arranjo. — Amara, você sabe exatamente o que está fazendo aqui. Este casamento é uma união entre nossas famílias. — Sei disso, senhor Vittore — ela respondeu, cruzando os braços. — Mas você realmente acha que isso me impede de querer saber o que mais está escrito aqui? Ele se endireitou e uma risada baixa escapou de seus lábios. — Leia tudo, se quiser. Mas saiba de uma coisa, não importa o que está nesse papel. O que importa é que, no final, você vai assinar. Amara mordeu o lábio inferior, dividida entre a raiva e a determinação. Ela sabia que ele estava certo. Esse casamento não era uma escolha, era uma imposição. Seus olhos correram pelas cláusulas do contrato. Termos frios, impessoais, detalhando direitos, obrigações e até mesmo a divisão de bens em caso de separação. Era como se ela estivesse vendendo sua alma para uma corporação, ou para o próprio diabo... Ela suspirou, finalmente pegando a caneta. — Que seja. Mas saiba que isso não significa que você me controla. Ela assinou e o clima entre os convidados pareceu diminuir. Samael pegou o contrato, observou a assinatura e então olhou nos olhos dela. — Você não precisa se preocupar em ser controlada, Amara. Mas também não pense que você pode controlar a mim. Amara o encarou, sentindo a provocação implícita. Samael Vittore estava acostumado a dar as ordens, mas ela não permitiria que isso fosse fácil para ele. A noite caiu rapidamente. O jantar de comemoração do casamento estava cheio de convidados importantes, aliados, investidores, e, claro, os membros das famílias Delucci e Vittore. Amara estava sentada ao lado de Samael, sentindo cada olhar que se fixava neles. Era um jogo de aparências, e ambos sabiam disso. Ela sorriu educadamente para as pessoas ao redor, enquanto Samael mantinha sua postura fria e distante, respondendo apenas o necessário. Em determinado momento, o pai de Amara, ergueu uma taça de vinho. — Um brinde ao futuro da nossa união. Que este casamento traga prosperidade e estabilidade para nossas famílias. As taças se ergueram, e Amara forçou um sorriso enquanto brindava. Samael não esboçou emoção, mas ergueu a taça como esperado. — Então, Amara — uma voz feminina a chamou na mesa. Era Ariela, irmã de Samael, uma mulher de olhos astutos e sorriso doce. — Como se sente sendo a nova senhora Vittore? Amara inclinou a cabeça, devolvendo o sorriso com a mesma doçura. — Ah, é maravilhoso. Quem não adoraria ser casada com um homem tão... envolvente? Samael desviou o olhar de seu prato, encarando Amara. Havia algo naquele comentário que parecia mais perigoso do que qualquer ameaça aberta. — Ela já está pegando o jeito — murmurou Araciel, sentado próximo ao casal, enquanto tomava um gole de vinho. Ariela soltou uma risada. Amara, satisfeita com a pequena vitória, voltou sua atenção para o prato à sua frente. Quando o jantar finalmente acabou, Samael levou Amara até uma varanda isolada, longe dos olhares curiosos dos convidados. Ele fechou a porta atrás deles, para terem um pouco de privacidade. — O que foi aquilo na mesa? — ele perguntou baixo. — Aquilo? Ah, você quer dizer minha atuação impecável como sua futura esposa dedicada? — Ela se encostou na grade da varanda, cruzando os braços. Samael se aproximou, parando a poucos centímetros dela. — Você está brincando com fogo, Amara. E não acho que tenha ideia do que isso significa. Ela o encarou, desafiante como sempre. — Talvez eu tenha uma ideia, mas me diga, Samael. O que você faria se eu resolvesse botar fogo em tudo? Samael ficou em silêncio, com os olhos fixos nela. Amara sentiu o coração acelerar, mas não demonstrou qualquer mudança. Samael então deu um passo para trás, o rosto voltando à neutralidade. — Eu apagaria o incêndio. Ela riu baixinho, balançando a cabeça. — Isso seria previsível. Ele não respondeu, abriu as portas e saiu da varanda deixando-a para trás. Quando finalmente se retiraram para o quarto, o silêncio entre eles era quase sufocante. Amara não sabia o que esperar, mas estava determinada a se negar a qualquer tentativa dele. — Pode ficar com a cama, eu durmo no sofá — disse Samael, retirando o paletó e o pendurando com cuidado. — Que cavalheiro — respondeu ela, com um sarcástico visível. Samael não respondeu, mas novamente um pequeno sorriso surgiu em seus lábios enquanto ele desabotoava a camisa. Amara desviou o olhar, sentindo o rosto corar levemente. Ele se deitou no sofá, cruzando os braços atrás da cabeça, enquanto Amara ocupava a cama. O silêncio era quebrado apenas pelo som suave de respirações. Enquanto o cansaço a dominava, Amara pensava nas palavras de sua mãe antes do casamento. "Não importa o que ele apareça por fora, lembre-se de que Samael Vittore é um homem perigoso. Não o deixe te dominar como seu pai fez conosco." Mas, ao fechar os olhos, Amara concluiu que não era apenas ele o perigo. Ela também tinha suas armas. E este casamento, por mais que fosse uma imposição, poderia ser vencido. "Eu vou te vencer, Samael", pensou, antes de cair no sono.
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