Os papéis estavam sobre a mesa. Amara encarava o documento como se ele fosse um decreto de sua própria prisão. Samael, no entanto, parecia despreocupado e relaxado. Ele pegou uma caneta dourada do bolso interno do paletó e a colocou diante dela.
— Assine, Amara.
A voz dele era baixa, mas tão autoritária que deixaria qualquer pessoa comum intimidada. Amara, contudo, não era “qualquer pessoa”. Ela pegou a caneta, mas antes de mover um músculo, olhou diretamente para ele.
— E o que exatamente estou assinando aqui? — Sua voz era doce, mas o desafio era evidente.
— Um contrato de casamento. Nada além do que foi acordado entre nossas famílias. — Samael apoiou as mãos sobre a mesa, inclinando-se na direção dela. — Ou você acha que é algo mais complexo?
Ela arqueou uma sobrancelha.
— É sempre assim que você negocia? Faz as pessoas colaborarem sem responder?
A expressão de Samael era impassível, mas os olhos, sombrios como um abismo, cintilaram com algo próximo a luxurioso. Ele não estava acostumado a ser questionado, muito menos por uma mulher que, em teoria, deveria ser sua subordinada naquele arranjo.
— Amara, você sabe exatamente o que está fazendo aqui. Este casamento é uma união entre nossas famílias.
— Sei disso, senhor Vittore — ela respondeu, cruzando os braços. — Mas você realmente acha que isso me impede de querer saber o que mais está escrito aqui?
Ele se endireitou e uma risada baixa escapou de seus lábios.
— Leia tudo, se quiser. Mas saiba de uma coisa, não importa o que está nesse papel. O que importa é que, no final, você vai assinar.
Amara mordeu o lábio inferior, dividida entre a raiva e a determinação. Ela sabia que ele estava certo. Esse casamento não era uma escolha, era uma imposição. Seus olhos correram pelas cláusulas do contrato. Termos frios, impessoais, detalhando direitos, obrigações e até mesmo a divisão de bens em caso de separação. Era como se ela estivesse vendendo sua alma para uma corporação, ou para o próprio diabo...
Ela suspirou, finalmente pegando a caneta.
— Que seja. Mas saiba que isso não significa que você me controla.
Ela assinou e o clima entre os convidados pareceu diminuir. Samael pegou o contrato, observou a assinatura e então olhou nos olhos dela.
— Você não precisa se preocupar em ser controlada, Amara. Mas também não pense que você pode controlar a mim.
Amara o encarou, sentindo a provocação implícita. Samael Vittore estava acostumado a dar as ordens, mas ela não permitiria que isso fosse fácil para ele.
A noite caiu rapidamente. O jantar de comemoração do casamento estava cheio de convidados importantes, aliados, investidores, e, claro, os membros das famílias Delucci e Vittore.
Amara estava sentada ao lado de Samael, sentindo cada olhar que se fixava neles. Era um jogo de aparências, e ambos sabiam disso. Ela sorriu educadamente para as pessoas ao redor, enquanto Samael mantinha sua postura fria e distante, respondendo apenas o necessário.
Em determinado momento, o pai de Amara, ergueu uma taça de vinho.
— Um brinde ao futuro da nossa união. Que este casamento traga prosperidade e estabilidade para nossas famílias.
As taças se ergueram, e Amara forçou um sorriso enquanto brindava. Samael não esboçou emoção, mas ergueu a taça como esperado.
— Então, Amara — uma voz feminina a chamou na mesa. Era Ariela, irmã de Samael, uma mulher de olhos astutos e sorriso doce. — Como se sente sendo a nova senhora Vittore?
Amara inclinou a cabeça, devolvendo o sorriso com a mesma doçura.
— Ah, é maravilhoso. Quem não adoraria ser casada com um homem tão... envolvente?
Samael desviou o olhar de seu prato, encarando Amara. Havia algo naquele comentário que parecia mais perigoso do que qualquer ameaça aberta.
— Ela já está pegando o jeito — murmurou Araciel, sentado próximo ao casal, enquanto tomava um gole de vinho.
Ariela soltou uma risada. Amara, satisfeita com a pequena vitória, voltou sua atenção para o prato à sua frente.
Quando o jantar finalmente acabou, Samael levou Amara até uma varanda isolada, longe dos olhares curiosos dos convidados. Ele fechou a porta atrás deles, para terem um pouco de privacidade.
— O que foi aquilo na mesa? — ele perguntou baixo.
— Aquilo? Ah, você quer dizer minha atuação impecável como sua futura esposa dedicada? — Ela se encostou na grade da varanda, cruzando os braços.
Samael se aproximou, parando a poucos centímetros dela.
— Você está brincando com fogo, Amara. E não acho que tenha ideia do que isso significa.
Ela o encarou, desafiante como sempre.
— Talvez eu tenha uma ideia, mas me diga, Samael. O que você faria se eu resolvesse botar fogo em tudo?
Samael ficou em silêncio, com os olhos fixos nela. Amara sentiu o coração acelerar, mas não demonstrou qualquer mudança. Samael então deu um passo para trás, o rosto voltando à neutralidade.
— Eu apagaria o incêndio.
Ela riu baixinho, balançando a cabeça.
— Isso seria previsível.
Ele não respondeu, abriu as portas e saiu da varanda deixando-a para trás.
Quando finalmente se retiraram para o quarto, o silêncio entre eles era quase sufocante. Amara não sabia o que esperar, mas estava determinada a se negar a qualquer tentativa dele.
— Pode ficar com a cama, eu durmo no sofá — disse Samael, retirando o paletó e o pendurando com cuidado.
— Que cavalheiro — respondeu ela, com um sarcástico visível.
Samael não respondeu, mas novamente um pequeno sorriso surgiu em seus lábios enquanto ele desabotoava a camisa. Amara desviou o olhar, sentindo o rosto corar levemente.
Ele se deitou no sofá, cruzando os braços atrás da cabeça, enquanto Amara ocupava a cama. O silêncio era quebrado apenas pelo som suave de respirações.
Enquanto o cansaço a dominava, Amara pensava nas palavras de sua mãe antes do casamento.
"Não importa o que ele apareça por fora, lembre-se de que Samael Vittore é um homem perigoso. Não o deixe te dominar como seu pai fez conosco."
Mas, ao fechar os olhos, Amara concluiu que não era apenas ele o perigo. Ela também tinha suas armas. E este casamento, por mais que fosse uma imposição, poderia ser vencido.
"Eu vou te vencer, Samael", pensou, antes de cair no sono.