Gabriel
Chegamos à minha cabana já com a noite avançada. Passava das 21h, e a chuva ainda caía fina, como se quisesse nos acompanhar até ali. Estávamos encharcados, exaustos, e o frio começava a se infiltrar nos ossos. Precisávamos nos livrar daquelas roupas molhadas para não corrermos o risco de um resfriado. Ela permanecia calada desde o momento em que a coloquei no carro. O silêncio dela era pesado, quase palpável, como se cada respiração fosse um esforço para não desmoronar.
Saí primeiro e fui abrir a porta para ajudá-la a descer. — Você consegue sair? — perguntei, tentando soar calmo.
Ela apenas assentiu, ainda de cabeça baixa, os cabelos colados ao rosto pela água.
— Não tenha medo — disse em voz branda, sem querer que se sentisse ameaçada. — Vou conseguir algo para você se trocar. Se continuar com essa roupa molhada, pode adoecer.
Foi então que me olhou pela primeira vez desde que a resgatei. Mais uma vez, fui impactado por aqueles olhos cor de esmeralda. Eles expressavam dor, decepção, mágoa... mas também vida, determinação e resiliência. Era como se dentro deles houvesse uma batalha silenciosa, e eu não sabia qual lado venceria.
Nos encaramos por alguns segundos, e fiquei hipnotizado pela força que emanava deles.
— Eu agradeço por ter me ajudado, mas... não quero dar trabalho — sua voz era suave, carregada de dúvidas e talvez de medo.
Ela me deu a mão e se levantou da poltrona onde estava. Seguimos até o quarto, o único da cabana, onde a acomodei. Eu me instalaria em outro espaço.
O interior era simples, mas acolhedor: lençóis brancos e macios convidavam ao descanso, a lareira aquecia o ambiente e o mobiliário discreto trazia elegância. O silêncio predominante era quebrado apenas pela trilha sonora suave que tocava, criando uma atmosfera intimista e segura.
— Não se preocupe. Não está me dando trabalho algum. Venha... — estendi a mão em convite. — Vou te levar até a suíte para que possa tomar um banho quente e vestir algo seco.
Peguei uma camisa minha e um calção de dormir. Ela já havia entrado no banheiro. Ouvi o som da água do chuveiro misturado ao choro contido. O som me atravessou como uma lâmina. Deixei as roupas sobre a cama e fui até a cozinha preparar algo. Eu não havia comido nada desde o almoço, e tinha certeza de que ela também não.
Preparei chá com torradas e geleia, arrumei tudo numa bandeja e levei ao quarto. Ao entrar, encontrei-a deitada na cama espaçosa, já adormecida. Deixei a bandeja sobre a mesa e fiquei observando-a. Os cabelos molhados espalhavam-se pelo travesseiro, e havia lágrimas em seu rosto delicado.
Ela era linda. A sua pele clara parecia macia. Tive que conter o impulso de tocar o seu rosto. Seus lábios rosados lembravam um doce, e o desejo de prová-los era o mesmo que senti quando os vi pela primeira vez naquele bar. Mas, em vez do sorriso daquela noite, agora eu contemplava tristeza e melancolia.
Será que ainda estava com aquele homem? Será que ele era o motivo de tanta dor?
— Por que, Simon?... por quê... — murmurou, ainda dormindo.
Meu coração disparou ao ouvir aquele nome. Aproximei-me ao perceber que tinha um pesadelo. Toquei seu rosto e percebi que ardia em febre. Provavelmente resultado da chuva no mirante. Fiz compressas com um pano úmido, enquanto ela delirava, citava nomes e chorava. Sua tristeza era profunda, quase insuportável de assistir. Continuei cuidando dela e adormeci ali, ao seu lado.
A chuva fina persistia, desenhando linhas tortas no vidro da cabana. O silêncio era profundo, quebrado apenas pelo crepitar da lareira e pelo som distante do vento batendo nas árvores. Eu observava a mulher adormecida na cama, seu rosto ainda marcado pelas lágrimas, os cabelos ruivos espalhados pelo travesseiro. Havia algo nela que me inquietava — uma força oculta sob a fragilidade, uma história que parecia gritar por redenção.
Eu não sabia seu nome. Ela não sabia o meu. E, por ora, isso era tudo o que eu precisava. O anonimato era um abrigo, uma pausa para respirar sem o peso dos títulos, das expectativas, dos passados que nos assombravam. Eu havia aprendido, da forma mais c***l, que confiar era perigoso. Mas, ao vê-la ali, tão vulnerável e ao mesmo tempo tão determinada a sobreviver, senti algo diferente. Um desejo de proteger, de entender, de me permitir sentir.
Levantei-me devagar, tentando não fazer barulho. Preparei um chá quente, cortei algumas frutas e organizei tudo numa bandeja. Quando voltei ao quarto, ela já estava acordada, sentada na beirada da cama, abraçada ao próprio corpo como se tentasse se recompor. Seus olhos verdes encontraram os meus, e por um instante, o tempo pareceu parar.
— Trouxe algo para comer — disse, colocando a bandeja sobre a mesa. — Não é muito, mas vai ajudar a recuperar as forças.
Ela sorriu de leve, um sorriso tímido, quase desconfiado. Aproximou-se, pegou uma xícara e bebeu em silêncio. Eu me sentei na poltrona ao lado, observando cada gesto, cada suspiro. O clima era tenso, carregado de perguntas não feitas.
— Obrigada — murmurou, sem me olhar diretamente. — Eu... não sei como agradecer por ontem.
— Não precisa agradecer. Só fiz o que qualquer pessoa decente faria.
Ela riu, um som breve e amargo.
— Nem todos fariam. Nem todos são decentes.
O silêncio voltou a se instalar, pesado. Eu sabia que ela precisava falar, mas também sabia que não era hora de pressionar. O tempo era o melhor remédio para feridas abertas.
O fogo da lareira lançava sombras dançantes pelas paredes, como se quisesse guardar em segredo tudo o que acontecia ali. Ela permaneceu em silêncio, olhando para a xícara entre as mãos, enquanto eu a observava com a sensação de que estávamos diante de um limiar. Havia perguntas que precisavam ser feitas, verdades que precisavam ser ditas, mas ainda não era o momento. O que nos unia naquela noite não era o passado, nem o futuro, mas apenas a dor e o refúgio que encontramos um no outro. E eu sabia que a partir de agora, nada seria igual.