Despedi-me de Sebastian e vou para meu quarto. Meu coração está batendo lento. Minhas ideias mudam conforme fluem e isto está causando danos irreparáveis. Desatei o nó da gravata tentando conseguir trazer mais oxigênio aos pulmões comprimidos. Andei até a cama de casal podendo ver a troca de roupa moletom que havia escolhido usar após a festa.
Suspirei derrotado. Aceitando que as coisas seriam diferentes, que agora não poderei mudar. Meu pai se foi. Grande parte da culpa foi minha, deveria ter sido insistente. Lutado pelo o que é certo, Alexandre sempre foi fechado, um homem que prezava manter tradições.
O que me serve as emoções agora? Se não sobrou quase nada antes do meu pai partir. Imagine agora?
Com o peito doendo, os pulmões ardendo juntamente com os olhos, o nariz e o corpo fraco. Espasmos musculares, olhos embaçados e a mesma dor imensa do vazio. Nada de lágrimas. Nenhuma se quer! Quando mais se precisa, elas se vão.
— “Não chore. Homens não demonstram fraquezas.” — escutei sua voz em minha mente.
Peguei as roupas de cima da cama, indo direto para o chuveiro. Deixei as roupas no cabide.
— “Homens precisam fechar qualquer brecha." — retirei toda a roupa.
— “Ser enigmático, manter a postura." — peguei o sabão e entrei no chuveiro.
— “Nunca demonstrar medo, os sentimentos são de certa forma a nossa pior fraqueza."
Ensaboei todo o corpo.
— “Nunca sorria. Bobões não são levados a sério." — meu pai instruía quando era pequeno.
E para ser sincero, às vezes funciona. Porém, hoje eu sei o que meu próprio pai pretendia, me tornar o homem frio que sou. Desliguei o registro, sentindo o mesmo buraco n***o no peito. Só fui capaz de derramar lágrimas de ódio, saboreando a sensação que há muito tempo me privei de sentir.
Sai do boxe ainda molhado, enrolando a toalha na cintura. Terminei de me preparar para dormir assim que Ouço o barulho da escova de dentes ser guardada. Talvez, eu esteja no famoso automático que meus colegas dizem.
— “Amizade serve para estudar seu oponente. Não desperdice seu tempo com as pessoas.”
Chacoalhei a cabeça afastando o monólogo de etiquetas que viria a seguir. Depois do corpo totalmente seco, coloco as roupas e saio do banho. Pego meu celular no paletó que usei e vejo mensagens do meu segurança particular.
— Victor. Preciso que faça um favor para mim. — não querendo esperar o curso natural das coisas, já liguei adiantando.
— É só dizer senhor. — ouvi barulho de carros no fundo da chamada.
— Preciso que fique de olho na Violet ela já está com o mandado de prisão para a delegacia. Vá até lá e tente ir com uma das equipes até ela e depois tente lhe explicar a situação.
— Pode deixar. — desliguei a chamada ouvindo Victor praguejar algo.
Sentei na beirada da cama me sentindo exausto, mas sem sono algum. A mente não parava de girar em questões variáveis. Todas levando a minha garota de olhos azuis, refletindo sua alma pura e inocente. Ela não merecia isso.
Tensionei a mandíbula. Deixei toda a postura declinar para frente, apoiei os cotovelos sobre as coxas e a cabeça nas mãos. Respirei fundo tentando manter o controle. Olhei para o celular do meu lado e o peguei quase que instantaneamente discando um número.
— Alô? — a mulher atendeu a chamada. Respirei fundo e sem coragem desliguei.
Levantei pensando na melhor das hipóteses e talvez, andar poderia me trazer o cansaço mental para poder conseguir afundar a cabeça no travesseiro. Fui direto para a antiga adega de meu pai. Lembro da época em que ele havia gastado um bom dinheiro nela para reservar seus melhores vinhos e cachaças.
Um colecionador nato. Ela ficava no andar de baixo, em um porão onde eu morria de medo de entrar quando pequeno. Fui até o escritório dele e de lá peguei o elevador que descia direto para a adega. Por todo o caminho pensei em como conseguimos morar em uma casa tão grande, sem amigos, sem parentes próximos.
Parentes, só tem mesmo os gananciosos por parte de mãe. Um dia tentei entrar em contato com eles, porém, quase fui sequestrado aos meus 15 anos. Depois desse dia, nunca mais tive liberdade para ir a lugar algum. Chegando no porão, todo o pó e poeira começou a incomodar muito, entre um espirro e outro, consegui atravessar o corredor escuro de pedra.
Abri a porta automática usando minha digital, por trás dela cinco grandes prateleiras que iam do chão ao teto. O lugar também era de paredes de pedra que fazia um teto circular acima da minha cabeça, lâmpadas amarelas acenderam quando liguei o interruptor.
Cada garrafa estava em separadores de madeira das próprias, prateleiras juntamente da garrafa palha que mantinha o vinho com a temperatura ideal. Cada grupo de 50 garrafas havia uma plaquinha de madeira com o ano entalhado.
1862. O melhor vinho já feito do ano, curtido por algumas décadas. Segurei duas garrafas e retornei para o escritório. Peguei um canivete da gaveta e removi a rolha sentido alguma satisfação com o barulho e o breve odor suave. Sentei na poltrona virando a garrafa na boca.
Não sei quanto tempo passei bebendo quando notei os primeiros raios solares atravessar as cortinas e iluminar o meu rosto que estava sobre a madeira. Havia uma poça de vômito ao meu lado esquerdo e duas garrafas, se multiplicaram em nove. Fechei os olhos, sentindo uma forte dor de cabeça e enjoos, a garganta seca e um indivíduo há essas horas batendo incansavelmente na porta.
— Dalamon? — apoiei as mãos na mesa para erguer o corpo fraco.
— Era uma casa, toda tostada… — senti uma água borbulhante subir na garganta.
Virei para o lado e deixei cair. Um estrondo aconteceu e desejei que o teto caísse de uma vez na minha cabeça.
— p***a cara! — olhei em direção a porta arrombada vendo Victor entrar.
— Não tinha amigos, p***a nenhuma. — senti alguém me puxar.
— Wow! Cuidado aí super Homem. — fui arrastado até sentir alguém retirar minha camisa social.
Victor ia me ajudar com as calças, mas segurei sua mão.
— De segurança à babá. Preciso de aumento no salário senhor Costta. — ouvi umas risadas, ô debochado!
—Ainda sei limpar a p***a do meu r**o. — meu apoio se afastou e caí de cara no chão.
— Não se atrase. Precisamos estar na comitiva às oito em ponto. — Victor saiu se ao menos importar com minha cara no chão gelado.
— Espere aí VICTOR! QUEM MORREU?
A porta se fecha num baque, espremi os olhos com a dor de cabeça. Forcei o corpo a levantar e ir para o banheiro, em seguida tomei um bom banho.
***
O funeral de um homem admirado por toda Manhattan estava acontecendo. Grandes nomes, repórteres de grandes empresas e carros luxuosos, se não fosse um enterro eu diria que a própria Rainha Elizabeth estava visitando o país neste momento.
— Olha, não é o fim. — Victor tentou puxar algum assunto fúnebre apaziguador.
— Pode acreditar que é. — o cortei. Peguei um cigarro acendendo.
— Abre a janela pelo menos. — resmungou baixinho e abriu a janela do seu lado.
Victor está de colete a prova de balas assim como eu. Seu uniforme de cor escura com ambas as mangas das camisas manchadas, parecidas com os uniformes do exército.
— Você acreditaria se ele te dissesse que se arrependeu? — traguei o cigarro tentando jogar a fumaça para fora da janela.
— Bom, acredito que pessoas podem mudar. — sincero, respondeu ajeitando sua arma na cintura.
O carro andou pela cidade toda e depois a última parada: o cemitério. Meu coração tremeu no peito. Coloquei os óculos de sol enquanto Victor saiu do carro. O acompanhei sendo alvejado por flashes de câmeras fotográficas. O portão era detalhado, mesmo sendo enferrujado, bonito. Passamos por ele sendo espremido pelos outros seguranças evitando o mínimo de contato com repórteres.
Mais ao fundo, um grande salão onde ocorreria o funeral de duas horas e meia. Pedi para que adiantasse mais, pois os compromissos não poderiam parar. Aproximei da porta vendo alguns parentes de minha mãe presentes, alguns amigos íntimos e conhecidos da família. Aproximei do caixão e passei a mão sobre a tampa fechada. Suspirei sentindo todo o corpo cansado.
— Você saberia o que dizer, não é mesmo?