Fechei os olhos com força, sentindo a vergonha ganhar cor nas minhas bochechas. Qual é universo? Isso é alguma piada com a minha cara? Eu juro que nunca estraguei o sonho de nenhuma criança dizendo que o papai Noel não existe! Então, por que está fazendo isso comigo?
Eu realmente não sabia o que fazer naquele exato momento... Sair correndo e fingir que isso não passa de um sonho é uma boa solução? Talvez.
- Quem são vocês? - ouvi o Felipe perguntar mas não tive coragem de o encarar. Armário que dá acesso a Nárnia, onde está você quando eu preciso?
- Eu sou o Gui. - Guilherme é o primeiro a cantarolar e eu arregalo os olhos.
- Ah, não. - os encarei séria já sabendo o que viria à seguir. Eles não vão mesmo fazer isso aqui! Em um lugar público onde já havia algumas pessoas nos olhando. Céus, por que a porta parece tão distante nesse momento.
- E eu sou o Bruno.
- Vocês vão mesmo fazer isso? - perguntei vendo o Bruno e o Guilherme começarem a fazer uma dancinha.
- Eu sou a Lia!
- Vocês sabem que nós estamos em um lugar público, né? - perguntei olhando em volta notando algumas pessoas nos encararem. Por que eu não posso ter amigos normais?
- E meu nome é Luan!
De repente os meus quatro melhores amigos me olharam com uma cara esquisita e eu respirei fundo antes de cantarolar sem vontade alguma:
- Eu sou a Malu.
- E NÓS SOMOS... - eles se prepararam para cantar e eu senti o desespero se apossar do meu corpo -... SEUS AMIGUINHOS, OS BACKYARDIGANS! JUNTOS NÓS SOMOS OS BACKY...
- PAREM! - gritei chamando a atenção deles - Isso não é um musical da broadway! E está tudo bem aqui! O Felipe não é do m*l! Foi apenas um m*l entendido!
- Então ele é legal? - Bruno perguntou com um biquinho enquanto se balançava com os pés.
- Sim!
- E você não está correndo perigo? - Foi a vez do Luan perguntar com os olhos estreitos.
- Não.
- Ele não tentou te fazer nada? - Lia continuou o interrogatório.
- Não.
- Então, eu acho que não preciso ficar com essa arma na cabeça dele... - Guilherme abaixou a arma apontada para o Felipe, mas logo a ergueu de novo com os olhos estreitos - Ou preciso?
- Não! Não precisa! - exclamei tirando a arma da mão dele.
- Aff. - Guilherme revirou os olhos com a expressão entediada.
- Por que vocês estão aqui?
- A Lia disse que você estava correndo perigo. - Luan constatou o óbvio.
Todos nos viramos para a Lia que sorria fofamente para nós.
- Opa.
- Opa? Só isso que você tem a dizer? - perguntei cruzando os braços.
- Na verdade eu queria falar outra coisa. - ela fez um silêncio ficando séria - Paz. - ergueu dois dedos e saiu correndo para fora da cafeteria.
Encarei os três garotos que estavam virados para porta onde a Lia acabara de sair, mas logo se viraram para mim com sorrisos fofos e correram para fora também me deixando sozinha com o Felipe que parecia estar se divertindo com as atitudes dos meus amigos.
- Me desculpa por isso. - pedi passando a mão pelo rosto sentindo ele ainda um pouco quente - Juro que não entendo eles.
- Seus amigos são engraçados. - ele sorriu me encarando e eu me remexi na cadeira incomodada com o seu olhar sobre mim.
Droga! Por que ele tinha que ser tão intimidante?
- É, meio que isso.
- Então, por que você me adotou? - perguntou mudando totalmente de assunto enquanto se jogava para trás na cadeira e me olhava curioso.
Respirei fundo me preparando para contar para ele o real motivo de eu ter o adotado. Eu poderia inventar uma história qualquer para não parecer tão patética diante a esse deus grego que me deixa nervosa apenas por respirar, mas acho que mentir só vai me tornar ainda mais patética, porque eu sou do tipo que me atrapalho e eu mesma acabo me desmentindo por acidente.
- Meu ex namorado vai casar e me chamou para o casamento e como a maioria dos meus amigos são amigos dele, eu meio que tive que procurar um par no desespero. - despejei a verdade deixando meus ombros caírem.
- Vocês estão há quanto tempo separados?
- Alguns meses. - dei de ombros não querendo dizer exatamente quantos meses estávamos separados e vi o homem na minha frente arregalar os olhos surpreso.
- Vocês estão separados apenas alguns meses e ele já está noivo?
- Foi o que eu acabei de falar. - cruzei os braços com um bico nos lábios. Eu sei que isso é estranho! d***a, só Deus sabe o quanto eu surtei quando descobri que ele estava noivo.
- Então você era...? - ele foi parando de falar enquanto erguia sua mão até o topo da cabeça. Meus olhos arregalaram quando eu vi o símbolo que ele estava fazendo.
- Eu não sou corna! - gritei o que assustou ele e eu logo respirei fundo me recompondo - Eu não era corna, okay?
- Okay, mas isso é muito estranho. - ele deu de ombros desviando o olhar e eu respirei fundo.
- Você vai me ajudar, ou não? - perguntei estressada já com aquele assunto.
- Claro que vou, daqui para frente, eu sou Felipe Martins, seu namorado. - sorriu pegando minha mão e deixando um beijo carinhoso no topo dela me deixando totalmente sem graça.
Onde foi que eu fui me meter?
- Okay. - falei incerta tirando minha mão da dele devagar.
Não que eu não esteja gostando do toque dele, mas ver aquele sorriso sendo direcionada para mim, me deixava nervosa e o que eu menos quero é deixar minha mão suada sobre a dele, que eu orei para que ele não tenha percebido a tremida que ela deu quando ele beijou a mesma.
- Mas para isso dar certo, eu preciso saber mais sobre você. - ele anunciou batendo a ponta dos dedos na mesa fazendo um barulho um pouco irritante que me lembrava muito a vilã do desenho Coraline e o mundo secreto.
Dei de ombros enquanto olhava para a janela que havia quase ao nosso lado.
- Eu não sou lá uma pessoa interessante. - respondi entretida em observar as pessoas que andavam pela rua.
- Deve ter algo interessante em você, me conta como era sua relação com o... - ele parou de falar como se estivesse pensando - Como é o nome do seu falecido mesmo?
- Falecido? - O olhei assustada.
- Seu falecido namorado.
- Ele não morreu! - murmurei confusa.
- Mas vai casar, que é quase a mesma coisa. - Felipe deu de ombros com um sorriso brincalhão nos lábios.
- Não é não! Ele vai continuar vivo.
- E como é o nome dele? - Felipe perguntou apoiando o rosto em uma das mãos.
- Gabriel. - murmurei baixinho como se alguém pudesse escutar e vi o homem na minha frente arregalar os olhos.
- Gabriel Rodrigues? - ele perguntou surpreso.
Foi a minha vez de arregalar os olhos e o olhar surpresa... Ele conhece o Gabriel? Mas como?
- Você conhece ele?
- Eu não acredito nisso! Seu ex namorado é Gabriel Rodrigues? - ele perguntou rindo enquanto negava com a cabeça - O mundo é pequeno mesmo hein.
- Por que? De onde você conhece ele?
- É uma longa história. - ele deu de ombros com o olhar vago na mesa - E estranhamente peculiar.
Depois disso ele ficou divagando sozinho enquanto olhava a mesa.
- Eu ainda estou aqui. - falei chamando a sua atenção para o meu rosto.
- Ah é, desculpa. - ele riu encolhendo os ombros - Então, seu ex namorado se chama Gabriel e ele irá se casar daqui a muito pouco e...
- Como você sabe disso? - interrompi ele com as sobrancelhas franzidas.
- Isso não importa agora, o que importa é que ele te fez muito m*l não é? - perguntou me olhando com... pena? Ah, fala sério! Eu não estou tão m*l assim, okay?!
- Acho que sim. - resmunguei cruzando os braços.
- Então você irá se vingar dele! Nesse casamento, ele irá ver o mulherão que ele perdeu. - ele riu e desceu seu olhar pelo meu corpo - E coloca mulherão nisso.
Arregalei os olhos e abracei meu corpo o olhando com uma careta ofendida.
- Ei!
Ele abriu a boca para falar algo mas foi interrompido pelo toque do seu celular e... Espera! Isso é Spice Girls? Ele olhou para tela do celular e fez uma careta quando viu quem estava ligando para ele.
- Eu preciso ir. - Anunciou enquanto guardava o celular no bolso e se levantava da cadeira - Mas me manda mensagem nesse número. - ele pediu colocando um papel sobre a mesa.
- Mas... - murmurei confusa vendo ele caminhar apressadamente até a saida do café me deixando sozinha na mesa - Ótimo. - resmunguei levando a xícara até meus lábios mas bufei quando lembrei que ela estava vazia - Alguém, pelo amor de Deus, me traga mais café, por favor!
(...)
- Ele conhece o Gabriel? - Lia perguntou com os olhos arregalados deitada na minha cama enquanto eu vestia o meu pijama.
- Conhece. - exclamei vestindo minha camiseta de ursinhos.
- Mas de onde?
- Eu também não sei, ele não me disse, mas o estranho não foi só o fato dele conhecer o Gabriel, o mais estranho é ele saber a data do casamento dele. - divaguei prendendo meu cabelo em uma trança lateral.
- Vai ver o Felipe é um amigo do Gabriel de longa data.
- Não, isso é impossível, eu conheço todos os amigos dele. - lembrei me deitando ao seu lado na cama.
- Talvez seja um amigo recente. - Liara continuou seu raciocínio dando de ombros.
- É, talvez, mas eu não sei porque, mas eu tenho a impressão de que ele não é muito chegado no Gabriel. - murmurei me lembrando da expressão de cinismo que o Felipe fez quando eu mencionei o Rodrigues.
- Inimigos, talvez? - Lia perguntou sentando na cama.
- Tenho sérias dúvidas.
- Eu vou dormir. - ela anunciou se levantando da cama e me olhando com um sorriso zombeiro - Fique aqui com as suas paranóias te rondando.
- Grande amiga.
- Eu sou. - ela me mandou um beijo no ar e saiu do meu quarto fechando a porta.
Encarei o teto do meu quarto enquanto deixava minha mente vagar em várias teorias... Quem é Felipe Martins? Como ele conhece o Gabriel? E por que eu sinto que estou me metendo em uma grande confusão?