Bella
Hoje acordei com um excelente humor, fazer novas amizades me fez ver minha nova vida de um ângulo diferente. Ao chegar da escola, fico fascinada com o tamanho da casa. Um lindo jardim enfeita a entrada da casa com um grande quintal com uma grama-baixa toda verdinha, parece um sonho. Entro na sala e já vislumbro uma enorme tv e um confortável sofá, onde posso usar fazendo uma excelente noite de cinema com os meus irmãos. Como não enxerguei isso em todo esse tempo morando aqui? Pelo visto eu estava ocupada demais em colocar defeitos em meu padrasto, que aparentemente é uma pessoa legal, ele ama a minha mãe e faz todas as suas vontades, ele nunca me tratou m*l e vive tentando me agradar, mas eu estou sempre repelindo suas tentativas de aproximação. Ele está na cozinha com a minha mãe e ajuda ela a arrumar a mesa para o almoço enquanto a empregada termina o almoço.
— Minha filha, nem percebi que você chegou — ela fica contente ao me ver — toma um banho que o almoço está quase pronto.
— Tudo bem mãe! — dou um sorriso e vou para o meu quarto, que aparentemente é o único cômodo da casa que eu parecia enxergar até o momento.
Tomei um banho e diferente dos outros dias eu desci e fui para a mesa almoçar com a minha família, surpreendendo a todos. O sorriso da minha mãe me fez ver o quanto eu fui i****a em querer atrapalhar a felicidade dela.
E assim os dias foram passando de uma forma mais leve. Minha família está mais uma vez unida, passo as horas vagas rindo com os meus irmãos. O Bernardo e a Samantha voltaram a me incluir nas brincadeiras deles, na verdade agora eu estou dando a******a. Aprendi a lidar com a ausência do meu pai, e parei de ver o César como uma pessoa que quer roubar o lugar dele e aprendi a gostar do meu padrasto.
A escola passou a ser um dos meus lugares favoritos, a Melissa ser da minha sala me ajudou a me entrosar com a turma. Até passei a gostar do Rafinha que hoje tenho como meu melhor amigo, com ele a diversão é garantida, pois sempre tem uma forma nova de nos fazer rir.
(...)
Hoje, estou aqui no meu lugar favorito, uma pedra bem alta, de onde tenho a vista de todo o lugar onde moro, inclusive, a praça principal. Daqui vejo pessoas conhecidas terminando os últimos detalhes da decoração da festa junina que acontecerá mais tarde. Olho o horizonte, como a vista é perfeita. O céu está com algumas nuvens e o sol está ameno, sinto a brisa do vento bater em meu rosto balançando meu cabelo que está solto. Respiro fundo me permitindo sentir o cheiro agradável da natureza em silêncio, até escutar a Milly gritar o meu nome.
— Sua maluca, eu sabia que ia te encontrar aqui! — ela grita já subindo pela trilha.
— Merd@ Milly, você me assustou! — reclamo brava.
— Vamos nos arrumar, daqui a pouco começa a festa e você está aí no mundo da lua!
— Que festa garota? — perguntei querendo saber.
— Viu só como está com a cabeça na lua! — ela põe as mãos na cintura — A festa junina da praça.
— Caramba! Depois a maluca sou eu, ainda são 15:00 horas da tarde e você querendo se arrumar para uma festa que será à noite — vou descendo e reclamando.
— Estou em dúvida, não sei que roupa colocar e quero a sua ajuda. — Ela faz cara de cachorro abandonado.
— Vai pelada, chamará bastante atenção — reviro os olhos e ela sorri.
— É sério amiga, preciso estar linda. — ela implora.
— Você está sempre linda, não sei porque tanta insegurança assim só por conta de uma festa de rua.
— Hoje é sexta-feira treze, dia do azar! Vai que acontece algum imprevisto — ela faz o sinal da cruz.
— E você acredita nisso? — olho para ela sem acreditar.
— É melhor prevenir, do que remediar.
— Te ajudo a escolher a roupa, mas primeiro quero tomar açaí! — dou um sorriso sapeca.
— Desde quando você se tornou fã de açaí? — ela franze a testa — não vai me dizer que ainda está de olho naquele Rodrigo?
— Estou de olho no açaí do Mega Lanche, que é uma delícia — escondo minha vontade de ver o Rodrigo que tem sido constante.
— Você não me engana, Bella! Já percebi que quando ele não está lá você fica igual uma b***a procurando ele.
— Você está vendo coisa onde não tem! — me irrito.
— Amiga, ele deve ser chato igual a Estela! — ela insiste — dificilmente vejo ele com amigos.
— Talvez ele seja tímido — o defendo — ou estudioso.
— Ok, então vamos comprar o que você tanto deseja! — Milly é irônica.
— O Rodrigo se encontra à venda? — debocho e ela revira os olhos.
Na verdade, o Rodrigo é o motivo da minha paixão repentina por açaí. As únicas coisas que sei sobre ele, é que tem três irmãs (Mirella, Maria e Estela), elas não sabem, mas um dia serão minhas cunhadas. E que a mãe dele tem uma lanchonete bem descolada e super movimentada.
O Rodrigo pega o mesmo ônibus escolar que eu para ir à escola, está sempre com um livro na mão lendo e desce dois pontos antes que eu. Nunca tive coragem de falar com ele, mas vira e mexe percebo que ele está me olhando. E quando nossos olhares se encontram ele fica corado. Uma vez fiquei olhando para ele depois que ele desceu, e ele abriu um sorriso tímido para mim, infelizmente o ônibus andou em seguida e não pude retribuir o sorriso.
Cheguei na lanchonete, mas o azar resolveu me atingir, o Rodrigo não está aqui como das outras vezes. Uma garçonete nos atendeu e enquanto eu aguardava meu pedido, vi a mãe dele conversando com o gerente, que anotava algumas coisas.
— Acho que hoje terá que se contentar em ver apenas a sogrinha. — Milly implica.
— i****a! — mostro a língua pra ela.
O número do meu pedido aparece no pequeno visor e vou até a atendente e pego meu copo e a Milly o dela.
Vou em direção a saída com raiva por gastar meu dinheiro e não ter visto quem eu queria e a Milly ainda fica debochando.
Saio rápido e me esbarro em alguém, derrubando metade do açaí em sua roupa. Sinto um cheiro de perfume maravilhoso, levanto meu olhar lentamente e ao conhecer aquele corpo, fico pálida e perdida em seus olhos azuis...
— Me desculpa, eu não vi você entrando. — Minha voz sai baixa.
— Caramba! Me sujou todo! — ele saiu do mesmo transe que eu estava, e começou a se limpar.
— Você deveria olhar para onde anda, garota! — Estela reclama histérica.
— Não é pra tanto Estela — ele fala paciente com a irmã.
— Claro que é, isso mancha! Vem aqui comigo — ela arrasta o irmão para a cozinha da lanchonete.
Saio chorando com ódio por ir comer esse bendito açaí. Quem ela pensa que é para falar assim comigo? i****a!
— Aquela i*****l! — jogo o açaí longe.
— Calma Bella, o açaí não tem culpa! — Milly anda rápido para me alcançar.
— Muda essa cara, esquece esse garoto. Eu já te disse que ele é um seboso igual a irmã. Agora você acredita em mim? — ela coloca uma colher de açaí na boca.
— Tchau, Milly! — apresso os passos.
— Ei! Espera, você disse que ia me ajudar com a minha roupa! — ela tenta me alcançar.
— Você disse certo, eu ia, não vou mais. — ando o mais rápido que posso, em direção a minha casa.
— Vou te m***r, Isabella! — ela grita desistindo de me alcançar.
— Também te amo, Mi! — respondo com um grito — Te encontro na festa. — digo agora correndo.
(...)
Chegando em casa, resolvi não ir para a festa. Depois do mico que paguei derrubando açaí no Rodrigo, o melhor é me recolher em minha insignificância.
Fiquei o resto da tarde jogada na cama olhando para o nada, pensando no porquê de eu ser tão desastrada. O destino também gosta de rir da minha cara, com tanta gente para eu derrubar açaí, tinha que ser justo no menino que venho paquerando.
Vou até à cozinha comer algo, pois minha barriga não para de roncar. Preparei um delicioso misto quente e combinei com o suco de manga que sobrou do almoço.
Depois de tudo limpo vou para o meu quarto para descansar. Quando estou quase cochilando, o Bernardo liga o som alto em seu quarto, tornando impossível de alguém dormir. Levanto da cama e vou para o quarto do meu irmão disposta a armar o maior barraco, mas ao chegar lá encontro a Samantha na maior animação dançando na cama e minha mãe batendo palmas junto com o Bê na maior animação.
— Vem Bella, vamos dançar — minha mãe me puxa.
— Não mãe, eu estava tentando dormir um pouco — o Bê finge não me escutar e joga um travesseiro em mim.
— A regra é simples, quem não dançar leva travesseirada! — ele aumenta o som.
A Samy copia o meu irmão e me joga a almofada, e eu retribuo. Dessa vez é minha mãe que me joga, não me dando outra alternativa a não ser dançar ao som da música. No fim me entreguei ao momento com a minha família, até estarmos os quatro exaustos e alegres por estarmos voltando a ser a família unida de antes.
— Esse é o momento que o papai faria cosquinha na gente — a Samy lamenta com os olhos marejados.
— É cosquinha que você quer pirralha? — Bernardo começa a fazer cócegas em minha irmã.
— Ei, filha! Nada de lágrimas — minha mãe percebe que vou chorar e me abraça — Foi tão bom esse momento com vocês não quero que termine em choro.
— Minha mãe tem razão, nosso pai era um homem alegre e não gostaria de ver vocês duas choramingando pelos cantos — o Bê apertou o meu nariz — Vamos para a festa Bella?
— Não estou muito afim.
— Escolhe, festa de rua ou sair comigo e a sua irmã? — minha mãe diz antes de sair do quarto.
— Melhor me acompanhar para a festa — o Bê sorri.
— Melhor ir com as minhas amigas para a festa, seus amigos conseguem ser mais chatos que a minha mãe e a Samy no shopping. — Minha irmã mais nova me dá língua.
— Posso me juntar a você e suas amigas — meu irmão sugere e encaro ele sem entender seu interesse repentino em minhas amigas — Que foi? Só quero ficar com você.
— Se eu fosse você não confiava nele, bem vi ele olhando esses dias para a … — o Bê tampa a boca da Samy.
— Se falar não te levo à praia mais depois da escola.
— Então vocês andam indo à praia escondidos? — ponho a mão na boca fingindo surpresa — Agora tenho um trunfo contra vocês. — pisco o olho e saio do quarto.
(...)
Me arrumo, só que continuo sem clima para a festa. Como minha casa é em frente a praça o som parece estar ligado aqui dentro. Tenho a ideia de ir para a pedra, de lá tenho visão privilegiada da praça e posso curtir a festa ao meu modo. Subo pela trilha que está deserta, mesmo com as luzes o caminho continua escuro, mas não tenho medo pois o condomínio é seguro. O máximo que pode aparecer por aqui é um mico ou uma cobra. Ao chegar no meu lugar favorito, fico observando as pessoas. Tem gente dançando, bebendo, casal se beijando, outros paquerando... Logo avisto minhas amigas dançando felizes, era para eu estar com elas agora, porque sou tão estranha? Distraio-me ouvindo a música e cantarolando enquanto curto a vista, a lua está maravilhosa. Sinto uma mão pousar em cima da minha, uma tensão corre em meu corpo com o toque, meu coração quase sai pela boca e sinto medo.
Primeiro olho a mão branca e masculina, depois olho para o dono da mão e fico sem palavras. O cabelo n***o caído sobre os olhos azuis que demonstram uma timidez que me encanta. Sinto um frio na barriga, minha pele se arrepia e fico sem reação. Desvio meu olhar e fico como uma garota boba sem saber o que falar. Penso em tirar minha mão, mas ele começa a acariciar meus dedos de leve e eu gosto disso. Respiro o aroma de seu perfume, o mesmo dos outros dias.
— Oi! — sua voz baixa e grave me faz voltar o olhar para ele que está com um sorriso tímido no rosto.
— Oi! — mantenho a compostura ao lembrar de mais cedo, tiro minha mão tentando acabar com o clima.
— Pensei que só eu gostasse desse lugar. — Ele diz.
— Já viu que não. — Sou seca.
— Desculpa por mais cedo, a Estela às vezes não tem papas na língua e acaba sendo grossa, mas eu briguei com ela depois.
— Não tem problema, não precisa você brigar com a sua irmã por conta de uma estranha.
— Na verdade, não te vejo como estranha — sinto que ele está me olhando — você é familiar para mim.
— Não diga besteiras, nunca trocamos mais que uma palavra — digo olhando para a festa rolando lá embaixo.
— Mas já trocamos vários olhares — agora ele que olha para frente enquanto olho para ele — é estranho o que sinto quando te vejo, parece que estou hipnotizado.
— Eu vou descer, minhas amigas estão me esperando. — tento fugir, pois não sei o que dizer, meu coração está pulando de uma forma que nunca o vi pular.
— Fica Bella, por favor? — nos olhamos e eu fico, até porque minhas pernas não me respondem, sinto o coração querendo sair pela boca.
— Como você sabe o meu nome? — pergunto a única coisa que me vem a mente.
— Sei muito sobre você — ele sorri de lado e põe a mão no meu rosto — Só não posso levar em consideração o que a minha irmã fala.
— Você deve saber a irmã que tem — reviro os olhos.
— Ela é meio mimada as vezes, mas é uma boa pessoa. — ele sorri.
— Não quero falar da sua irmã — sou sincera.
— Juro que eu também não — ele sorri.
— Sobre o que quer falar, então? — tento dialogar.
— Você é linda — ele diz ao me encarar por um tempo.
Fico presa em seus olhos azuis, minha mão começa a suar. Nosso rosto está próximo, sua respiração e o cheiro bom do seu hálito me deixa presa. Fecho os olhos automaticamente e me entrego ao calor do momento. O Rodrigo aproxima seus lábios dos meus e me beija, um beijo suave e calmo do jeito que eu sempre sonhei beijar alguém. A princípio fiquei nervosa com a experiência do meu primeiro beijo, mas fui seguindo ele e tudo se encaixou perfeitamente. Ele põe seu braço em minhas costas e me encosto nele sentindo a quentura de seu corpo. Com a outra mão ele segura o meu rosto e me beija novamente. Ficamos ali abraçados por um tempo e eu esqueci do mundo, parece que só existe eu e o Rodrigo.
— O seu beijo é tão bom — ele diz e eu morro de vergonha, se ele soubesse que eu só tenho dez minutos de experiência.
— O seu também, Rodrigo — digo ficando corada.
— Como você sabe o meu nome? — ele sorri e beija meu rosto.
— Sei de muita coisa sobre você — devolvo a resposta dele, rimos e ele sela nossos lábios em mais um beijo.
— Sabia que você estava aqui! — Milly nos interrompe e fica muda ao ver que o Ro está comigo e ele me solta do seu abraço.
— Nós só não imaginávamos que você estaria tão bem acompanhada. — Yasmin fala e catuca a Milly e as duas riem.
— Oi, meninas. — respondo sem jeito.
— Vai lá com elas, eu também preciso encontrar os meus amigos, que devem estar me procurando — ele me dá um beijo no rosto e se levanta — você está com o celular.
— Sim — respondo sem entender.
— Me empresta? — ele estende a mão e entrego meu celular em suas mão, ele disca um número e em menos de um minuto o celular dele toca — Agora tenho o seu número e você o meu, depois nos falamos.
Vejo ele descer ainda sem acreditar em tudo que aconteceu. Eu dei o meu primeiro beijo no menino mais lindo e menos acessível segundo as minhas amigas.
— Mato vocês! — digo com a mão no pescoço das duas.
— Sua vaca porque não nos contou que estava com ele? — a Yasmin comemora.
— Porque eu não sabia que ia encontrar com ele, o Rodrigo me beijou! — digo dando pulinhos.
— Ahhh! Conta tudo! — as duas gritam!
Após contar mil vezes, detalhe por detalhe, elas ficaram satisfeitas e descemos para festa. Estou tão feliz que senti vontade de dançar com as minhas amigas. Senti alguém me olhando no meio da multidão de pessoas, é o Rodrigo, ele sorri e eu o retribuo sem parar de dançar. Modéstia à parte, danço muito bem e o Ro não tira os olhos de mim, depois perdi ele de vista, meu celular vibrou no meu bolso e tinha uma mensagem de texto dele.
Mensagem on
Rô❤
Boa noite minha Bella! vim para casa dormir, sonharei com os seus beijos, na esperança de tê-los novamente.
Boa noite Rô, sonhe hoje, pois amanhã quero novamente essa realidade.
Mensagem off
As meninas pulam ao ler a mensagem, me abraçam e comemoramos juntas. Eu sou a única do grupo que ainda não tinha beijado, a Milly e a Talita são mais velhas e a Yasmim e a Melissa mais atiradas. Agora posso dizer que sei o que é um beijo de verdade.