Bella
"Em uma terra muito distante, vive uma princesa muito linda, o conto mais lindo é o dela. Seus dias são perfeitos, sua família a mais unida e seu castelo o mais belo. Seu maior prazer é passar o tempo no jardim brincando com seus irmãos e seus pais, o sorriso está sempre estampado no rosto da família real. Até que um dia um malfeitor decide sair de sua caverna embriagado. Sem pensar no próximo pega seu automóvel e atropela o rei, deixando três filhos órfãos e uma rainha viúva e desolada…"
— Na época da monarquia não existia automóvel. — o garoto mais chato da escola grita no fundo da sala de aula.
— O conto é meu e coloco o que eu bem entender. — retruco.
— Silêncio! Rafael, ainda não é sua vez de falar. — a professora de literatura se pronuncia.
— Coloca o vilão matando a todos e acaba logo com essa história chata. — uma menina i****a impecavelmente arrumada e com unhas enormes, debocha — O rei deveria ser um insuportável, por isso foi morto.
— Sua fútil, a única insuportável aqui é você, com esse seu ar de arrogância! — altero a minha voz, quem ela pensa que é para falar assim do meu pai, na verdade, a senhora futilidade não tem como adivinhar que coloquei o desastre da minha família no conto que a professora pediu para inventar. Porém, não diminui minha raiva, em um ato de fúria, arremessei meu caderno em minha colega de classe.
— Isabella! — a professora se levanta — Aqui nesse colégio é proibido qualquer ato de violência!
— Ela chamou meu pai de insuportável! — grito com a professora.
— Não, ela se referiu ao seu conto e com certeza eu vou chamar a atenção dela. — me responde com firmeza.
— O rei do conto é o meu pai, que morreu de uma forma trágica. — meus olhos marejam.
— Sinto muito, mas não tinha como a Estela saber. — a turma fica em silêncio.
— Agora sabe... — saio da sala de aula, não quero chorar na frente desses idiotas.
Vou para o ginásio, me sento na
arquibancada e começo a respirar e inspirar para controlar minha ira. Fecho meus olhos e quando estou relaxada sinto uma bola de basquete bater em minha testa.
— Ai! — reclamo enquanto o garoto engraçadinho da sala de aula ri me olhando — o que você quer agora?
— Pedir desculpas, não foi legal ter implicado com você sem antes conhecer suas fraquezas.
— Até para se desculpar você consegue ser i****a! — reviro os olhos — e para sua informação não sou fraca!
— Mas é chata! — ele sorri — sabe jogar basquete pelo menos?
— Sei, mas não vou jogar com você.
— Vai sim! Ou vai assumir que não sabe jogar — ele joga a bola de novo, mas dessa vez agarro e miro na cesta, e acerto de cagada, mesmo estando de longe.
— Uau! Certeza que isso foi cagada — o menino moreno de olhos azuis, fica de boca aberta e quase cai ao ir pegar a bola — Que garota sortuda!
—Tenho que concordar com você — não consigo conter o riso ele tem uma expressão muito engraçada ao tropeçar.
— Olha ela sabe sorrir! — ele debocha — Você está rindo de mim ou para mim?
— De você! — continuei rindo e ele jogou a bola novamente em mim e dessa vez joguei nele.
Quando percebi, estava na quadra jogando com ele, que descobri que é tão r**m de bola quanto eu. No final ouvimos uma voz de uma mulher, ele me puxou pelo braço e me mandou correr.
— Essa é a diretora, se formos pegos estamos lascados.
— E o que vamos fazer? Para a sala de aula eu não volto — cruzo os braços.
— Sabe pular?
— Pular o que? — pergunto sem entender.
— O muro, é óbvio! — ele entrelaça as mãos e a abaixa — se apoia aqui e pula.
— Eu não vou pular o muro da escola, você está louco? — reclamo.
— Prefere ir para a secretaria por m***r aula?
— Eu não matei aula! — me defendo.
— Eu tenho cara de professor de educação física? Não, então sim! Estamos matando aula. — sou obrigada a concordar com ele.
Concordo com ele e começamos a nossa fuga. Me apoio em seus ombros e coloco o pé em suas mãos para subir no muro.
— Osso pesa hein, Bella! — ele reclama enquanto eu escalo o muro.
— Olha a i********e, para você é Isabella! — digo ofegante com o esforço.
— Pode me chamar de Rafinha, sou íntimo de todos. — ele diz rindo da própria piada.
— Onde vocês pensam que estão indo? — uma voz feminina reverbera e o Rafinha me solta, me fazendo cair por cima dele.
— Ai c@cete! — exclamo ao cair de b***a no chão.
— Os dois já pra detenção! — a mulher diz com voz estridente.
— Ei, dona Solange. Juro que temos uma explicação pra isso! — Rafinha diz rindo de nervoso.
— Nada de desculpas Rafael, dessa vez não vou cair na sua conversa! E chamarei os seus responsáveis. — sem saída nós a seguimos.
Ficamos um tempo aguardando na sala de detenção por nossos responsáveis.
— Isso é tudo culpa sua, seu pivete! — digo irritada.
— Culpa minha? Você que não quis voltar para a sala.
— Rafael, minha avó vai te m***r! — uma menina branca de cabelos negros e olhos cor de mel briga com ele — Ela já está a caminho.
— Mata nada, você sabe que sempre contorno a história.
— Quem se ferrou dessa vez fui eu, primeiro mês na escola e já entro em enrascada, como se as coisas já não estivessem difíceis lá em casa. — resmungo em voz alta.
— Você é a menina nova, sinto muito pela idiotice da Estela, aquela menina é uma insuportável — ela diz revirando os olhos — me chamo Melissa, prazer.
— Prazer Isabella, mas pode me chamar de Bella.
— Ela pode te chamar de Bella? Eu que matei aula pra ficar jogando basquete contigo não posso!
— Desde quando você joga basquete, Rafinha? — ela ri.
— Me respeita ou te coloco de castigo! — ele ironiza.
— Vai pensar em uma desculpa porque minha avó está chegando, titio. — ela diz em tom de deboche.
— Tio? — pergunto sem entender.
— Esse i****a é irmão da minha mãe, mas ele é gente boa! Mesmo tendo o cérebro minúsculo. — rimos.
— O que você aprontou agora Rafael? — uma loira, jovem ao ponto de não parecer ser mãe dele,começa o sermão.
— Ah mãe, a senhora sabe que não suporto injustiça — ele faz cara de cachorro abandonado — uma menina teve a coragem de debochar do pai morto da minha nova amiga, ela saiu chorando da sala e eu não tive outra alternativa a não ser ajudá-la.
— Isso é um absurdo! — a mulher loira começa — isso é verdade Melissa?
— Essa parte sim, vó.
— Bom dia Clara, por favor venha comigo — a diretora chama a mãe do pivete, que só parece ser sua mãe por conta do par de olhos azuis.
— De onde você tirou a ideia de dizer que eu saí da sala de aula chorando? — fuzilo o i****a com os olhos.
— Acho melhor você chorar de verdade, pois acho que é sua mãe que está vindo ali, caraca ela é a sua xerox. Espero que não seja chata também.
— i****a! — olho a minha mãe entrar na secretaria e a coordenadora direciona ela até a sala da diretora, ela me passa um olhar de decepção e entra.
— Sua mãe parece brava. — Rafinha diz, mas ao perceber meu silêncio para de me irritar.
— Vou voltar para a sala, já basta vocês dois em encrenca. — Melissa se despede — Espero que tudo fique bem. Adorei conhecer você Bella, pode contar com a minha amizade, nem todos nessa escola são como a Estela, amanhã te apresento meus amigos.
— Obrigada.
(...)
Ao chegar da escola me tranco em meu quarto, isso já virou costume. Me sinto deslocada nessa casa, está sendo difícil me adaptar a essa nova realidade.
Há dois anos minha mãe nos comunicou que começou a se relacionar com um homem. Meses depois meus irmãos estavam adorando a ideia de ter alguém ocupando o lugar do meu pai, como pode isso? Para completar, há dois meses minha mãe decidiu vir morar com o tal cara, que mora em outra cidade. E cá estou eu, aos quinze anos tendo que me readaptar a uma nova escola com um bando de adolescentes mimados, uma cidade diferente e a uma casa que está longe de ser o meu lar. É muita informação para processar. O César parece ser a melhor pessoa do mundo, mas sei que só nos trata bem para conquistar a minha mãe. Ninguém consegue ser tão gentil o tempo todo.
Saio dos meus devaneios com uma batida na porta. Abro a porta e dou de cara com minha mãe com uma expressão de decepção que parte meu coração.
— Precisamos conversar, filha. — abro espaço e nos sentamos na cama.
— Mamãe, se for sobre mais cedo… — começo a me desculpar, mas sou interrompida pela minha mãe.
— Isabella, não é sobre hoje. É sobre tudo! Desde que o seu pai morreu, você se fechou e por mais que eu tente, não consigo te ajudar. Você tem nos afastado e isso dói muito em mim. — Mamãe fala entre as lágrimas. — Você perdeu o seu pai e eu o amor da minha vida, eu sofri demais com tudo que aconteceu. Pode passar o tempo que for, jamais o esquecerei. Eu estar seguindo minha vida, vivendo, não quer dizer que eu tenha o esquecido. Seu pai tinha um coração enorme, era muito alegre, ele não iria gostar de nos ver tristes. Ele não gostaria de ver você dessa forma, você precisa se abrir a nossa nova vida. Por favor, só tente meu amor! Eu amo você.
— Eu também te amo mamãe. — ela me dá um beijo na testa e se retira.
Eu não fazia ideia que com essa minha atitude estava magoando minha mãe. Não foi proposital, nunca tive a intenção de magoar ninguém. Essa conversa é o pontapé inicial da minha mudança, preciso me esforçar.