A porta que nunca devia ter sido aberta

747 Words
Capítulo 12 — A Porta Que Nunca Devia Ter Sido Aberta A noite caiu lentamente sobre a cidade. Depois do jantar, a casa mergulhou numa tranquilidade habitual. O pai de Lucas assistia às notícias na sala. A mãe lavava a última loiça da cozinha enquanto cantarolava baixinho. No andar de cima, Lucas permanecia no quarto. A porta estava fechada, como sempre. Ninguém estranhava. Era normal que ele passasse horas sozinho. ... Por volta das dez da noite, Lucas desceu para buscar um copo de água. — Ainda estás acordado? — perguntou a mãe. — Sim. — Não fiques até muito tarde. Amanhã tens aulas. — Está bem. Ele encheu o copo, bebeu a água e voltou a subir. Mas, antes de entrar no quarto, lembrou-se de que tinha deixado um livro de exercícios na sala. Voltou a descer. Ao passar pela cozinha, disse: — Vou buscar um livro. — Está bem. A mãe continuou a limpar a bancada. ... Poucos minutos depois, enquanto passava pelo corredor do andar de cima, a mãe reparou que a porta do quarto de Lucas estava apenas encostada. Ela estranhou. — Que estranho... Normalmente, o filho trancava sempre a porta. Pensando que ele tinha descido e deixado a porta aberta por distração, aproximou-se. Bateu levemente. — Lucas? Nenhuma resposta. Empurrou a porta devagar. — Filho? A porta abriu-se completamente. Ela entrou apenas com a intenção de fechar a janela, pois uma corrente de ar fazia a cortina balançar. Mas, assim que deu dois passos... Parou. O sorriso desapareceu do seu rosto. Os seus olhos percorreram lentamente o quarto. Na parede da frente havia dezenas de fotografias de Nina. Na parede ao lado... Mais fotografias. Na secretária... Recortes do jornal da escola, folhas com anotações sobre livros de que Nina gostava, listas de datas importantes e pequenas recordações do festival. Sobre uma prateleira, um calendário tinha vários dias marcados com notas relacionadas à escola. A mãe aproximou-se lentamente. As mãos começaram a tremer. — O que...? Pegou numa das folhas. Nela havia uma lista organizada. Cor favorita. Livro favorito. Comida preferida. Música de que gosta. Ela franziu a testa. Olhou novamente para as paredes. Fotografias de Nina sorrindo. Fotografias de Nina na biblioteca. Fotografias de Nina caminhando no pátio. Algumas pareciam ter sido tiradas sem que a rapariga percebesse. O coração da mulher acelerou. — Lucas... Ela deu mais alguns passos. Na secretária encontrou o diário de capa preta. Hesitou. Não queria invadir a privacidade do filho. Mas tudo aquilo a deixava profundamente preocupada. Respirou fundo. Abriu apenas uma página. Leu algumas linhas. > "Hoje ela sorriu para mim." Virou outra página. > "Ela chamou-me de amigo." Outra. > "Foi o melhor dia desde que entrei naquela escola." A mãe fechou imediatamente o diário. As mãos tremiam. Ela sentou-se lentamente na cadeira. Olhou mais uma vez para o quarto. Não era um simples quarto de adolescente decorado com fotografias de uma colega. Era um espaço inteiro dedicado a uma única pessoa. O silêncio tornou-se pesado. Ela sentiu um nó na garganta. — Isto... não está bem... Nesse instante, ouviu passos no corredor. Lucas voltava. Ele entrou no quarto. Assim que viu a mãe parada junto à secretária, ficou imóvel. Os dois olharam um para o outro. Nenhum disse uma palavra durante vários segundos. A mãe foi a primeira a falar. A voz era baixa, carregada de preocupação. — Lucas... Ele continuava parado à porta. — Há quanto tempo... tens isto tudo? Lucas não respondeu. — Filho... Ela respirou fundo. — Quem é esta rapariga para ti? O silêncio voltou a preencher o quarto. Lucas desviou os olhos para uma das fotografias de Nina. Depois respondeu, quase num sussurro: — É a minha amiga. A mãe olhou novamente para as paredes. Depois voltou a encará-lo. — Uma amizade não costuma parecer assim... Lucas permaneceu calado. Ela aproximou-se devagar. Não havia raiva no seu rosto. Havia apenas preocupação. — Filho... eu gosto de te ver feliz por teres feito uma amiga. Mas isto... isto mostra que estás a pensar nela de uma forma que me preocupa muito. Lucas apertou os punhos. Não respondeu. A mãe colocou delicadamente a mão no ombro dele. — Quero ajudar-te. Não estou aqui para te julgar. Lucas continuou imóvel. Pela primeira vez em muitos anos, alguém tinha visto o segredo que ele escondia atrás daquela porta fechada. E, naquele instante, tanto a mãe quanto o filho perceberam que aquela conversa podia mudar tudo o que aconteceria dali para a frente.
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