Capítulo 13

1070 Words
Alessandro — Perdoe-me, padre, porque o meu coração arde em ódio e desejo de matar. A voz trêmula saiu do outro lado da cortina, em um tom assombroso. — Meu filho, a Deus pertence a vingança. O cálice do ódio envenena a si próprio. — Não temo a morte... padre — respondi, pensativo — o meu único medo é morrer sem levar para o inferno comigo os meus inimigos. Padre Giancarlo saiu detrás do biombo onde estava e parou diante de mim, com os olhos arregalados. — Ale-Alessandro — ele sussurrou, como se o meu nome fosse o próprio pecado — Devia saber que estava de volta, porque o caos se instaurou por toda a Itália. Dei um sorriso de lado, satisfeito. Sabia que tinha feito uma bela entrada. — Vem cá, garoto. Me dá um abraço. O padre Giancarlo finalmente suavizou a expressão e abriu um sorriso animado. Quando o abracei, tive a estranha sensação de estar em casa, e isso me deixou contente. Giancarlo me levou para a sua sala no fundo da igreja, conversamos amenidades sobre os anos que se passaram e aproveitei para me atualizar sobre a disputa entre a Cosa Nostra e a 'Ndrangheta. Essa era uma informação importante. A disputa por território entre a máfia calabresa e a máfia siciliana era um clássico, sempre existiu. Olhei pela janela vertical estreita, era possível ver que a noite avançava. O tempo estava chuvoso, como se eu tivesse trago a tempestade comigo desde que cheguei. Chequei a hora mais uma vez, já era perto das dez horas da noite. Em algumas horas teria uma reunião com o conselho da Cosa Nostra, bom... pelo menos com o que sobrou dele, já que eu havia matado o subchefe Lincoln Strada. Quando saí da igreja, após receber a bênção do padre Giancarlo, Clark me aguardava do lado de fora com mais alguns dos meus homens. Assim que me livrei dos seguranças de Don Salvatore, solicitei que mais homens viessem de Nova York, precisaria de uma equipe maior se quisesse continuar vivo. Don Salvatore subestimou as minhas habilidades quando cheguei, sabia que ele viria mais preparado para a reunião que eu sugeri tão "delicadamente". Havia muitos cenários prováveis para essa reunião e eu precisava estar pronto para todos eles. — Está pronto, Sr. Alessandro? — Sim! — falei com determinação e pegamos a estrada principal para uma região afastada. Uma hora depois... Clark estacionou o carro na frente de um prédio aparentemente abandonado, mas, apesar da descrição, bastou um olhar atento para saber que a Cosa Nostra já havia chegado. — Sr. Alessandro, o que o senhor está fazendo é muito perigoso. — Eu sei, e avisei que seria assim. Quer desistir? — perguntei, sentindo a irritação na boca do estômago. Detesto que me digam o óbvio. — Não, senhor. Apenas quero que fique bem, o senhor é um bom homem. Sorri com a observação dele. Clark, assim como eu, possuía um coração sombrio. Então, aos olhos dele, eu poderia realmente parecer um bom homem. Se bem que eu não me importava com isso. Ajeitei o terno feito sob medida e respirei fundo enquanto encarava a entrada do edifício. Por um momento, a lembrança de um par de olhos azuis e cabelos ruivos em forma de caracóis surgiu em minha mente. Fiorella Salvatore. Senti o coração afundar. Será que ela está bem? Empurrei o pensamento para o fundo da minha mente e desci do carro. Apesar da grande quantidade de soldados da Cosa Nostra, Don Salvatore não estava presente. Em vez disso, seu conselheiro, Eduardo Pestana, estava de pé no centro de uma sala ricamente decorada. A aparência precária do prédio era apenas do lado externo. O interior era extremamente luxuoso, com uma mistura de antiguidades de alto valor, modernidade e tecnologia. — Alessandro — a baixa luz dava ao ambiente um ar perigoso, mas eu não recuei. Dirigi-me até o centro da sala e estendi a mão para cumprimentar o conselheiro. — Esperava encontrar-me com Don Salvatore... — Você nos causou muitos problemas! — o homem respondeu, duro. — Uma pequena retaliação pela falta de decoro do seu chefe — retruquei, com um sorriso cínico nos lábios. — Creio que foi apenas um m*l-entendido — o olhar do homem estava fixo nos meus, talvez procurando por alguma vulnerabilidade. — Você disse que queria fazer negócios... — Preciso de um produto de melhor qualidade. Além do mais, ninguém consegue exportar mais drogas que a Cosa Nostra. Quero uma carga grande o suficiente para tornar os Gringos o maior fornecedor dos Estados Unidos. Eduardo riu de lado. — Projeto ambicioso, mas dominar o mercado internacional é uma meta da Cosa Nostra. Não vamos terceirizar o serviço. — Leve a proposta ao seu chefe — insisti. — Sou o conselheiro, tal absurdo é completamente inviável. — Se não estão dispostos a negociar, por que você veio, Eduardo? Ele balançou a cabeça e fez sinal para que os seus homens nos deixassem a sós. — A máfia calabresa acha que estamos fracos. A morte do nosso subchefe teve um impacto muito grande nos nossos negócios. Temo que sintam-se motivados a nos atacar. — E o que Don Salvatore quer de mim? — Ele pediu que lhe fizesse uma proposta! Don Salvatore quer que você ocupe o cargo de subchefe da Cosa Nostra. Era uma jogada política, eu sabia muito bem disso. Se eu assumisse o cargo, ele facilmente poderia alegar que a morte do subchefe anterior não foi um ataque, mas sim uma execução. — Dessa forma apenas ele ganha! — Está se dando crédito demais, Alessandro. Ser subchefe da Cosa Nostra é um cargo altamente cobiçado e te levará a lugares que a sua pequena máfia gringa jamais conseguirá! — Não! A minha resposta... é não! — Não seja t**o, Alessandro. Prefere ser declarado inimigo da Cosa Nostra? — Prefiro que me dêem o que solicitei. Pagarei pela mercadoria, não estou pedindo de graça. Eduardo se dirigiu até uma prateleira e pegou uma garrafa de whisky. Serviu dois copos e me entregou um. — Fiorella Salvatore... — ele sussurrou o nome dela. Algo em minha expressão deve ter mudado, porque percebi um lampejo de curiosidade e satisfação em Eduardo. Tomei um pouco da bebida, sentindo a tensão se dissipar lentamente. — Qual o problema com ela? — Peça a mão da filha de Don Salvatore, em troca de ser subchefe da Cosa Nostra!
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