Capítulo 10

1199 Words
Fiorella Síndrome de Estocolmo. Sempre achei ridículo o conceito de se sentir atraída pelo seu algoz. Mas ao praticamente beijar um desconhecido assustador, a ideia não só era aceitável, como irresistível. Assustador? Hmm... Sim, ele tinha uma aura de perigo iminente, talvez fosse o corpo tão grande, os braços musculosos. Eu devia estar acostumada a ver homens fortes. Era um requisito indispensável para os homens que trabalhavam para o meu pai. Não! Não era só isso. Acho que a forma como ele sorria, aquela risada rouca, era perigosa, muito perigosa. Pelo menos para a minha calcinha. Mas que pensamento é esse? Eu nunca fui uma garota ousada com os homens; na verdade, nunca havia sentido aquelas emoções antes. Era como se o meu cérebro fosse incapaz de raciocinar de forma decente. Se eu fosse realmente ousada, teria virado o rosto quando ele estava tão perto de mim. Sem dúvida, os meus lábios encontrariam os sussurros dele. As palavras soaram em minha mente. Vinte e um dias. Como ele sabia o dia exato do meu aniversário? Deixei o meu corpo afundar no assento macio; me sentia física e emocionalmente exausta. Sorri ao olhar para o cinto prendendo os meus pulsos. Ele devia estar acostumado a fazer aquele nó, porque estava bem firme. Me peguei imaginando-o me amarrando daquele jeito na cama. Fiorella, você está ficando louca! me recriminei mentalmente. O avião decolou e eu senti minha respiração acelerar, precisava de mais pílulas para sobreviver às próximas horas dentro daquele avião. No começo eu tomava o remédio para conseguir estar em lugares abertos, depois de um tempo não precisava de um motivo específico para desejar suprimir qualquer emoção e ficar dopada. Bom, esse era um estado de espírito que eu gostava, ficar "fora do ar". Fechei os olhos, mas abri quase instantaneamente. As imagens se empilhavam em minha mente desperta, e o horror das últimas horas voltou a fazer o meu estômago revirar. Respira... Vamos lá, respira. Fechei os olhos novamente. Se pelo menos eu conseguisse dormir. Senti o toque áspero em minha mão. Abri os olhos e me decepcionei ao ver o loiro carrancudo diante de mim cortando a tira que me prendia. — Sr. Alessandro me pediu para te soltar. Será uma viagem longa, e ele não quer que se queixe para o seu pai, dizendo que foi maltratada por nós. — É Alessandro o nome dele... — dei-me conta tarde demais de que havia feito essa observação em voz alta, e o loiro ficou com uma carranca ainda mais brava. — Não te interessa! Ele já estava me dando as costas quando o agarrei pelo braço. — Espera. Será que você pode me dar um remédio pra dormir? — pedi, sabendo que estava soando desesperada. — Vou verificar. Agora volte para o seu lugar! — Obrigada — murmurei, mas ele já havia seguido o seu caminho. Se controla. Respira. Puxei o ar, determinada a fazer o meu pulmão funcionar do jeito certo, mas sabia que estava hiperventilando. Droga! Eu só queria dormir e acordar no meu quarto. E mais imagens se empilhavam na minha mente. O cerco na estrada deserta, o corpo da minha mãe, baleado. Os sons dos tiros pareciam ecoar dentro da minha cabeça. A imagem imponente de Alessandro surgiu, mas nem isso me deu conforto algum. Os "gringos" eram aliados do meu pai, mas por que o meu corpo tremia diante dele? Por que ele agia como se fosse o inimigo? Tentei organizar os últimos acontecimentos de forma que fizessem sentido, mas tudo era apenas caos. A minha vida era um caos, fora e dentro de mim. Precisava falar com o meu irmão Dominic. Ele era o único que me compreendia e sem dúvida ele podia conseguir as malditas pílulas. — CADÊ O MALDITO REMÉDIO QUE EU PEDI? — gritei, descontrolada. Queria não agir como uma doida, mas quando dei por mim já tinha gritado. E lá estava ele, andando calmamente pelo corredor. Alessandro. — Que diabos está acontecendo com você? Está doente? — ele retirou um lenço do bolso e passou pelo meu rosto suado. Eu devia estar com uma aparência péssima, e ele me analisava com cuidado, os olhos estreitos me percorrendo por completo. Chacoalhei a cabeça em negativa. — Não estou doente! Só preciso de remédio para dormir, um calmante qualquer. Se não tiver, pode ser um analgésico... — no final da frase, minha voz já estava saindo esganiçada. Ele segurou o meu pulso, checando meus batimentos cardíacos. — Está muito acelerado! Respira, Fiorella... respira! Eu queria gritar com ele. É claro que o meu coração bateria em um ritmo frenético, com ele tão perto de mim. O cheiro dele, o toque dos seus dedos em minha pele, era quase doloroso. Senti os olhos arderem; estava prestes a desabar em lágrimas. — Por favor, eu preciso do remédio — choraminguei. O meu corpo estremeceu de um jeito estranho e me senti perdida. Primeiro uma onda de frio, depois uma onda de calor, e novamente estremeci. As mãos de Alessandro me seguravam com força. Ele parecia estar gritando alguma coisa, mas por algum motivo eu não conseguia entender. Por mais que eu tentasse me concentrar em seu rosto másculo me encarando, vez ou outra tudo ficava sombriamente escuro. — Olhe para mim, Fiorella! Acatei o seu comando e fitei os seus olhos. Senti uma dor aguda me atingir, mas logo identifiquei o loiro com a seringa nas mãos, enquanto Alessandro me segurava. — O que... aconteceu? — perguntei, confusa. — Você estava convulsionando. Aplicamos um sedativo. Você vai ficar bem! — Obrigada — murmurei, sentindo o corpo relaxar aos poucos. — Você não vai morrer ainda. Mas estou ficando bastante irritado com o fato de outras pessoas tentarem te matar e, mais ainda, com você mesma, tentando se matar! — Isso não é... verdade... — as palavras saíram emboladas. — Não foi uma pergunta. Você acabou de ter uma forte crise de abstinência diante dos meus olhos. Vou te falar algo sobre as drogas: te mato se te pegar usando essa merda novamente! — Não é o que você pensa... Não uso drogas... Só pílulas! — Pílulas? E o que elas fazem? Te deixam anestesiada? Ele estava furioso. O maxilar tensionado deixava isso evidente. — Não entendo por que está com tanta raiva. Você não me conhece e sequer sabe alguma coisa sobre mim... — estava cansada de chorar, mas não consegui me conter. — É, eu não te conheço. Mas vou ficar sentado bem aqui, na sua frente, e quando você estiver melhor, vai me contar que merda está acontecendo. — Por que você se importa? — insisti, e ele deu aquela risada rouca que me deixava sem ar. — Posso passar as próximas três semanas no inferno, Fiorella. Mas te garanto que não vou tirar os olhos de você, até que eu tenha permissão para te mostrar uma forma saudável de chegar às nuvens. — Isso foi tão sexy... que eu poderia gozar só com as suas palavras. — a medicação claramente havia tirado o meu freio moral. — Ainda não, coelhinha... Ele passou os dedos pelo meu rosto, e eu adormeci completamente, entorpecida por seu toque, sua voz... seu cheiro.
Free reading for new users
Scan code to download app
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Writer
  • chap_listContents
  • likeADD