Alessandro
Fiorella dormiu durante quase toda a viagem. Faltava muito pouco para pisar novamente na Itália, e era inevitável não sentir o ódio dominando o meu coração. Pedi ao Clark uma dose de uísque.
Precisava aplacar aquela raiva antes de olhar nos olhos do meu inimigo e mentir. Não teria chance contra Don Salvatore se não controlasse as minhas emoções.
E Fiorella... bem, Fiorella era um assunto à parte.
— Olá...
— Que bom que acordou, vamos pousar em breve. Ajuste o assento na posição correta e se prepare! — minha voz soou dura.
Não havia sobrado resquício da atração que senti inicialmente por Fiorella. O ódio que eu sentia por Don Salvatore e tudo que carregava o seu maldito nome era impossível de ignorar.
— Obrigada por salvar a minha vida... três vezes — ela resmungou, ligeiramente encabulada.
— Sou um homem de negócios! Tudo o que fiz foi para chegar até o seu pai. Não se ofenda, mas você não faz o meu tipo.
— Mas você disse que... que queria me conhecer. — ela me olhava com espanto diante da mudança no meu comportamento. Estava desapontada.
— O que foi? As minhas palavras não te excitam mais?
Ela arregalou os olhos e levantou o braço para me estapear, mas eu agarrei o seu pulso no ar.
— Filho da p**a! — ela esbravejou, furiosa.
Peguei o copo de uísque e virei o líquido de uma vez só. Não sabia dizer o que queimava mais, se era o álcool ou o ódio. Atirei o copo longe, e Fiorella se encolheu no banco, mais assustada do que quando a encontrei na estrada, cercada por mercenários.
Ótimo! Preferia vê-la acuada do que flertando descaradamente comigo.
Dei um sorriso torto para ela e fui me sentar na poltrona ao lado de Clark. Ele conhecia o meu temperamento volátil, então apenas me deu uma olhada rápida e ficou calado até finalmente pousarmos.
— Bem-vindo à Itália, Sr. Castelli. — ouvi a voz do piloto pelo alto-falante.
Os Tomazzine haviam sido apagados da história, mas eu reescreveria uma história muito melhor, uma história que seria escrita com o sangue de cada Salvatore.
Respirei fundo, ajeitei o terno e me permiti sentir uma onda de felicidade. O plano estava avançando mais rápido do que o esperado. O padre Giancarlo não poderia negar que eu era um homem de sorte.
Fui o primeiro a descer da aeronave. Fiz o sinal da cruz em homenagem à minha mãe e aos meus irmãos, todos assassinados naquela terra amaldiçoada.
Don Salvatore ainda não havia chegado, mas sem dúvida não demoraria para buscar a filha adorada.
— Eles estão chegando — falei, avistando as SUVs se aproximando em alta velocidade. — Vá buscar a garota!
— Sr. Alessandro — um dos meus homens interrompeu —, a menina está chorando muito e disse que não vai descer. Não podemos arrastá-la à força, afinal ela é filha de Don Salvatore, o Capo da Cosa Nostra.
Bufei, irritado, e entrei novamente na aeronave.
— Mas que diabos, primeiro não queria entrar no avião e agora não quer sair? O que há de errado com você?
— Por favor, me deixe ficar aqui. Não quero descer, não me obrigue. Me deixe no avião.
— Você só pode estar querendo testar a minha paciência... — parei de falar abruptamente ao notar o estado de Fiorella. Ela estava pálida e tremia da cabeça aos pés.
Tinha alguma coisa muito errada acontecendo ali.
— Por que não quer descer? O seu pai já chegou, não quer vê-lo? — sondei.
— Sim, eu quero ver o meu pai e o meu irmão. Eu só... não consigo descer...
— Está com dor? Quer que eu carregue você? Eu posso fazer isso.
— Eu sei que pode — ela murmurou ruborizando em seguida.
Olhei pela janela do avião. Era possível ver os homens de Don Salvatore enfileirados ao lado dele.
— p***a! Não complica a minha vida e desce de uma vez! — estava muito perto de perder a paciência completamente.
— Acho que vou desmaiar — a voz dela soou tão fraca que duvido que estivesse mentindo.
Segurei o corpo de Fiorella junto ao meu para não correr o risco de que ela caísse e se machucasse de verdade.
— Não precisa fingir que se importa. Você deixou claro que é um i****a!
— Eu tenho que te entregar intacta para o seu pai, faz parte do acordo! E o chão está repleto de cacos de vidro...
— Oh, certo — ela fungou, apoiada em meu peito.
— Fiorella, como você mesma disse, eu te salvei três vezes. Me ajude a te salvar mais uma vez e me conte o que está acontecendo.
— Agorafobia. Eu tenho medo de...
— Shhh. — apertei o corpo dela ainda mais contra o meu. — Eu sei o que significa. Agora faz sentido as pílulas. O seu pai sabe?
— Não.
— E isso explica a grande quantidade... Não há um jeito fácil de lidar com isso, não em um curto espaço de tempo. Mas eu tenho um plano. Você precisa confiar em mim.
Ela me encarou, desconfiada.
— Me disse para não confiar...
— Garota esperta! — soltei-a por um instante para pegar uma manta. — Vou te enrolar nessa manta e vou te carregar até lá fora. Você vai ficar com os olhos fechados e, quando abrir, já estará dentro de um dos carros do seu pai. Pode ser?
— Não vai dar certo — ela estava muito apavorada.
— Claro que vai! Respire fundo e segure firme em mim. Eu vou estar com você o tempo inteiro e não vou te largar até você estar protegida dentro do carro.
Ela finalmente cedeu. Envolvi Fiorella em uma manta e a carreguei no colo para fora do avião.
Assim que desci, notei os olhos de Don Salvatore em cima de nós, as armas dos seus homens apontadas em nossa direção. Fiorella tremia ainda mais.
— Vai ficar tudo bem — sussurrei para ela.
— É a minha filha em seu colo? — Don Salvatore questionou assim que cheguei mais perto.
— Sim, senhor! Preciso colocá-la em um dos carros!
Don Salvatore se aproximou ainda mais e, ao ter certeza de que era a filha em meus braços, ordenou que me deixassem passar.
— Ela está ferida? Minha filha está machucada?
— Não. — depois de colocar Fiorella no banco traseiro de um dos carros e fechar a porta, virei para Don Salvatore e continuei:
— Ela só precisa de um bom psiquiatra... ah, e de um psicólogo!
— Como ousa insinuar que a minha filha é louca?