Ao ouvir aquela informação, Alice acordou sobressaltada, ouvir o nome de Maurício indicava que a situação era muito pior do que imaginava.
— E agora, o que faremos? — perguntou ela, olhando para Lorenzo.
— Avisaremos a polícia. Se ele souber que nosso apartamento está sobre a vigilância da polícia, ele não vai chegar nem perto daqui. — disse Lorenzo pegando o telefone. — Acabei de mandar mensagem pra um amigo meu da polícia. Estão dando Maurício como foragido nos noticiários. Tudo vai ficar bem, não se preocupe. — disse Lorenzo, abraçando Alice.
Vendo que ainda era madrugada, ela voltou a se recostar no peito de Lorenzo e adormeceu. Ele ainda ficou no celular por um tempinho, tentando descobrir mais alguma coisa, porém logo foi vencido pelo cansaço.
O aroma do café recém-passado preenchia a cozinha, mas o silêncio entre Alice e Lorenzo parecia ainda mais denso. Ela tentava processar tudo que havia acontecido nas últimas horas e aquela sensação de prisão ainda era presente em sua mente. Já Lorenzo, mexia a colher na xícara devagar, observando-a com um olhar carregado de perguntas não ditas. Parecia que Alice estava tentando lidar com algo maior, que ele ainda parecia não saber e isso o deixava aflito por não ter pelo menos como tentar ajudar de alguma forma. Quando finalmente falou, sua voz veio carregada de cautela.
— Você não precisa carregar tudo sozinha, Alice. — disse ele tocando na mão dela. — Sinto que tem algo te incomodando, algo que você ainda parece não ter ou querer me contar.
— É que aconteceu uma coisa comigo, bem maior do que você pensa. — disse ela olhando nos olhos dele.
— Você sabe que pode me contar qualquer coisa, não sabe? — falou e ela balançou a cabeça concordando.
— Meus pais, principalmente meu pai… — deu uma pausa. — Ele me maltratava muito, me agredia quase todos os dias.
Lorenzo arqueou as sobrancelhas, surpreso com aquela revelação.
— Mas eu nunca vi hematomas em você. — disse ele analisando as palavras com cuidado.
— Eu sempre me cobri com as peças mais longas e às vezes usava uma maquiagem também. — ela explicou.
— Sei, e isso acabou te causando traumas. — refletiu ele.
— Sim, quando o Maurício me ameaçou, eu lembrei do meu pai e de tudo que ele me fez sofrer. Por isso que eu tenho tanto medo dele acabar me pegando de novo.
— Isso não vai acontecer, Alice, porque dessa vez, eu juro pra você que se ele encostar um dedo dele em você, eu mato ele. — falou Lorenzo. — Eu te amo e não vou deixar ninguém te machucar.
— Obrigada! — ela diz encostando sua testa na dele.
— Eu agradeço por você ter me contado, não deve ter sido fácil criar essa coragem, mas como eu disse, você não está sozinha. — disse beijando a testa dela e Alice assentiu.
Eles terminam de tomar seu café em silêncio, mas esse era um silêncio confortável e mais uma vez, Alice pôde ter certeza que Lorenzo era o homem certo para sua vida.
[...]
Enquanto organizava os papéis sobre a mesa, Alice respirou fundo, tentando se concentrar na tarefa. Mas era inútil. Sua mente insistia em vagar para lembranças que ela preferia esquecer. O toque do celular a trouxe de volta ao presente, e ao ver o nome de Lorenzo na tela, forçou um sorriso antes de atender.
— Oi meu amor.
— Oi. — disse ela num tom nada empolgado.
— Só liguei pra saber como está indo seu dia. — ele disse.
— Ah, não está sendo muito bom não, mas sobrevivemos. — disse ela.
— Sei, por aqui também está assim, queria estar com você nesse momento, mas como não posso e talvez eu chegue tarde hoje, eu vou deixar uma surpresa para você lá em casa, tá bom?
— Tá bom.
— Então é isso, se precisar de alguma coisa pode me ligar.
— Okay.
— Beijo, te amo.
— Beijo, também te amo. — disse Alice, com a voz um pouco mais animada.
A ligação se encerra e ela volta a tentar se concentrar no trabalho, ansiosa para ir pra casa e ver qual era a surpresa que Lorenzo havia deixado pra ela.
Quando Alice chegou no apartamento e destrancou a porta, não esperava encontrar o que estava ali, o apartamento iluminado por velas suaves, um buquê de flores bem no centro da mesa, e bem perto das flores, um bilhete escrito às pressas com a caligrafia de Lorenzo.
Minha doce Alice,
Quero que saiba que estou aqui para você,. Sempre!
Te amo, Lorenzo Ricci.
Alice já se encontrava com os olhos marejados de emoção quando de repente, Lorenzo acabou por chegar, sem aviso, e o simples som da porta se fechando mais forte do que o esperado, fez seu corpo enrijecer.
Seu coração acelerou, e por um instante, ela não estava mais ali — estava de volta a um passado que tentava esquecer. Mas foi só ouvir a voz de Lorenzo, suave e preocupada, que Alice voltou à realidade.
— Alice, tá tudo bem?
— Sim, sim. Eu só acabei me assustando com o barulho da porta. Você não disse que ia chegar mais tarde? — perguntou sorrindo.
— Eu ia, mas um dos clientes cancelou a reunião, aí eu vim. — disse puxando ela pela cintura e lhe dando um beijo rápido. — Gostou da minha surpresa.
— Eu amei, Lorenzo. Significou muito pra mim.
— Que bom, agora vamos tomar nosso banho e preparar o jantar. — disse ele se separando dela.
O quarto estava escuro e silencioso, mas na mente de Alice, o passado gritava.
Alice olhava seu reflexo no espelho, estava pequena de novo, encolhida no canto do quarto, enquanto a voz do pai gritando lá fora, ecoava fria e cortante.
Sentiu o medo apertar seu peito, a mesma sensação sufocante de antes.
— Tá na hora, Alice! Quanto mais rápido sair, mais rápido podemos terminar isso. Você só tinha uma responsabilidade, UMA! — gritava o pai esmurrando a porta.
Alice via que a trava da porta estava quase se rompendo, e a medida que o pai batia ia se quebrando mais ainda e lágrimas de desespero não molhavam apenas o rosto de Alice, mas também suas roupas.
Mas quando a porta se abriu, Alice acordou sobressaltada, Lorenzo estava ao seu lado, e se levantou assustado, a observando puxar o ar com força, seus olhos cheios de preocupação por ela ter tido aquele pesadelo.
— Tá tudo bem, seu pai não está aqui. Foi só um pesadelo. — ele disse tentando tranquilizá-la. — Vem, deita aqui no meu peito.
Ele a puxou para si e ficou fazendo carinho em seus cabelos até ela adormecer novamente.