Meu Deus! Se esse homem não fosse um mau caráter, envolvido com o mundo do crime, e tão sem coração...
Dante me puxa ainda mais para perto, obrigando-me a apoiar a cabeça em seu peito. Seu perfume é amadeirado, intenso, penetrante. Me envolve como uma teia invisível, e por um instante, sou incapaz de lembrar quem sou. Ou quem ele é.
O bar ganha vida ao redor, e a fumaça densa de charuto impregna o ar, misturando-se às gargalhadas roucas e gemidos de mulheres que se esfregam em homens perigosos. Mas tudo isso desaparece nos braços de Dante. Ele me conduz pela pista, sua mão quente pressionando minha cintura, como se quisesse me gravar ali, em sua posse. Quando a música muda, um novo ritmo preenche o ambiente. Whitesnake - "Is This Love".
Ele para de dançar e me observa, seu olhar descendo até minha boca. O mundo ao redor se desfaz quando seus lábios tomam os meus num beijo feroz, faminto. Seu corpo se cola ao meu, seu aperto exigente, dominador. Meus joelhos amolecem, minha respiração falha, e sem perceber, me entrego ao calor dele. Palavras de alerta gritam em minha mente, mas meu corpo trai meu dever.
Ouço aplausos, assobios, gritos incentivo. Um véu de realidade cai sobre mim, e percebo que Dante está se exibindo. Me usando para reafirmar sua posição.
Quando ele me solta, seus olhos estão intensos, analisando-me de forma que me faz engolir em seco. Não vejo deboche ali, não vejo a satisfação de um homem que conseguiu o que queria. Seu olhar é afiado, testando meus limites.
Um sorriso torto surge em seu rosto, e sua covinha profunda se revela. Ele levanta a mão e acaricia minha face, como se quisesse me acalmar, ou pior, como se quisesse me marcar.
Uma raiva silenciosa cresce dentro de mim. Como posso ser tão fraca diante desse homem? Ele é um bandido, um criminoso, um inimigo. Eu preciso transformar essa atração em ódio.
— Você realmente não tem ideia de quem eu sou e de tudo que eu posso te dar. — As palavras dele me assustam. Meu coração bate forte no peito.
— Não. — Minto. — E saímos sem compromisso, lembra?
Ele sorri e, quando me dou conta, estou me perdendo nos olhos dele novamente.
— Hum, você quer muito mais que uns beijos roubados, meu anjo. — Ele diz com um meio sorriso, fazendo meu coração disparar. — Posso sentir.
Então, um homem m*l-encarado o chama e fala algo em seu ouvido. O semblante de Dante se transforma. Seus olhos flamejam e ele responde algo em tom baixo. Tento aguçar os ouvidos, mas a conversa ao nosso redor me impede de ouvi-lo.
Ele então se vira para mim.
— Meu anjo, preciso resolver algumas coisas. Fique no bar.
— Não quero ficar sozinha. — Digo, rápido.
Ele me dá um sorriso de canto.
— Todos viram que é minha garota, ninguém é louco de se aproximar de você.
— Me leva junto com você.
O calor na minha voz faz com que ele me olhe de forma estudiosa.
— Nada disso! Você veio para se divertir.
— Sozinha em um bar? Isso você chama de diversão?
Dante me puxa ao seu encontro. Seus olhos estão fixos nos meus.
— Está com medo do lugar? Não fique, te garanto que ninguém te tocará. Eu te beijei e isso é o suficiente para te marcar como minha. Eles pensarão duas vezes antes de vir falar com você. Vem, vamos!
Ele me envolve mais pela cintura e me mostra um banco no bar.
— Fica quietinha aqui, em um instante eu já volto.
O sigo com os olhos. Quando ele passa pelas pessoas, todos parecem reverenciá-lo como se fosse uma autoridade. Sim, ele está no comando e ficar sozinha ali não era uma opção.
— Vai beber mais alguma coisa?
— Um refrigerante. Tem?
Ele sorri achando graça no meu pedido. Não é a primeira vez que provoco essa reação ao não ingerir bebida alcóolica.
— Temos.
—Uma coca.
Enquanto ele vai atrás do meu pedido, meus olhos varrem o bar, avaliando as pessoas ao redor. Homens rudes, mulheres com roupas curtas. Tudo naquele lugar exala crime e promiscuidade. Dante some pela porta dos fundos, cercado por seus homens, e eu me sinto frustrada. Como eu gostaria de ser uma mosquinha para entrar na sala que Dante está reunindo com seus homens para saber o que eles estão tramando. Estou pensando nisso quando sinto um movimento nas minhas costas.
Então, escuto.
— Tão acabando com os pontos de distribuição. Dante tá puto.
Meu coração dispara.
— Sim, tô sabendo. Mas ele já tem um plano.
Seguro a respiração.
— Vamos espalhar um boato sobre o esconderijo da carga. Vamos pegar esses merdas na tocaia. Estamos só esperando o Zé Galinha confirmar.
Uma armadilha?
Leandro e Heitor vão cair numa armadilha?
Eles continuam:
— E essa reunião? Ele está fazendo para quê?
— Estão resolvendo a questão do lugar para isso acontecer.
Passo a mão na testa e limpo o suor frio do meu rosto. Não sei quanto tempo passou, até que sinto um toque no ombro.
— Oi, princesa. Viu como foi rápido? — Ele então me olhou atentamente. — Você parece pálida. Você tá bem?
Deus! Eu estou louca para voltar para casa e ligar para Leandro. Eu estava com medo, muito medo.
— Acho que aqui tá muito abafado.
Ele então se aproximou de mim.
— Vamos embora, princesa. Mesmo porque eu preciso resolver uns assuntos. Vou te levar para casa agora.
— Tudo bem.
Eu estou com raiva de Dante, mas eu preciso fazer o papel que está tudo bem. Dante circunda minha cintura e saímos de lá.
Alcançamos a calçada. Eu pergunto tentando passar naturalidade na voz:
— O que houve?
Ele me lança um olhar rápido.
— Tô tendo alguns problemas nos negócios.
— Que tipo de problemas?
Ele me para, colocando as mãos em meus ombros e me encara com o rosto severo.
— Escuta bem o que eu vou dizer. Tem coisas que é melhor você não saber.
Eu suspiro.
— Por que está carregando uma arma na cintura?
Ele solta o ar:
— Você reparou?
— Você a traz pra todo lugar?
— Sim.
— Por quê? — Instigo.
Dante me fita sério.
— Segurança. O Rio de Janeiro é perigoso, cheio de bandidos.
Eu quase rio com o comentário.
Ele me encara por um momento, esperando que eu diga alguma coisa, mas como eu só o olho e não digo nada, ele pega meu braço com firmeza.
— Agora vamos!
Sim, ele está encerrando o assunto. Ali foi o meu limite e eu não posso passar daquela linha.
Ele pega os capacetes e me dá um. Se senta na moto e eu faço o mesmo. Meus braços envolvem sua cintura. Fecho os olhos e fico escutando uma voz no meu cérebro dizer repetidas vezes a palavra "tocaia". A imagem de Leandro e Heitor não sai da minha mente. O informante se chama Zé Galinha.
Leandro precisa saber!
Estou tão presa aos meus pensamentos que nem reparei que já tínhamos chegado, só quando Dante para a moto.
— Tá gostoso aí? — Ele pergunta sorrindo, me trazendo para a realidade. — Agora pode me soltar.
Eu desço e tiro o capacete, sorrio constrangida.
— No fim, nem conversamos sobre Alice.
Ele tira o capacete e me olha sério, ainda em cima da moto.
— Desculpa por nossa noite terminar assim.
Aceno um sim. Desde que fiquei sabendo da tocaia, meus batimentos ainda estão rápidos. Estou louca para subir e ligar para Leandro.
Estendo meu capacete para ele.
O inesperado então acontece. Ele me puxa para ele, me tomando em seus braços. Ele me dá um olhar febril e então toma minha boca num beijo quente, profundo e apaixonado. Eu fico dura em seus braços, resisto ainda com a imagem de Leandro e Heitor mortos por causa da tocaia. Da mesma forma inesperada que ele me puxou, ele me solta e me olha demoradamente. Eu não consigo expressar nenhum tipo de reação, a minha luta interior é tão grande que eu fico como boba olhando para ele.
— Eu vou te dar emoção. Quero sair mais com você. Te levar a lugares bonitos e melhores. —Sussurra para mim, me encarando atentamente. — Fica com o capacete. Faremos isso mais vezes.
Assinto sem demonstrar nada, nenhum sentimento. E o pior: suas palavras não me desagradam, e isso me coloca em uma luta interna ainda maior.
Como posso estar caidinha por um homem como ele?