Leandro
No dia seguinte, chego cedo ao centro de operações do Bope. Heitor já está lá, me esperando. Os nossos olhares se cruzam, carregados de preocupação. O ambiente está denso, quase palpável. Respiro fundo, tentando organizar os meus pensamentos antes de passar as informações que consegui com Isabela, a nossa agente infiltrada. Assim que Carlos chega, pedimos uma reunião urgente. Expomos cada detalhe, cada peça do quebra-cabeça que ela nos forneceu, sentindo o peso da responsabilidade se intensificar a cada palavra.
Carlos não hesita. Em minutos, toda a força policial disponível é mobilizada. Com o endereço fornecido por Zé Galinha em mãos, acessamos o Google Maps. O local é um depósito abandonado. As imagens são antigas e revelam pouco.
Decidimos não arriscar. Solicitamos ao setor de vigilância para enviar um drone para sobrevoar o local. Minutos depois, as imagens chegam. Dentro do galpão, há movimentação. Contamos seis homens, todos armados até os dentes.
A adrenalina se espalha pelo meu corpo. Vestimos os coletes à prova de balas, ajustamos as armas e seguimos para o local. Ambulâncias são posicionadas a poucos metros dali, caso algo dê errado.
Com o apoio das imagens do drone, traçamos a estratégia e cercamos o galpão. A equipe ofensiva avança na linha de frente. O arrombador de portas destrói a tranca do portão de ferro, que se abre com um estrondo. Invadimos o local em sincronia. O elemento surpresa nos dá a vantagem inicial: dois dos criminosos são rendidos imediatamente.
Mas não há tempo para comemorar. O tiroteio começa. O estampido dos disparos reverbera no ar, abafando qualquer outro som. Meu coração martela, mas meus sentidos estão aguçados. Meus olhos analisam cada canto, meus movimentos são rápidos e calculados. Um bandido de cada vez.
De repente, sinto o impacto brutal de uma bala atingindo meu colete. O golpe me joga para trás, o ar some dos meus pulmões. Instintivamente, me abaixo atrás de uma máquina desativada, tentando recuperar o fôlego.
— Você está bem? — grita um dos agentes ao meu lado.
Faço um sinal afirmativo com a cabeça e ele segue adiante.
Puxo o gatilho, revidando, cobrindo meu parceiro que avança pelo flanco. As balas zunem ao nosso redor, ricocheteando pelo ambiente. Minha munição acaba. Merda!
Heitor, a poucos metros de distância, atrás de um pilar, percebe minha situação. Num movimento ágil, me joga um pente. Pego no ar e recarrego a arma. Troco um olhar com ele, meu agradecimento silencioso, e peço cobertura para avançar.
Os disparos dele mantêm os inimigos ocupados enquanto me movo sorrateiramente. Um passo de cada vez. Meu corpo inteiro vibra com a descarga de adrenalina. Escondo-me atrás de uma coluna. Depois, me desloco para trás de uma caixa d’água velha. A equipe age com precisão. Um a um, os criminosos caem.
Então, o silêncio. O peso da batalha ainda está no ar, mas agora tudo o que escuto são nossas respirações ofegantes.
Olho ao redor. Não tivemos nenhuma baixa. Meu peito se infla de alívio. Mas quando procuro por Heitor, meu coração descompassa. Ele não está entre nós.
O pânico me invade. Corro até onde o vi pela última vez. Lá está ele. Caído no chão. O sangue se espalha pelo concreto, escorrendo do ferimento em seu pescoço.
— NÃO! — minha voz sai sufocada. Caio de joelhos ao lado dele. — Fica comigo! Olha pra mim! Luta, A ambulância já está vindo, escuta a sirene?
Ele pisca lentamente, e meu peito aperta ao ver o brilho se esvaindo de seus olhos. O desespero me consome.
O paramédico se ajoelha ao lado dele. Examina-o rapidamente. Então me olha. E apenas balança a cabeça.
Meu mundo desaba.
Não.
Não pode ser.
Meu corpo trava. Meus olhos ardem com lágrimas que não posso segurar. Me levanto cambaleante, o peso da impotência esmagando meu peito. A dor é insuportável. Meus joelhos fraquejam, e eu caio no chão, incapaz de conter o luto que me devora por dentro.
Isabela
No dia seguinte, fiquei com Alice, como de costume. Não vi os irmãos o dia inteiro . Rafael levantou-se cedo, foi trabalhar e Dante sumiu desde a hora que deixou meu quarto.
Meu coração está apertado com uma angústia insuportável. O peso da incerteza sobre o dia de hoje me corrói. Dante merece o que vier, ele me levou a isso, mas isso não apaga a dor que me consome. Meu peito arde, um nó está alojado na minha garganta.
À tarde, deixo Abby aos cuidados de Estela e resolvo ligar para Leandro. O dia inteiro fiquei pensando nele. Preocupada com a emboscada. Embora ele tenha ido prevenido, sempre há riscos.
Agora estou no quarto, tranco a porta e pego o celular com as mãos trêmulas. O telefone chama duas vezes antes de ele atender.
— Leandro!
Ele funga.
— Que bom ouvir sua voz — diz abafado, num fio de voz.
Sinto que algo está errado. Ele parece devastado.
— Está tudo bem com você?—ele me pergunta.
— Comigo sim, mas você não me parece bem.
Então ele solta a bomba:
— Heitor... se foi.
Meu coração para por um segundo.
— O quê?
Ouço sua respiração funda.
— Heitor morreu. O enterro será amanhã.
— Como?
— Mesmo preparados, eles conseguiram acertá-lo.
—E Dante? Estava lá entre os bandidos? Ele.....
—Claro que não! Ele não se suja, tem homens que fazem isso para ele.
Eu me seguro para não chorar de alívio e imediatamente a culpa por isso me afeta e principalmente pela noite quente de ontem. Ela atravessa o meu peito como uma lâmina afiada.
— Sinto muito — murmuro. Imagino o que ele está passando. Eles eram muito ligados. — Não sei o que dizer. Sei que você gostava muito de Heitor.
— Saia daí e case-se comigo. Vamos fazer qualquer outra coisa. Mas vamos mudar de vida.
Engulo em seco.
— Você está falando sério?
— Estou! Eu não aguento mais essa vida. Depois que te conheci, percebi que podemos crescer juntos. Que podemos ser quem quisermos ser. Você é minha vida, e eu te amo.
Estou com raiva de mim. Estou com raiva de Dante. Ele precisa ser preso.
— Leandro? Como você pode me pedir isso? E Heitor? Você deixará Dante sair impune?
— Eu acredito que a justiça tarda, mas não falha. Mas eu te quero sã e salva do meu lado.
— Leandro, descansa. Você não está bem!
Ele bufa:
— Não, não estou, mas nunca falei tão sério em toda a minha vida. Vem para cá. O seu lugar é ao meu lado.
— Não posso. Tenho certeza de que vou conseguir descobrir algo importante.
Leandro diz impaciente:
— Meu Deus! Você já fez a sua parte. Dante teve muitas baixas. Oito homens ao todo.
— Leandro, quero que saiba que eu te amo, mas não da maneira que espera de mim. É tentadora sua oferta, mas vou esperar um pouco mais. Vocês enfraqueceram-no. Uma hora ele vai colocar os pés pelas mãos.
— Por Deus, Isabela! Saia daí, por favor.
— Vou desligar. Eu prometo que irei me cuidar.
— Isabela..
Desligo o celular.