O apartamento estava escuro quando Marco entrou, mas ele não acendeu as luzes. Fechou a porta com força e ficou ali por um instante, encostado, o peito subindo devagar. As sombras do lugar combinavam com a sensação que ele carregava: tudo o que era sólido agora parecia instável. Deu alguns passos até o sofá e caiu sobre ele. O couro rangeu, mas ele não ouviu o som. Estava em outro lugar. "Tire as mãos da minha mãe!" A frase ecoou outra vez. Clara. Infantil. Furiosa. Marco fechou os olhos. Não era só a frase. Era o tom. Era o jeito como o garoto se jogara sobre ele com aquele olhar cheio de raiva e coragem. O mesmo olhar que Marco lembrava de ver no espelho aos sete anos de idade. O mesmo olhar que fazia seus homens abaixarem a cabeça. Aquele menino… Luca. Portinari. Sete anos.

