Capítulo 7

1051 Words
O apartamento estava em silêncio. Lá fora, Nova York pulsava como sempre — luzes, buzinas, vida. Mas dentro do banheiro de mármore e vidro, Eva mergulhava no que poderia ser chamado de preparo… ou guerra. A banheira estava cheia. A água quente cobria seu corpo, vapor subia até os espelhos e a pele parecia derreter em calma — por fora. Por dentro, ela estava em combustão. Fechou os olhos e se deixou afundar, até que apenas o nariz ficasse para fora da água. Um suspiro escapou. Seus pensamentos, no entanto, giravam velozes. Marco quer brincar? Ótimo. Que venha o jogo. A caixa. A ausência dele por dias. O convite frio. Ele estava provocando. Mexendo com ela como se ainda tivesse domínio sobre seu corpo… ou sua mente. Mas ela não era mais a mesma. Não seria manipulada. Seria imperdoável. Seria irresistível. Saiu da banheira com calma, secando o corpo com gestos precisos. Cada detalhe daquela noite seria calculado. Ela o faria se contorcer por dentro sem sequer tocá-lo. Caminhou nua até o closet, os cabelos ainda pingando nos ombros. O vestido escolhido já estava separado desde o almoço — um preto longo de alcinha fina, justo até a cintura, com uma f***a escandalosa que subia muito acima do joelho. Vestiu-se com cuidado. Cada movimento refletia intenção. No espelho, testou olhares. Corrigiu a postura. Encolheu os ombros e depois ergueu o queixo. Ela precisava parecer confiante. Mas mais do que isso — intocável. Sentou-se à penteadeira e começou a maquiagem com mãos firmes. Os olhos contornados em preto. Lábios carnudos pintados de vinho escuro. Um toque de brilho no rosto. O resultado era perigoso. Sedutora. Fria. Letal. Por fim, pegou a fita de cetim preta. A mesma que Marco usava para vendar seus olhos há sete anos. A mesma que ele viu em sua boca antes de fazer promessas que não cumpriu. Aquela fita tinha história. E agora teria um novo papel. Não sobre seus olhos, mas sobre sua garganta. Amarrou-a com um nó firme e lento. Um laço simples. Um símbolo claro. Ela sorriu para o espelho, satisfeita. — Vai lembrar, Marco — murmurou. — Vai ver isso e se perguntar se eu trouxe os outros brinquedos também. Talvez eu tenha… Ou talvez você nunca saiba. Ela virou-se de lado, conferindo o caimento da f***a. Suas pernas longas ganhavam destaque a cada passo. O vestido abraçava suas curvas, mas era o olhar — gelado, calculado — que completava o quadro. Pegou a clutch discreta e o celular. Nada mais. Não precisava de defesa. Ela era a arma. No elevador, sentiu o olhar do funcionário da portaria subir por seu corpo como um toque. Não era novidade. Desde que chegara à cidade, homens a olhavam assim. Mas hoje… hoje ela só queria um olhar. O dele. Ao atravessar o saguão do hotel, os saltos ecoaram com autoridade. Cabeças se viraram. Homens a seguiram com os olhos. Mas Eva não se importava. Marco Santini era o único olhar que ela queria sentir queimando em sua pele. E ela o faria queimar. O motorista já a esperava na entrada com um dos carros pretos da Santini Enterprise. Ao abrir a porta, sequer ousou encará-la por mais de dois segundos. Eva entrou com a cabeça erguida, as costas retas, e cruzou as pernas com lentidão. Enquanto o carro deslizava pelas ruas de Manhattan, ela tocava o cetim em volta do pescoço. O gesto era quase inconsciente. Mas seu pensamento era nítido. Você começou esse jogo, Marco… Agora veja se consegue sobreviver quando a presa vira caçadora. Oito em ponto. A batida na porta foi firme, precisa, quase arrogante. Marco ergueu os olhos do relatório aberto sobre a mesa. Não precisava olhar o relógio. Ele sabia a hora. Estava esperando. — Entre. — Sua voz saiu baixa, rouca, autoritária. Como sempre. Mas nada no mundo o preparou para a visão que entrou em sua sala. Eva. Ou melhor, Ive, como ela insistia em ser chamada agora. Mas para ele, naquele instante, só existia Eva Portinari. O ar pareceu rarefeito. O vestido preto deslizava sobre o corpo dela como uma segunda pele. A f***a alta deixava a mostra as pernas que ele conhecia tão bem. Os ombros nus. O cabelo preso em um coque elegante. O rosto maquiado com perfeição. Mas foi o cetim preto amarrado no pescoço que fez Marco engolir em seco. O nó era simples. Mas o significado… cortava como navalha. A fita. A mesma que ele usava para vendar os olhos dela. A mesma que ela usava agora, como um troféu. Um recado. Um desafio. Marco se levantou num salto. Como se o corpo agisse antes da mente. Como se fosse preciso apenas um passo para atravessar aquela mesa e prendê-la contra a parede. Eva, no entanto, sorriu. Um sorriso afiado. Calculado. Triunfante. Caminhou com elegância até ele e estendeu a mão, a voz doce e profissional: — Senhor Santini. Espero que não se importe com minha roupa. Tenho planos para mais tarde. Planos. Marco repetiu a palavra mentalmente como se ela fosse veneno na língua. Planos. Com quem? A imagem surgiu sem que ele pudesse impedir: Eva. Deitada. Vendada. Algemada. Gemendo. Mas não por ele. Um soco no estômago. Cada músculo do seu corpo ficou tenso. Os punhos se fecharam. Ela estava provocando. Jogando. E jogando muito bem. Eva fingiu não notar. Mas por dentro, saboreava cada reação. Abriu a bolsa com tranquilidade e tirou um pequeno pendrive. O gesto era casual. Quase inocente. — Os planos iniciais estão aqui — disse, estendendo o objeto. — Caso queira discutir. Marco queria jogá-lo na parede. Queria saber com quem ela pretendia sair, vestida daquele jeito. Queria arrancar aquele laço do pescoço dela com os dentes. Mas não fez nada. Pegou o pendrive com os dedos firmes e, em silêncio, conectou ao computador. A tela acendeu com os primeiros esboços do projeto. Linhas, cálculos, arte. Mas ele não conseguia focar em nada. Sentou-se lentamente, os olhos ainda cravados nela. Eva fez o mesmo. Sentou-se do outro lado da mesa com a postura de uma rainha. Cruzou as pernas com calma, ajeitou o cabelo atrás da orelha. Sorria. Sabia. Ela sabia. Dessa vez, se havia um vencedor naquela sala, não era Marco. E ela fazia questão de deixar isso claro.
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