O apartamento estava em silêncio.
Lá fora, Nova York pulsava como sempre — luzes, buzinas, vida.
Mas dentro do banheiro de mármore e vidro, Eva mergulhava no que poderia ser chamado de preparo… ou guerra.
A banheira estava cheia. A água quente cobria seu corpo, vapor subia até os espelhos e a pele parecia derreter em calma — por fora.
Por dentro, ela estava em combustão.
Fechou os olhos e se deixou afundar, até que apenas o nariz ficasse para fora da água. Um suspiro escapou. Seus pensamentos, no entanto, giravam velozes.
Marco quer brincar? Ótimo. Que venha o jogo.
A caixa. A ausência dele por dias. O convite frio.
Ele estava provocando. Mexendo com ela como se ainda tivesse domínio sobre seu corpo… ou sua mente.
Mas ela não era mais a mesma.
Não seria manipulada.
Seria imperdoável.
Seria irresistível.
Saiu da banheira com calma, secando o corpo com gestos precisos.
Cada detalhe daquela noite seria calculado. Ela o faria se contorcer por dentro sem sequer tocá-lo.
Caminhou nua até o closet, os cabelos ainda pingando nos ombros.
O vestido escolhido já estava separado desde o almoço — um preto longo de alcinha fina, justo até a cintura, com uma f***a escandalosa que subia muito acima do joelho.
Vestiu-se com cuidado. Cada movimento refletia intenção.
No espelho, testou olhares. Corrigiu a postura. Encolheu os ombros e depois ergueu o queixo.
Ela precisava parecer confiante. Mas mais do que isso — intocável.
Sentou-se à penteadeira e começou a maquiagem com mãos firmes.
Os olhos contornados em preto. Lábios carnudos pintados de vinho escuro. Um toque de brilho no rosto.
O resultado era perigoso.
Sedutora. Fria. Letal.
Por fim, pegou a fita de cetim preta.
A mesma que Marco usava para vendar seus olhos há sete anos.
A mesma que ele viu em sua boca antes de fazer promessas que não cumpriu.
Aquela fita tinha história.
E agora teria um novo papel.
Não sobre seus olhos, mas sobre sua garganta.
Amarrou-a com um nó firme e lento.
Um laço simples. Um símbolo claro.
Ela sorriu para o espelho, satisfeita.
— Vai lembrar, Marco — murmurou. — Vai ver isso e se perguntar se eu trouxe os outros brinquedos também.
Talvez eu tenha…
Ou talvez você nunca saiba.
Ela virou-se de lado, conferindo o caimento da f***a. Suas pernas longas ganhavam destaque a cada passo. O vestido abraçava suas curvas, mas era o olhar — gelado, calculado — que completava o quadro.
Pegou a clutch discreta e o celular.
Nada mais.
Não precisava de defesa.
Ela era a arma.
No elevador, sentiu o olhar do funcionário da portaria subir por seu corpo como um toque. Não era novidade. Desde que chegara à cidade, homens a olhavam assim.
Mas hoje… hoje ela só queria um olhar.
O dele.
Ao atravessar o saguão do hotel, os saltos ecoaram com autoridade. Cabeças se viraram. Homens a seguiram com os olhos.
Mas Eva não se importava.
Marco Santini era o único olhar que ela queria sentir queimando em sua pele.
E ela o faria queimar.
O motorista já a esperava na entrada com um dos carros pretos da Santini Enterprise. Ao abrir a porta, sequer ousou encará-la por mais de dois segundos.
Eva entrou com a cabeça erguida, as costas retas, e cruzou as pernas com lentidão.
Enquanto o carro deslizava pelas ruas de Manhattan, ela tocava o cetim em volta do pescoço. O gesto era quase inconsciente.
Mas seu pensamento era nítido.
Você começou esse jogo, Marco… Agora veja se consegue sobreviver quando a presa vira caçadora.
Oito em ponto.
A batida na porta foi firme, precisa, quase arrogante.
Marco ergueu os olhos do relatório aberto sobre a mesa.
Não precisava olhar o relógio. Ele sabia a hora. Estava esperando.
— Entre. — Sua voz saiu baixa, rouca, autoritária. Como sempre.
Mas nada no mundo o preparou para a visão que entrou em sua sala.
Eva.
Ou melhor, Ive, como ela insistia em ser chamada agora.
Mas para ele, naquele instante, só existia Eva Portinari.
O ar pareceu rarefeito.
O vestido preto deslizava sobre o corpo dela como uma segunda pele.
A f***a alta deixava a mostra as pernas que ele conhecia tão bem. Os ombros nus. O cabelo preso em um coque elegante. O rosto maquiado com perfeição.
Mas foi o cetim preto amarrado no pescoço que fez Marco engolir em seco.
O nó era simples. Mas o significado… cortava como navalha.
A fita.
A mesma que ele usava para vendar os olhos dela.
A mesma que ela usava agora, como um troféu. Um recado. Um desafio.
Marco se levantou num salto. Como se o corpo agisse antes da mente.
Como se fosse preciso apenas um passo para atravessar aquela mesa e prendê-la contra a parede.
Eva, no entanto, sorriu.
Um sorriso afiado.
Calculado.
Triunfante.
Caminhou com elegância até ele e estendeu a mão, a voz doce e profissional:
— Senhor Santini. Espero que não se importe com minha roupa. Tenho planos para mais tarde.
Planos.
Marco repetiu a palavra mentalmente como se ela fosse veneno na língua.
Planos.
Com quem?
A imagem surgiu sem que ele pudesse impedir:
Eva. Deitada. Vendada. Algemada. Gemendo. Mas não por ele.
Um soco no estômago.
Cada músculo do seu corpo ficou tenso. Os punhos se fecharam.
Ela estava provocando. Jogando.
E jogando muito bem.
Eva fingiu não notar. Mas por dentro, saboreava cada reação.
Abriu a bolsa com tranquilidade e tirou um pequeno pendrive.
O gesto era casual. Quase inocente.
— Os planos iniciais estão aqui — disse, estendendo o objeto. — Caso queira discutir.
Marco queria jogá-lo na parede.
Queria saber com quem ela pretendia sair, vestida daquele jeito.
Queria arrancar aquele laço do pescoço dela com os dentes.
Mas não fez nada.
Pegou o pendrive com os dedos firmes e, em silêncio, conectou ao computador.
A tela acendeu com os primeiros esboços do projeto.
Linhas, cálculos, arte.
Mas ele não conseguia focar em nada.
Sentou-se lentamente, os olhos ainda cravados nela.
Eva fez o mesmo.
Sentou-se do outro lado da mesa com a postura de uma rainha.
Cruzou as pernas com calma, ajeitou o cabelo atrás da orelha.
Sorria.
Sabia.
Ela sabia.
Dessa vez, se havia um vencedor naquela sala, não era Marco.
E ela fazia questão de deixar isso claro.