capítulo 03 - Luna

1659 Words
Luna narrando capítulo 03 O sinal da última aula m*l tinha batido e eu já tava recolhendo minhas coisas às pressas. Helena ainda falava alguma coisa sobre um trabalho em grupo, mas a minha cabeça tava em outro lugar ou em alguém, pra ser mais exata. - Ei, espera aí, doida. Ela riu, tentando me alcançar enquanto eu descia as escadas quase correndo. -Que foi? Tá fugindo de quem? -Da minha própria cabeça. murmurei, ajustando a alça da bolsa no ombro. Do lado de fora, o calor me acertou como um tapa. O sol se escondia atrás dos prédios, tingindo o céu de laranja, e eu só queria chegar logo no carro antes que alguém percebesse o quanto minhas mãos tremiam. No portão, tia Joyce já esperava, como sempre. Blusa simples, calça jeans, cabelo preso e aquele olhar que dispensava palavras. Ao lado dela, dois "alunos" que ninguém desconfiava de nada mochilas no ombro, fones no ouvido ,mas eu sabia bem. Eram seguranças. Do meu pai. Disfarçados, mas atentos a cada movimento. - Tá atrasada, meninas. tia Joyce falou assim que me viu, o tom calmo, mas o olhar firme. -O chefe já mandou mensagem perguntando se tu tinha saído.Suspirei. - Tô aqui, viva e inteira. Pode avisar pra ele relaxar. Ela arqueou uma sobrancelha, divertida. - Teu pai, relaxar? Essa palavra não existe no vocabulário dele.Helena chegou logo atrás, rindo sem fôlego. - Mãe, essa menina tá fugindo de mim desde a sala. - E tu tava enrolando porquê? tia Joyce perguntou, e ela riu . - Nossa que vê assim tem polícia atrás da gente. ela soltou sem pensar , tia Joyce só deu uma encarada nela .Enquanto caminhávamos até o carro preto parado do outro lado da rua, um dos seguranças se adiantou. Ele abriu a porta, observando em volta com olhar treinado. Nada passava despercebido. O outro ficou um pouco pra trás, de olho em quem entrava e saía pelo portão. -Eu ainda acho meio surreal tudo isso . murmurrei baixo. - Parece cena de filme . Nem precisa disso tudo. - É a vida real de quem mora em comunidade e tem que ta vindo na pista buscar duas dondocas .Tia Joyce falou meia amarga. - E, sinceramente, nem sempre é um filme bom. me lançou um olhar rápido pelo retrovisor . -Pode até ser tia , mas as vezes acho que meu pai exagera , e a senhora tá caindo na mesma pilha dele , eu já sei dirigir podemos muito bem ir e vir sozinhas ... A senhora tá se arriscando atoa . - Não é atoa e por vocês! Luna? Tá estranha hoje. - Nada, só cansada. respondi rápido demais. Mas ela me conhece. -Cansada? sei ...Não esquece eu tô aqui pra vocês. Helena, do lado, mordeu o lábio pra não rir. - Aposto que começa com “pro” e termina com “fessor”. falou em sussurro. Encarei ela bem seria . - Cala a boca, Helena. falei baixinho empurrando o ombro dela de leve, mas o riso dela escapou alto. Tia Joyce me olhou novamente pelo retrovisor meio desconfiada. - Oque ces tão cochichando ai ? Espero que não seja o que tô pensando. -Não é nada demais. menti - Garotos. ela rebateu, firme, e o silêncio preencheu o carro por alguns segundos. ela negou com a cabeça rindo .- Eu já tive a idade de vocês, sou boba não, só toma cuidado já conversamos sobre isso . fiquei calada não tenho coragem de falar dele pra ela , mesmo sabendo que posso confiar. Lá fora, o trânsito se arrastava e o sol já sumia por trás dos prédios. Eu encostei a cabeça no vidro, tentando deixar o pensamento ir embora, mas não dava. O rosto dele voltava o tempo todo, o olhar, o toque, a voz. O jeito que ele disse “tenta focar” ainda ecoava no meu ouvido como se tivesse sido um segredo sussurrado só pra mim. -Luna. tia Joyce me chamou. - Teu pai quer falar contigo mais tarde, tá? - Sobre o quê? -Disse que é assunto de família. Meu estômago gelou. “Assunto de família” geralmente significava problemas no morro. Ou alguém que atravessou a linha. Ou, pior ainda, alguma operação nova. -Tá. murmurei. - Eu falo com ele. Helena me olhou de canto, preocupada. - Vai dar tudo certo. Assenti, mas por dentro eu sabia nada dava certo quando o perigo começava a se misturar com o desejo. E o meu já tava fora de controle.Nao e possível que ele já sabe do professor, meu pai sempre dá um jeito de ter olhos por todo lugar, nem que isso custe uma fortuna do bolso dele. O carro subiu pelas vielas do Cruzeiro, e o mundo começou a mudar de novo. A faculdade, o perfume do professor, as paredes brancas e silenciosas ficaram pra trás. Agora o som era outro , funk ecoando de longe, cheiro de churrasco, risadas misturadas com passos apressados. Aqui de cima, a vista e linda, mas o coração bate pesado. Eu sabia que tava me aproximando de casa, mas a cabeça ainda tava na sala de aula. No lápis que rolou até o pé dele. No toque que não devia ter acontecido. E no olhar que, por mais que eu tente evitar, já me prendeu de um jeito que nem o poder do meu pai é capaz de desfazer. O portão se abriu antes mesmo do carro parar direito. Vários caras do meu pai como sempre estavam lá, armados até o dente, fingindo normalidade. Tia Joyce trocou um olhar rápido com um deles, aquele tipo de comunicação muda que só quem vive nesse mundo entende. Assim que desci, o ar da tarde me acertou pesado. O morro já tava vivo , som de moto subindo, gente na laje, criança correndo, e o cheiro de café da tarde vindo da casa de alguém misturado com o da pólvora que nunca some completamente daqui. -Entra logo, Luna. tia Joyce avisou, com aquele tom que não deixava espaço pra discussão. Obedeci. As paredes da minha casa são grossas, o suficiente pra esconder conversas e gritos. Cresci ouvindo os dois. A rua pode ser barulhenta, mas o verdadeiro ruído mora dentro dessas paredes. Subi pro meu quarto, joguei a bolsa na cama e me olhei no espelho. Meus olhos ainda tinham aquele brilho i****a. De quem tava pensando em coisa errada. Em alguém errado. Me sentei, tentando distrair a cabeça, mas os minutos se arrastaram eu tava sem fome , sem vontade de nada . Peguei meu celular e fui procurar nas redes sociais . Tentei o nome e sobrenome dele e nada . Sera que ele e conservador demais pra ter rede social ? tentei por mais algum tempo e nada dele . Entrei no banho , minha mente me levou pra outro lugar ... minha mão deslizava pelo meu corpo com pensamentos que me faziam flutuar ... Me imaginei com ele me tocando , as veias saltadas , aquele olhar , aqueles labios ... - Isso só pode ser loucura da minha cabeça , preciso da minha terapia urgente. falei mais alto do que queria. Sai do banho coloquei uma roupa fresquinha e me joguei na cama sem ânimo , o sono batendo , mas não consegui relaxar . A pergunta que não queria calar , oque meu pai tem pra falar ,ultimamente ele m*l para em casa , chega e eu ja to dormindo , saio e ele ta dormindo ou sei la , as vezes nem em casa ele ta . As vezes eu só queria que as coisas voltassem como era antes . A hora passou que eu nem percebi , entre rede social e olhar pro teto perdida em meus pensamentos, o dia já tinha ido embora . Lá embaixo, ouvir o portão abrir de novo. Vozes.O som que fez o corpo inteiro gelar. Meu pai tinha chegado. Ouvi ele falando algo com os seguranças, a porta da sala bateu, depois o barulho de garrafas , ele sempre abri uma cerveja antes de qualquer conversa importante. -Luna! A voz dele cortou o ar. Alta, firme, sem paciência. Engoli seco. -Já desço! Olhei pra mim mesma uma última vez, tentando parecer calma, mas as mãos tremiam de novo.Desci devagar, degrau por degrau, até ver ele parado no meio da sala camiseta preta, tatuagens subindo pelo braço, olhar frio. O tipo de olhar que faz qualquer um pensar duas vezes antes de mentir. -Chegou bem? perguntou, sem sorriso. -Sim, pai. Ele fez um sinal pra eu sentar. -Recebi umas conversas estranhas hoje. começou ele, girando a tampinha da garrafa na mão. - dizendo que tem movimento diferente perto da faculdade. Meu coração disparou. -Movimento? repeti, fingindo calma. -É. Uns caras estranho rondando, gente que não é de lá. ele apoiou o cotovelo no apouo do sofa. - Quero que cê tome cuidado. E nada de ficar de bobeira pela faculdade entendeu? Assenti, tentando respirar. -Tá. isso tudo me sufoca as vezes . Mas ele não parecia satisfeito. -E tem outra coisa. a voz dele ficou mais baixa. - Eu tô conhecendo uma pessoa. Senti o sangue sumir do rosto. - Quem ? Ele me encarou por longos segundos, depois deu um sorriso pequeno. - Logo vou te apresentar ... ce vai gostar dela . - Posso subir agora ? ele me encarava avaliando meu descontentamento. - Você comeu ? - Tô sem fome . falei e virei as costas . - Luna! eu já tava no segundo degrau , virei devagar .- Nada vai mudar , eu nunca vou deixar de ser teu pai. Mas já tá na hora de... - Faz oque o senhor achar melhor , sempre foi assim desde que a mamãe se foi . não consegui controlar a voz embargada , subi correndo sem querer falar mas nada , muito menos escutar . Adicionem na biblioteca meus amores ....
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