Conforme seguia a voz do Henry mais coisas se passavam naquele quarto, não sei se o quarto era estranho ou era a casa ou era tudo.
-Henry....
Berrava por ele, precisava sair dali.
O dia amanheceu mais triste, claro, fazia tão pouco tempo que havia visto o corpo do meu pai completamente estardalhaço de baixo do guarda-roupa. Me sentia culpada pela morte dele, como não pude vê-lo em seu quarto?
Estava a caminho do velório em um total silêncio no carro de Joe. Ele não sabia o que falar, por isso o silêncio era nosso grande amigo naquele momento.
O mesmo parou o carro no farol que estava vermelho e se inclinou para ligar o rádio. Uma música que eu não havia identificado começou a tocar, foquei minha atenção na estrada quando de repente a estação de rádio trocou.
-Trocou de estação?-Perguntei sem fazer contato visual com Joe.
-Não!
A m*l que ocorre dentro de uma casa são por conta de vários fatores, muita das vezes, quando ocorre uma fatalidade é porque o espírito é obsessivo e já estava por lá durante um bom tempo. As vezes por pura ingenuidade da parte de nós, seres humanos, convidamos esses espíritos para entrar em nossa residência na brincadeira, as vezes por descuido.
O farol se abriu e Joe seguiu a viagem. A rádio trocou de estação sozinho novamente, porém estava fazendo muito chiado, a música tocava porém os chiados eram mais nítidos.
Ele vai vim te pegar!
-Você ouviu o mesmo que eu?-Senti muito peso na minha nuca, minha respiração estava falha.
-Ouviu o que?
Joe só podia está de brincadeira comigo, eu ouvi nitidamente.
O radio continuava a chiar, Joe me encarava sem entender nada.
-Cuidado!-Virei o volante do carro para a esquerda!, ele estava preste a bater em um caminhão.
Batemos com tudo em uma árvore, por conta de eu está sem cinto, bati minha cabeça no painel do carro.
Mesmo com a dor eu consegui me levantar e sai do carro. Estava sangrando um pouco na testa. Dei três passos e tropecei em meus pés. Joe veio atrás de mim rapidamente, ele queria saber se estava tudo bem.
-Por favor, só me leva ao velório do meu pai.-Pedi em um sussurro.
●●●
O caixão permaneceu fechado durante todo o funeral, havia uma foto muito bonita do meu pai sobre seu caixão e um mural que fizeram com diversas fotos dele com os parentes mais próximos.
-Bonita corrente!-Alexandra, uma prima que eu m*l conversava dirigiu a palavra a mim.
-Ah, obrigada!-Agradeci.-Tenho que ir ao banheiro.-Disse, não estava afim de conversar com ela.
-Quem te deu essa corrente?-A mesma me segurou pelo braço antes que eu pensasse em sair.
-Meu pai estava usando ela quando morreu!-Puxei meu braço contra meu corpo.-Agora se me permite.-Sai andando para bem longe dela.
-Amor?-Senti Joe atrás de mim.-O que ela te disse?
-Só elogiou minha corrente, não estava afim de falar com ela então me retirei. Preciso ir para o banheiro, procura um lugar para a gente se sentar quando a cerimônia começar!-Pedi.
-Tem certeza que quer ficar sozinha?
-Tenho!-Confirmei.
Entrando no banheiro, encarei meu reflexo do espelho, até pensei que a batida de hoje mais cedo iria me deixar com cicatriz. Abri a torneira e lavei meu resto, estava morrendo de calor. Ao voltar para minha posição ereta e me encarar no espelho, meu coração gelou e minhas pernas perderam o próprio movimento.
Eu me vi atrás de mim me encarando enquanto eu me olhava no espelho. Com um movimento cautelosos, virei meu pescoço para que eu olhasse para trás, não havia nada.
-Deve ser por conta da noite m*l dormida.-Sussurei para mim mesma.-Tenho apenas vinte anos para surtar, ou seja, muito nova!-Só então voltei a olhar o espelho.
Meu reflexo estava normal, agradeci mentalmente, fechei a torneira e ao olhar meu reflexo, pude notar que ele estava totalmente paralisado. Ao ergue meu braço por puro desespero, aquilo saiu do espelho e me atravessou!
Comecei a ouvir diversos zumbidos, e vozes! Parecia que minha cabeça ia explodir. Via vultos e ouvia uma voz completamente tenebrosa saindo de dentro de mim, minha visão era embaçada e confusa.
Quando voltei a minha realidade, olhei para o chão daquele banheiro e notei que estava cheio de sangue, foi instantâneo, comecei a vomitar. Para não sujar mais do que já estava sujo aquele chão, me dirigi a um dos banheiros, ao tentar abrir a porta, senti que havia algo atrapalhando a a******a da porta. Por fim, quando consegui abri a porta vi que esse "algo" era Alexandra morta, com a cabeça enfiada na privada, aquele sangue todo no chão só podia ser dela. Foi instantâneo, vomitei mais e mais, sobre o corpo da minha prima.
Não faço a menor ideia de como cheguei na minha casa, estava muito zonza. Era como se eu estivesse muito bêbada, eu sentia muito calor e um grande peso na minha nuca, minha última recordação antes de ficar daquele estado era ter entrado no banheiro.
Joe caminhava com seus dedos entrelaçados aos meus, soltei a mão do mais velho para procurar minhas chaves para abri o portão de casa. Minhas mãos tremiam de forma inexplicável.
-Abre o portão por favor?-Lhe perguntei já esticando minha mão com a chave em sua direção.
-Claro, Bianca!-Ele pegou as chaves de minhas mãos.
Ao abrir o portão da minha casa ele passou seu braço em volta do meu corpo para me guiar!, não que eu precisasse, mas ele estava bastante preocupado.
Quando paramos em frente da porta, pude notar uma certa movimentação diferente, olhei para Joe bastante desconfiada e em seguida empurrei a porta.
Na sala de casa estava minha mãe com seu marido e meu irmão com sua namorada. Agradeci mentalmente por nenhum parente intrometido ter se oferecido para consolar meu irmão e eu.
-Precisamos conversar!-A mais velha se levantou do sofá e fez sinal para que eu me sentasse nele.
-Posso tomar um banho antes?-Lhe perguntei tentando ao máximo não me exaltar.
-Vai lá!
Olhei para o Joe uma última vez, sabia que com minha mãe ali ele não iria vim atrás de mim no meu quarto.
Peguei um pijama de frio e o deixei separado sobre minha cama, peguei minha toalha e segui para o banheiro. Liguei a torneira para deixar a banheira enchendo e resolvi escovar meus dentes antes mesmo de começar meu banho, minha boca estava com gosto r**m. Notando que a banheira estava quase cheia desliguei a torneira e me despi.
Ao entrar na banheira me sentei e fechei meus olhos, lembranças do meu pai veio a tona, coloquei minha mão direita sobre a corrente que ele usava quando morreu. Uma lágrima involuntária escorreu de meus olhos, me escolhi ainda mais naquela banheira e desabei de tanto chorar. Ao botar minha mão sobre a corrente novamente, vi flashs em minha cabeça porém nada muito nítido. Mergulhei meu corpo por completo na banheira e segurei minha respiração, queria saber se eu era tão corajosa ao ponto de morrer afogada, a resposta é não!
Resolvi não enrolar muito no banho, eu só queria um tempo sozinha para chorar em paz. Me levantei da banheira e me enrolei na toalha, soltei meu cabelo do r**o de cavalo e ao passar em frente do espelho pude perceber que o mesmo estava embaçado, nem fiz questão de me olhar no espelho, eu deveria estar só o pó. Por algum motivo que eu não sei, também estava com medo de me olhar no espelho.
Me dirigi ao meu quarto e coloquei o pijama que havia separado, enfim, pronta para saber o que minha mãe queria falar comigo.
Ao chegar na sala pude sentir os olhares de piedade sobre mim, respirei fundo e só então me sentei no sofá ao lado de Joe.
-Você e seu irmão não podem morar aqui sozinhos!-E ela começou com a falsa preocupação dela.
-O que me sugere?-A encarei sem nenhuma emoção.
-Como seu irmão e Diane trabalham, eu pensei que você pudesse vim morar comigo e o Marcel. Deixa essa casa para que Landon construa sua família!
-Isso é uma piada? Desculpa, mas descordo! Digo ao contrário de você!-Me levantei do sofá.- Como ele trabalha e sua querida namoradinha também, ambos tem dinheiro o suficiente para pagar um aluguel! Eu não vou aceitar que você me tire da minha casa para que essa aproveitadora metida a virgem Maria venha morar aqui.-Minha voz saiu grossa, e eu pude sentir meu corpo gelar e meu coração acelerar.
-Calma minha filha!-Ela veio se aproximar de mim.-Só quero me aproximar de você!
-Quer se aproximar de mim? Venha morar aqui!-Não faço ideia o do porquê que eu sugeri aquilo, a gente nem se dava bem.
Ela sorriu bastante calorosa, mas é claro. Ela morou aqui durante o tempo que era casada com meu pai, depois que se separou e se casou com Marcel, ambos passaram a pagar aluguel em um apartamento simples. Morar ali para ela seria apenas lucro já que não estaria mais pagando aluguel, para mim, seria apenas o início de um pesadelo.
Havia trocado a noite pelo dia, havia evitado sair do meu quarto para não ter que tolerar certas situações decorrente do dia a dia. Havia praticamente desistido de mim naquela uma semana.
Ouvi um barulho de porta se abrindo, aquilo me assustou bastante pois me lembrava a fatalidade de dias atrás. Meu coração acelerou mais rápido e minha boca secou.
-Filha?
Dei um salto da cama por conta do susto. Eu não era daquele jeito, sinto que depois daquela noite que meu pai morreu eu simplesmente deixei de ser eu.
-Oi?-Sussurrei mais para dentro do que para fora.
-Estou indo para missa de sétimo dia do seu pai, depois vamos comer alguma coisa fora. Por que você não vem com a gente?
-Quem vai?-Perguntei só para fingir que pensava em ir, eu não estava afim de sair com eles.
-Ah, as mesmas pessoas de sempre. Marcel, Landon, a tia Dakota e Diane.
-Estou de boa!-Lhe respondi.-Alguma notícia sobre Alexandra? Mando mensagem para ela porém ela não retorna.
-Eu não a vi desde o velório do seu pai.-Minha mãe completou.-Tenta mandar mensagem de novo, ela pode te indicar para trabalhar lá.
-Tanto faz.
-Certeza que não quer ir?
-Tenho, eu estou com muito m*l estar! Vou tomar um remédio e ir dormi!
Minha mãe apenas se despediu de mim com um beijo no rosto, quando eles saíram me levantei e fechei todas as portas com chaves e deixei as luzes acesa. No meu quarto eu apaguei, apenas deixando a luz do abajur acesa e a porta do meu quarto aberta para que as luzes do corredor o iluminasse.
Me enrolei no cobertor e fiz minha oração mentalmente, relaxei o meu corpo e finalmente dormi.
Uma certa angústia percorria todo meu eu, me virava de um lado para o outro da cama. Era como se eu não tivesse que estar ali, o que me fez acordar completamente desesperada.
Me levantei da cama com muita leveza, era como se todo o peso tivesse ficado na cama. Sai do meu quarto e as luzes que eu havia deixado acesas estavam todas apagadas, concluí que todos de casa já deveriam ter chegado porém ao olhar o relógio na parede do corredor percebi que havia feito apenas quatro minutos que minha mãe havia saído de casa, estranhei por completo.
Vi de relance um vulto entrando no antigo quarto do meu pai que agora era o quarto da minha mãe, segui aquilo o mais rápido que pude e ao entrar no quarto dele não tinha nada. Por fim resolvi sai dali o mais rápido, ao sair do seu quarto me dei de cara o mesmo. Me paralisei por completo, não conseguia descrever o que eu sentia. Me aproximei dele é só então consegui dizer.
-Me desculpa por não ter te valorizado enquanto estava vivo.-Coloquei minhas duas mãos sobre o rosto dele. Enquanto isso, eu olhava o fundo do seus olhos, eles me hipinotizavam.
Em questão de segundos, seus olhos que eram claros ficaram completamente escuros. No intuito de remover minhas mãos sobre o rosto dele, elas haviam ficado grudada em seu rosto, conforme eu a puxava saia pedaços do resto dele.
-Socorro!-Por fim gritei, alguém tinha que me ouvir.
Meu vizinho havia adentrado na minha casa, nesse momento o meu pai sumiu. Ele passou por mim e fingiu que não me viu, acho que ele havia entrado em casa para roubar, não havia lógica alguma, ele nem tinha a chave de casa.
-O que você está fazendo aqui?-Caminhava atrás dele que seguia até o quarto do meu irmão, não obtive resposta alguma.
Ao adentrar no quarto do meu irmão senti que ele havia ficado paralisado, resolvi também adentrar ali. Para a surpresa dele, eu também havia ficado paralisada. Eu me vi segurando a cobra de estimação do meu irmão em mãos, não podia acreditar o que estava vendo, eu estava a mastigar a cabeça daquele animal tão asqueroso.
-Para com isso!-ele se dirigiu até a mim.
Com alguma força inexplicável, aquele meu eu empurrou o vizinho contra a parede, o que fez o mesmo cair de costas para o chão, em seguida ficou sobre o corpo dele caído, pegou a cobra que estava em mãos e enfiou garganta a baixo.
Ele urrava de dor como um pedido de piedade ou socorro, em seguida me vi nitidamente me levantando sobre o corpo do rapaz e pegando o aquário onde habitava aquela cobra, aquilo pesava mais de vinte kilos, levantei para o alto e joguei sobre a cabeça do meu vizinho, a esmagando na hora.
Era tudo bastante confuso na minha cabeça, só me lembrava de ter ficado sozinha em casa enquanto os outros haviam ido para missa de sétimo dia do meu pai. Ao abrir meus olhos percebi que estava em um quarto diferente do meu.
-Filha?-Minha mãe se aproximou mais da cama onde eu estava.
-O que aconteceu? Onde estou?-Olhava em toda minha volta para ver se reconhecia aquele quarto, a resposta era não.-Cadê Joe?
-Filha, quando chegamos em casa você estava desacordada no jardim completamente suja de terra! Por um momento pensei que havia perdido você, sua pele estava completamente pálida e fria. Você está na emergência de um hospital. Seu irmão ligou para Joe que já deve está a caminho. Você adormeceu dessa forma por conta dos medicamentos. Também estamos a espera de alguns exames neurológicos e de sangue.-Ela segurou minha mão em um gesto amigável.-Eu sei que não está sendo fácil...
-Se você realmente soubesse não teria saído de casa para ir na missa e depois na certa parou para beber em algum lugar para comemorar os sete dias em que você resolveu possuir a casa do meu pai.-Respondi m*l criada.
Quando minha mãe pensou em abrir a boca, foi interrompida com o barulho da porta. Um senhor vestido de jaleco adentrou o quarto, se apresentou para mim como doutor Mezzon. Ele segurava alguns papéis em mãos.
-São os resultados dos exames, doutor?-Minha mãe arqueou uma das sobrancelhas.
-Sim, Alice!-O mesmo a encarou e em seguida voltou sua atenção para mim.
-O que eu tenho doutor?-O medo era evidente em minha voz, eu tinha inúmeras paranóias, uma delas era descobrir uma doença muito grave e minha família não ter dinheiro para pagar um tratamento adequado e por fim eu acabar vegetando sobre uma cama até a morte.
-Não é nada de grave!-Ele entregou o resultado daquele exame para que eu olhasse.-Mas a senhorita precisa se cuidar mais! Afinal, você está gerando uma outra vida e se não tomar certos cuidados pode colocar sua vida como a do bebê em risco.
Fiquei em choque a partir do momento que ele falou gerando, vida e bebê. Deveria ser proibido dar notícia daquela forma. Quando ele saiu do quarto, fiquei mais aterrorizada ainda, algo me dizia que minha mãe ia mandar eu trancar minha faculdade ou falar sobre aborto.
-É do Joe?
-De quem mais seria? Do meu dedo que não!
Ficamos em total silêncio, não sabia o que dizer e estava sendo completamente grossa a pergunta s*******o da minha mãe. O silêncio só foi quebrado quando Joe adentrou aquele quarto.
O mesmo deu passos rápidos ate minha direção e beijou minha testa antes de depositar um selinho em meus lábios.
-Quando você vai poder ir embora?-A preocupação era bem nítida em sua voz.
-Quando mãe?-A encarei de canto de olho, ela estava completamente paralisada.-Mãe?
-Você deve ficar em observação até amanhã!-Ela se levantou da onde estava sentada e saiu do quarto me deixando sozinha com Joe.
-O que houve?-Joe acariciava minha mão enquanto procurava alguma resposta para o ocorrido.
-Eu não me lembro.-Era a mais pura verdade, não me lembrava de nada e estava com medo de contar para Joe que ele iria ser pai.
Ele tinha tudo planejado e eu não queria estragar seus planos para o futuro contando sobre uma gravidez que nem eu mesma sei se irei levar adiante.
-Preciso te contar uma surpresa.-Ele tinha o semblante completamente feliz, havia uma certa incerteza mas fora isso ele estava feliz.
-Então diga!-O incentivei, seja lá o que fosse eu iria o apoiar.
-Meu chefe me convidou para trabalhar em uma das filial que ele tem lá no Japão, não é incrível ?
-Muito!-Falei com total firmeza.-Quando vai ser?
-Daqui cinco dias!
-Quando ele te fez essa proposta?
-Há cerca de um mês atrás.-Ele não fez contato visual comigo.
-Nossa, que bacana.-Foi ali que eu resolvi esconder aquela gravidez.-Espero que você cresça bastante!
-Henry!
Gritei bem no fundo do meu pulmão, e aquela porta se abriu. Sai correndo e fui para os braços do meu namorado.
-O que você estava fazendo lá dentro?
-Eu não sei, esse lugar é muito esquisito.-Eu estava completamente eufórica.
-Como?
Henry arqueou uma de suas sobrancelhas e caminhou até a porta de onde eu havia acabado de sair.
-Não entre aí, você acredita em Deus? se não for por ele que seja por mim, não entre aí.
-Aqui não tem nada.