Samantha
— Eu já disse “não” três vezes.Devo dizer que estou sendo boazinha por causa do seu nível de álcool, mas quena quarta vez quebrarei sua cara.—Controlei-me para não bater no homem.Em algumas ocasiões, eu mesma causava esse tipo de inconveniente.
Quando Hoper, mais uma vez, estragando as minhas noites, convidou-me para um happyhour, achei que fosse uma boa ideia; não porque gostava de sair com estranhos, e sim por causa do outro inconveniente: Joseph Morson.
Depois que o vi pela primeira vez,após semanas de conversas, não conseguia parar de pensar nele e de sonhar com ele. Sinceramente, isso já aconteciaantesde eu o ver.Minha imaginação criativa já tinha idealizado um homem lindo e sexy, como aqueles de capas de revistas fúteis, contudo a realidade me jogou um balde de água fria.Ou melhor dizendo, fervendo. Ele não era apenas bonito, era lindo de morrer, com seus cabelos loiros bem cortados, uma barba que o deixava sério e muito sexy, e aqueles olhos que me engoliam na imensidão azul.Ficar sem ideia ou falar merda ficou natural até mesmo para mim, que gostava de pensar mil vezes antes de dizer algo.
Voltando ao momento atual, eu estava sendo perseguida por um dos colegas bêbados da minha amiga. Ele era bonito e até interessante, no entanto bêbado se tornavaum babaca que,inclusive, já tinha tentado me agarrar duas vezes.
Saí do bar, achando que iria me livrar dele, e ele me seguiu. Eu estava tentando arranjar um Uber, e o cara insistia em me acompanhar.
— Sei que está afim de mim.Seria apenas um...
— N-Ã-O!Ficou claro? — Franzi o cenho. — É sério.Saia da minha frente!Não vou t*****r com você.
Como se já não fosse bizarro estar com um bêbado em minha cola, um carro escuro parou bem na minha frente.Quando o vidro seabaixou, a imagem linda de Joseph me olhava,como se me perguntasse o que estava acontecendo.
— Precisa de uma carona? — Ele não demonstrava estar de bom humor, no entanto era melhor aceitar do que bater em um homem. Talvez fosse prejudicial a mim em algum nível.
Deixei o cara para trás e entrei no carro. Ele ainda tentou me impedir.Além de ser mais rápida, afastei-o com grosseria.
Bem na hora em que o veículo partiu e eu percebi a real situação em que me encontrava, assim como o seu olhar questionador, o lado meuque estava relaxado, sumiu.Fiquei nervosa.Era irritante me sentir assim.
Ele era um cara, um homem legal, meu amigo.Por que eu tinha que ficar tão mexida e ansiosa só por estar em suapresença?
—Obrigada por me salvar. —Dei um sorriso nervoso.
— O que estava acontecendo ali?
— Nada demais.
Ele me olhava como se fosse me dar uma bronca, mas eu sabia que não era isso. Na verdade, eu não sabia o que era.
Decidi mudar de assunto.
— Teve um péssimo dia de trabalho?
Era estranho conversar com ele tão de perto, eestar em um carro dirigido por outro alguém que eu não conhecia só tornava esse encontro mais perturbador.
— Nem tanto. —respondeu secamente.
O silêncio intrigante dominou a nossa não conversa, tornando-me ainda mais ansiosa.Eutinha noção de que se passava milhares de situações em sua cabeça, assim como na minha.
— Um encontro r**m? — questionou.
— Ai, meu Deus!Não! —neguei como se estivesse ofendida. — Nunca aceitaria sair com aquele idiota.E eu não vou a encontros.Esqueceu?
O clima se tornou mais do que estranho. Nós nos encarávamos e eu tentava entender o que ele pensava.De alguma forma, queria descobrir mais sobre mim e aquele homem.
É algum tipo de cobrança? Até parece um namorado ciumento.
Claro que não. Somos só amigos.
Devo confessar que pensar assim deixava o meu peito ainda mais agoniado.
—Me desculpe.Eu não tenho nada a ver com isso. — Desviou o seu olhar do meu. — Estou com um pouco de dor de cabeça e acabei de ter uma conversa desagradável com um amigo.
— Foi a conversa que lhe deu dor de cabeça?
— Não, mas a potencializou. — Ele sussurrou outra coisa que não consegui ouvir direito.
Conversarmos em salas separadas era até agradável. Eu não me sentia tão pressionada, ansiosa, e duvidando se algo em mim o agradava.O Joseph de antes era divertido, apesar de sério, compreendia a mim e não me cobrava. O homem com quem eu estava conversando naquele trajeto era mais curioso, exigente e irritado. O que não mudava em nada o que eujá sentia antes. Ele ainda era meu amigo. Um estranho amigo.
O pior de tudo foi descobrir o quanto éramos diferentes. Joseph Morson não era um simples homem que trabalhava para uma empresa qualquer, era o dono dela. Os Morson não são muito de aparecer na mídia, só o Cristophe, que era bastante inalcançável por mulheres como eu.Joseph era o chefe sério, reservado e muito ocupado com a petrolífera da família;estava sempre viajando e fazendo negócios com diversas pessoas de todo o planeta.A empresa lucrava tanto, que eles faziam parte da lista bem privilegiada dos bilionários, dos mais ricos do mundo.Sim, eu disse mundo.Os Estados Unidos era pouco para suprir esse requisito.
Imaginar que Joseph Morson era o mesmo homem com quem conversei sobre os meus mais obscuros sentimentos, era loucura.Sendo quem era, por que desejava tanto ser meu amigo, se poderia ter tudo que o dinheiro lhe desse?Eu erauma simples engenheira que tentava ser notada pelosmeus chefes babacas e todos os dias eram lutas para mim. Não podia ser a mulher de TPM, ou seria julgada, chegar atrasada ou errar um número sequer em meus cálculos, e meu salário era um centavo mais baixo do que os dos demais engenheiros só para distinguir os nossos sexos.
Eu não deveria aceitar tudo isso. Era capaz demais e inteligente.Contudo, sair de onde trabalhavahá tanto tempo me traria uma dor de cabeça, ainda mais sabendo que outras empresas como essa fariam o mesmo comigo, pois mulheres nem eram contratadas muitas vezes.
O carro parou, surpreendendo-me. Desde que coloquei os pés dentro dele, não disse onde morava, todavia estava na frente da casa de dois andares quedividia com Hoper.
—Falei o meu endereço sem perceber?
Joseph sorriu pela primeira vez na noite.
—Agora, que sabemos quem é um ao outro, eu me permiti buscar mais informações sobre você. E, sim, meu motorista, assim como eu, sabíamos onde você morava.
—É algo com que eu deva me preocupar? —Imaginei uma coisa queminha amiga me fez ver. — Tipo aquele cara da série, que investiga a moça até o fundo, se introduz na vida dela de formas inusitadas e, no fim, prende-a em uma caixa de vidro?
Até o motorista deu umas risadas.
Fiquei envergonhada pela analogia e curiosa.
— Não se preocupe, não sou um psicopata. Meu irmão me falou sobre você e sua amiga.
— Menos m*l. — Dei um sorriso amarelo antes de abrir a porta. — Sou bem inteligente.No fim, um de nós dois acabaria morto, e não seria eu.
— Jura? — Vi graça na sua pergunta. O que me tirou mais um sorriso.
— Às vezes me imagino em situações desse tipo e acabo achando uma saída para os meus problemas. A morte do meu adversário seria uma consequência.
Saí do veículo antes que continuasse a falar bobagens. Era por esse motivo que eu costumava optar por ser bem-humorada e fazer algumas piadas quando o clima pesava. Minhas noites nem sempre terminavam de maneira divertida, mas não por falta de esforço.
O lado de fora me deixou com frio, com saudade de estar dentro do automóvel, eum sentimento estranho tomou o meu peito, como se eu não quisesse que Joseph fosse embora tão cedo.
— Tenha uma boa noite, senhorita Still.
Meu coração acelerou.
— Boa noite, Joseph.
Subi os degraus, contando todos eles, com medo de cair. Eu me permitir ver o carro partindo e me deixando preocupada.
Você não deveria estar neste estado. Ele não é um cara qualquer, é seu amigo. Só seu amigo.
Senti meu celular vibrar eo peguei, achando que, enfim, era Hoper.Minha surpresa foi tanta, que a expressei em meu rosto. Joseph!
“Pelo visto, a sua noite foi tão conturbada quanto a minha. Acho melhor evitarmos uma repetição, saindo amanhã. O que acha?”
Terminei de ler a mensagem com um sorriso enorme na face. Eu tinha noção de que não deveria colocar lenha nas sensações estranhas que ele estava despertando em mim, porém achava difícil ficar longe disso.
“É uma excelente ideia. O que tem em mente?”
“Ainda não sei, mas esteja preparada para qualquer situação.”
***
Dizer que eu estava tranquila seria uma mentira.Passei a última noite toda pensando no que aconteceria no dia seguinte e refleti sobre muitas coisas, principalmente a respeito das minhas atitudes e reações perto de Joseph, achando-me ridícula.
Desde muito cedo aprendi a ser forte, edepois de tudo que me aconteceu, adotei uma postura mais dura e determinada. A qualparece estar sumindo cada vez mais, deixando-me vulnerável.Portanto, prometi a mim mesma, ao me levantar da cama, que seria essa pessoa e que não poderia deixar meu novo amigo cavar no meu peito um buraco maior do qual eu já tinha.Além disso,não precisava mudar quem era para ser aceita.
Achava que minha timidez e ansiedade fossem causadas pela minha insegurança, que tanto me perturbava.
Ao colocar os pés na empresa na qual trabalhava, respirei fundo e levantei a cabeça. Estava feliz, apesar do lugar onde estava, pois começaria o meu mais novo projeto. Sentia-me confiante, já que tinha passado quase um anocalculando-o, idealizando-o e o projetando. Seria uma inovação no mercado, pois não iríamos mais precisar importar ou comprar os microchips responsáveis por dar a vida às novas tecnologias modernas. O meu modelo era mais eficiente.Apesar do gasto em produzi-lo, ele tinha uma longa vida útil, armazenava dados e os conduzia em um sistema de comando muito mais rápido e eficiente do que os já produzidos por outras empresas.
Inicialmente,eu estava produzindo uma pequena quantidade dele e comprando a matéria-prima de outrolocal, mas, com o avanço do primeiro lote, usado nas nossas próprias tecnologias, pudemos expandir sua venda para as demais indústrias que trabalhavam com o produto.
Meu orgulho ia além por causa da sustentabilidade que busquei para o projetar. Toda nova tecnologia moderna usava recursos hídricos e materiais pesados em sua fabricação, e apesar do meu modelo não ser o mais ecologicamente correto do mundo, eu o idealizei para ser feito com metade dos recursos já usados nas outras produções.
Estava tão bem-humorada, que entrei na sala com um sorriso de orelha a orelha. O qualse desfez no mesmo instante em que vi Sebastian encostado em minha mesa, lendo os meus papéis.
— O que você está fazendo na minha sala? —perguntei grosseiramente e furiosa, pegando os papéis de sua mão. — Não estrague o meu dia.
— Estou aqui por causa do nosso projeto. —Ouvi tais palavras saírem de sua boca como se fossem um zumbido chato. Pensei que estivesse em um pesadelo maluco.
— O quê?!—questionei incrédula.
— Samantha, que bom que está aqui. — A voz i****a do meu chefe fez eume virar com urgência. Ele era responsável pela minha dor de cabeça. — Hoje começamos a produção de...
— O que Sebastian está fazendo aqui, dizendo que está no meu projeto? — Tentei não ser rude ou tão ríspida.
O tom da minha voz o fez parar e me olhar feio.
— Essa inovação é muito importante, senhorita Still. E como oSebastian é o líder do projeto no qualos microchips serão usados, achei justo ele se inteirar sobre o seu trabalho. — Tentei respirar fundo e me manter calma. Isso não poderia estragar o meu desempenho, nemmeu dia. — Espero que façam um bom trabalho juntos.— Saiuda sala, deixando-me com o i****a, babaca, que sempre dava um jeito de se meter nas minhas coisas.
— Você ouviu o homem.Espero que não...
— Se você se acha superior a mim, está enganado. — Virei-me com tanta agilidade e raiva, que ele se afastou. — Não sei até quando terei que suportar esta sua cara, mas espero que não me importune, nem tente se colocar dentro do meu projeto.