Não queria admitir, mas o momento era bom. Estava tendo uma conversa engraçada e interessante com alguém que não precisava de muito para me fazer rir. Tudo perfeito: a comida, o vinho e ele.
Em algumas partes dos nossosdiálogos, eu me pegava boba com tudo sobre ele, com o sorriso que não saía dos seus belos lábios, com o olhar determinado e com sua gentileza. Joseph era como um sonho do qual eu acordaria e veria que não era real.
Ao fim do nosso jantar, ainda passeamos pela imensa propriedade da sua casa reserva.Pensava que ele planejava ter uma grande família, com crianças correndo pelo jardim, ou fazendo piqueniques românticos.
Essa experiência me mostrou que eu não era tão forte e decidida quanto acreditava. Estava sempre me imaginando, até o dia anteriore mais cedo, saindo do trabalho e indo jantar com um amigo. Só que o futuro era incerto.Acabei pensando em mim, em uma casa como essa, com um homem com quem conversar, rir, e filhos correndo pelo lugar, irritando-me.
Não sonhe muito alto, mocinha. Você sabe que nunca vai acontecer. Primeiro: como pensa em ser mãe, se nunca teve uma? Seria um desastre, com certeza, e estragaria tudo. Depois... Acha mesmo que alguém se esforçaria tanto para a convencer a se casar e ter uma família? Sabemos muito bem que você não é fácil e que nenhum homem com planos tão sólidos, como Joseph, vai perder seu tempo tentando te conquistar.
— É, não vai mesmo. — concluí.
— O que disse? —ele me perguntou, trazendo o meu consciente à realidade e me fazendo perceber que me lamentei audivelmente.
—Ah...Acho melhor eu ir para casa.Ainda tenho que me preparar para amanhã. —falei nervosa, tanto por mentir, quanto por temer ter meus pensamentos deploráveis descobertos.
— O que terá amanhã?
— Bem...Meu projeto de microchips condutores está na linha de produção, e isso requer atenção extra, para o caso de algo sair errado.Sem falar na dor de cabeça queestá atrás de mim,um gavião invejoso.
— Sebastian?
Levantei uma das sobrancelhas com sua dedução. Eu já havia reclamado muito sobre o meu trabalho e dos idiotas que esperavam um deslize meu para roubar tudo que eu tinha, mas ainda era surpreendente saber que ele se lembrava dessas coisas.
— É.E isso requer paciência extra também. —lamentei.
— Sam...—Ele tocou em minha mão com carinho, causando em meu peito uma esquisita sensação de satisfação. Sua mãoera macia e quente.
Ele me deixou vermelha.Odiava quando meu rosto demonstrava o quanto eu estava gostando dele.
— Você é a pessoa mais inteligente e incrível que conheço. Sei que é o seu trabalho, mas quando isso afeta seu emocional e desempenho, deve ser tratado como um problema. Existem milhares de empresasque a valorizariam muito mais.Não precisa continuar em um emprego no qual se sinta m*l e sejamaltratada dessa forma.
— Está parecendo a Hoper agora. —ironizei. — Sei de tudo isso,porém assinei um contrato que, querendo ou não,iria me prejudicar se eu saísse agora.
— Que tipo de contrato?
Paramos no meio do jardim.Ele estava curioso e eu só queria me esquecer desse assunto, mesmo que tivesse que me lembrar disso no dia seguinte.
— Ele prejudica não só a mim, como também a eles.Fiz isso para proteger o meu patrimônio intelectual e trabalho. Tudo que eu criar durante o tempo em que estiver na empresa, cabe 50% para cada lado, a mim e a ela. Caso eu saia, tenho o direito de impedir que continuem a produzir o que eu fiz.Sei exatamente que sou uma formiga se comparada a eles, então,mesmo se eu conseguirganhar uma causa judicialmente, meu projeto, que custou muito tempo e dedicação, será colocado em uma gaveta e esquecido. E se eles ganharem, mesmoeu tendo assinado o papel, serei excluída, e aquilo ao que dediquei meu tempo, será usado para beneficiar os idiotas.
— É compreensível.Porém, se foi um acordo de 50%, você tem direitos comerciais sobre seu produto, eles querendo ou não, você estando ou não nessa empresa.
Respirei fundo, sabendo que, apesar de isso ser verdade, a única que sairia perdendo seria eu.
— Joseph, nem mesmo estando lá, sou reconhecida pelo meu trabalho.Acha mesmo que saindo seria colocada nos créditos? — Eu tinha certeza que não.Não tinha muito ao meu favor. — Chegará uma hora em que terei que sair.Eu sei disso.Só que agora não posso deixar tudo nas mãos daquele urubu de meia-tigela.
— Sam...—Ele estava pensativo e eu o olhei com aquela cara de quem dizia: “Nada do que disser, vai mudar esse fato”. — Você não está presa a eles e não vai sair perdendo. — Deixou-me confusa. — Tenho ótimos contatos.Sei que não devo me meter, no entanto, caso queira sair, saberá o que vai ganhar e perder.
— Por quê?
— Porque não vamos deixar que os malvados ganhem.— Conseguiu me tirar um sorriso em meio a uma conversa r**m.
— Por que quer me ajudar nisso? —refiz a pergunta.
—Você é minha amiga, e eu odeio que esteja nessa situação, se desgastando.Se posso conseguir algo que lhe ajude, farei o que for preciso.
— Não precisa se meter nisso por minha causa.Posso...
— Eu sei que pode resolver sozinha.Mas não precisa. Não está mais sozinha. —Acariciou o meu rosto, fazendo meu coração acelerar como o motor de uma Ferrari e quase parando a minha respiração. — Prometo que só vou buscar informações.Nunca te prejudicaria.