Samantha
“Não está mais sozinha”.O que ele quis dizer com isso? Foi uma mensagem escondida ou só um papo de amigos com o qual eu não estava acostumada?
O fato é que eu não parava de pensar nisso e nele. Joseph conseguiu se tornar um mistério e desejo em minha vida, que não tinha solução. Ele era lindo, carinhoso e me provocava coisas estranhas. Passei a noite toda pensando nele, querendo que conversássemos mais ou até mesmo voltar à sua casa para tentar entender melhor o que ele faria.
Antes de sair da sua mansão, eu lhe pedi para que não se preocupasse com nada ou se envolvesse, só que foi em vão.Além do mais, não achava que o senhor todo poderoso Morson faria algo para me prejudicar.
Uma questão que me tirava o sono era estar naquela empresa, sendo colocada para trás constantemente.Ficava frustrada e ainda mais magoada.No entanto, sabendo que poderia sair dela a qualquer momento, sentia-me amedrontada de perder todas as coisas nas quaistinha passado anos trabalhando.
Meu dia foi uma merda, apesar de estar empolgada com o ritmo da produção. Como eu gostava de pôr as mãos na massa, sempre entrava nas salas de desenvolvimento, fazendo aquilo que tanto me dava prazer:pegar no material, usar os equipamentos e soldar alguma coisa minúscula. Era o que me fazia esquecer, mesmo que por pouco tempo, de onde estava.
Depois de chegar em casa, ouvi, pela milésima vez,Hoper tagarelando sobre a minha saída.
Eu pensava no Joseph e me irritava, só que não por ele, e sim por não parar de pensar nele.Sim, o homem era charmoso, bonito e me fazia sorrir e querer conversar.Coisas que antes só aconteciam com Hoper. Com ele era diferente. Com minha amiga, eu gostava de provocá-la ou reclamar sobre algo. No início, minha relação com Joseph era assim, mas foi só o ver pessoalmente e ter um jantar incrível na sua casa, feito por ele, que as coisasmudaram. Eu não reclamava mais tanto e estava interessada sobre sua vida e desejos, babando pela sua delicadeza e beleza. Pensava no que falaria e ficava triste ao notar que desejava ser a pessoa que ele escolheria.
Muito preocupante. Por que você quer ser alguém para Joseph?
— O de bolinhas ou em flocos? — A voz e as duas caixas de cereais que minha amiga mostrava a mim, trouxeram-me de volta à realidade.
— O quê? —perguntei confusa.
— Você estava me escutando todo esse tempo? —Seu rosto passou de dúvida para raiva. Ela odiava não ser ouvida. —Me deixe adivinhar:o bonitão de ontem à noite não sai da sua cabeça?
Revirei os olhos e respirei fundo. Não deixaria que ela me chateasse mais ainda.
— Eu estava pensando no trabalho. —menti. —Os dois.
— No Joseph também? —Sua cara de deboche conseguiu me chatear.
— Os dois cereais. —expliquei, levando o carrinho para longe dela.
— Não fique chateada.Eu entendo. — Veio atrás de mim. — Quem não pensaria naquele homem? Bonito, rico, charmoso e...
— Quer parar?! —Andei o mais rápido possível para me afastar dela, no entantoela sabia me importunar.
— Ontem você estava bem mais falante, com um sorriso bobo e olhos brilhando ao contar como ele foi extremamente incrível ao cozinhar para você.
— O vinho me deixou alucinando. —falei entre os dentes. — Agora, continue pegando as coisas, ou vou deixá-la sozinha.
— Sam! — Ela pegou em meu pulso e me olhou com superioridade, como uma mãe buscando alguma coisa no filho. — Quando se irrita e foge é porque está fugindo de si mesma e de seus sentimentos.
— Não tenho que dizer nada a você. —Puxei meu braço.
— Não, mas somos amigas. — Estávamos no meio da seção dos doces, e uma mulher até parou o que estava fazendo para nos observar. — Achei que me contasse tudo.
— Ok, mas não aqui e agora.Ainda estou pensando nisso. —sussurrei.
— Então,tá.— Fez uma careta e voltou a olhar os produtos.
***
Hoper não tinha o estilo de deixar tudo para lá ou me deixar em paz.Depois que nossa comida chegou,nós nossentamos no chão.Adorávamos comer assim; era um costume na faculdade que trouxemos para a nossa vida. Ela me fez novamente as mesmas perguntas e esperou pelas respostas.Como demorei a falar, parou o que estava fazendo, para me encarar com raiva.
— Abra logo o bico!Ou eu mesma ligarei para Joseph.—ameaçou-me.
— Você não faria isso.Sabe que te mataria durante o seu sono. —adverti com um pouco de comida na boca.O que me lembrou da outra noite.
— Vale apena o risco.
Não dava para fugir dela, então respirei fundo e comecei o meu dilema.
— Olha...Ele é incrível, tem um hobby e um cuidado maravilhoso; sabe mais sobre mim do que eu mesma e me deixa confusa. —soltei de uma vez só. — Eu não estaria nessa situação se não fosse por você.
— Primeiro: eu sou a pessoa que te conhece melhor do que você mesma. —ela pontuou como se estivesse ofendida e eurevirei os olhos. — Segundo: obrigada por isso.Não é uma acusação ruim.E, sim, você pode estar apaixonada por el...
— Não sonhe, Hoper. —Eu a interrompi com ironia. — Apaixonada?! Fala sério!Eu amo pizza eadoro o meu trabalho, mas Joseph e eu somos amigos, e isso é perfeitamente normal, assim como eu e você, minha única amiga.
— Negação. —Balançou a cabeça. — Sei que tentou burlar o meu experimento, mas não pode negar que ele mexe com você, que pensa nele constantemente e que deseja beijá-lo com tanta urgência, que vai parecer desesperada.
Eu ri, porém pareciarealmente desespero.
— Não sonhe!
— Não minta para si mesma.
— Ele é um cara com quem conversei e tomamos a decisão de ser amigos.Não estou apaixonada.E se um dia chegasse a essa loucura, estaria ferrada.
— Por que diz isso? —Franziu o cenho.
— Ele é o Joseph Morson, teve uma decepção amorosa, é super rico, bonito, e me olha como uma amiga, sem interesse romântico.Mas confirmo: não estou apaixonada. —falei mais para mim do que para ela.
— Você é alguém incrível.Não importa quem ele seja.Se gostar de você, nada os impedirá de seguir em frente.
— Muita coisa nos impediria, Hoper. —lembrei-a. — Traumas do passado...—Contei no dedo. — Ex-namorada safada, super riqueza da parte dele e pobreza da minha, muitas mulheres mais finas e interessantes que eu...E muito mais, que não vou listar aqui para não acabar de vez com minha noite.
— Não...
—Hoper, vamos voltar à comida e nos esquecer desse assunto? —pedi com uma certa arrogância. —Temos só uma amizade estranha que pode acabar a qualquer momento.
— Quer dizer que você pode acabá-la por medo. —Odiava ser acusada assim.Transformava-me em uma covarde. No fundo, era verdade, entretantonão quer dizer que eu gostava de ser lembrada disso.
— Vou enfiar este garfo na sua garganta.
Fiquei mais tranquila quando ela riu e mudou de assunto. Já era difícil demais estar com coisas estranhas na mente; não precisava ouvir nada dela.