Samantha
Um mês depois
Tornou-se rotina ficar nervosa em frente ao espelho, arrumando-me para um jantar com Joseph.Ele era meu amigo, apesar do meu coração me trair às vezes, e fazíamos isso há um tempo.Eu já deveria estar acostumada, mas, mesmo assim, sentia como se fosse a primeira vez que o veria.
Confesso que ele não era só um cara normal com quem eutinha conversas banais. Joseph se tornou o meu maior e mais confuso problema.Ele era elegante, sempre me ajudava a sentar à mesa, abria a porta do carro para mim e beijavaa minha mão, olhando-me nos olhos. Também era engraçado e provocante.Sempre que estávamos juntos, eu não me lembrava do drama que era a minha vida e ficava balançada o suficiente para desejar beijá-lo. Com isso, sentia-me culpada e uma fraca.
Eu dizia a mim mesma que nunca olharia para alguém dessa forma e que não me apaixonaria por ninguém, entretanto não imaginava que um homem como Joseph pudesse chegar em minha vida e bagunçar tudo dentro do meu ser. Na noite passada, quando ele me ligou e me convidou para mais um de seus magníficos jantares feito por si próprio, senti um aperto no peito. Queria dizê-lo o que se passava dentro demim, falar que eu queria ser mais que uma amiga sua, todaviaveio à minha mente tudo que aconteceria se eu fizesse tal burrice.
Primeiro: correria o risco de ele não sentir o mesmo.Coisa na qual acreditava, pois nunca tinha o vistocom tal interesse em mim.
Segundo: no pior dos casos, ficaríamos juntos, e depois que eu estivesse presa a isso, como nunca, tudo acabaria, levando-me ao fundo do poço, sem esperança de um dia voltar a pensar em um relacionamento.
Nunca havia tido esse tipo de ideia. Era loucura.Como alguém gostaria de mim com todos os meusdefeitos?Também, nunca tinha enxergado outros homens dessa forma.Só Joseph.Minha teoria diziaque isso só foi possível porque baixei a guarda.
— Vai ficar aí, parada na frente do espelho? —Despertei-me dos pensamentos quando Hoper apareceu na porta do quarto.Ela me encarava, tentando achar alguma brecha à mostra em mim, no entanto tomei cuidado em voltar a ser a casca grossa desempre. — Daqui a pouco o motorista gostoso do seu namorado vai bater na porta, e você ainda nem terminou de se arrumar.
Olhei-a com cara de poucos amigos. Ela estava me provocando e sabia exatamente o que dizer.
— Primeiro: Taylor ficaria feliz por saber que tem uma fã. —Coloquei uma mecha do meu cabelo, que estava deixando na cor natural, atrás da orelha. —Segundo: eu já estou pronta.
Quando voltei a encará-la,não a vi feliz.
— Você vai assim?!—Sua forma de falar quase me ofendeu.
Olhei-me novamente no espelho e não achei que estava tão r**m.
— O que tem de errado com minha roupa?Estou apropriada.Não acha?
Não tinha a intenção de me desesperar, só que era o que sempre acontecia. Desde que conheci Joseph, vinha tentando me adequar de alguma forma. Nunca saíamos para lugares que ele costumava frequentar, e às vezes eu achava que fosse por minha causa. Não era uma das mais belas mulheres com quem ele já tinha saído.
— Tudo.Desde o estilo da roupa a como seus sapatos não combinam com nada. —Fiqueimal por isso.Embora tivesse preocupações quanto a como eu era se comparada aoJoseph, não imaginava que fosse tão péssima.—Me desculpe.Eu não queria que ficasse assim.Você está bem, só acho que...
— Eu sou horrorosa.
Ela estava certa. O vestido preto com detalhes minúsculos em branco era terrível.Só eu achava bom. Esse era outro ponto queeu refletiaquando pensava em dizer a ele o que sentia. Além de ter confirmado várias vezesque nadaem mim o interessaria, tinha uma coisa gritante entre nós:enquanto eu lutava para continuar no meu péssimo emprego de engenharia, ele era dono e CEO de uma das maiores empresas de extração de petróleo do mundo.
— Tenho que desmarcar.Eu não...
— Não!Espera!O quê?!— Parecia que era ela quem estava desesperada.
—Em todo esse tempo eu estava me vestindo como uma virgem de vinte e seis anos.Não que isso seja um problema ou que eu seja uma, mas...olhe para mim.Estou como aquelaspessoas de filmes bobos que você vê, quevão paraa casa de uma família rica. Se a mãe de Joseph ou qualquer outra pessoa rica me olharao lado dele, vai achar que eleestá fazendo caridade.
— Não exagere.Eu só disse aquilo porque...quero que use roupas mais ousadas.—Ousadas como as dela?!
Não era de se negar que minha amiga se assemelhava a uma modelo de capa de revista. Ela era vaidosa e gostava de marcas caras, enquanto eu não estavanem aí para o que se eu usava, fazia-me parecer uma de senhora de 60 anos.
—Voute trazer algomeu, e você...
— Não,Hoper. —recusei, totalmente desanimada. — Não quero usar algo seu.Nem combina comigo. — Sentei-me na beirada da cama, tentando não demonstrar o quantofiquei mal.Eu não erade me importar com essas coisas, ese ela percebesse, com certeza diria aquilo que eu não queria ouvir. —Gosto do meu estilo.Ele só não combina com o Joseph. É melhor eu desmarcar o jantar.Como já faz uma semana que não nos vemos, não será tão r**m.
— O que está acontecendo com você? —As sobrancelhas unidas na sua testa e aquelesolhos castanhos me analisando, deixaram-me sem ar. Por que você está assim, sua i****a?— Deveria me xingar, dizer que estou errada e...
— Bem...Em dias normais, eu faria isso.Você está de fora,assistindo a esta minha amizade estranha com o cara mais rico que já vimos, então acho que sua opinião a respeito deve ser levada em consideração. Não quero aparentar ser uma pobretona que janta com um bilionário. Seria ridículo.
— Ridículo é você achar que ele se importa. —Sentou-seao meu lado. — Se Josephnão gostasse da sua forma de se vestir, não precisaria...
—Ele é um homem bom. — Levantei-me abruptamente,tirei a presilha que segurava a minha franja e, depois, os sapatos que ele tanto odiava. — Ele não diria que estou ridícula. Você sim, porque é sincera.
— Não queria te magoar. Foi um comentário sem graça.— Eu sabia que ela queria reparar o que disse e que odiaria me ver desistir de sair.
Na verdade, sentia-me insegura;e não era só nessanoite,eraem todas as vezes que saíamos. Era como um sonho maluco em queum homem rico e bonito despertasse em mim o espírito de uma plebeia i****a.
— Não foi sem graça.Eu também me acho estranha.Só gosto das conversas com ele.
Lembrei-me do dia em que eu não me importava se estava com um macacão e uma blusa listrada ou usando uma calça larga para o nosso encontro na sala escura.
— Antes de eu saber quem ele era, não existia essa diferença. Eu sei que não deveria me importar com isso e que esse é meu jeito, no entanto me importo com o que ele pensa ou acha de mim.
— Ok.Então, faremos assim. — Levantou-se também. —Eu abro o seu guarda-roupa e você escolhe algo com o qual se sente bem e bonita. Não que não esteja agora. — Estreitei os olhos ao olhá-la. Hoper era sutil, manipuladora e tinha um bom gosto para a moda.Isso poderia ser bom. — Você é linda, só não acha isso de si mesma.
— Não é como se ele sentisse atração por mim.Só não quero que me confundam com uma tia-avó dele. —Revirei os olhos.
— Você vai ficar linda.
***
Parada em frente ao espelho, estava me admirando. O meu vestido cor de vinho era simples, porém sensual, no entanto não era só ele que me deixava outra pessoa; também tinha os saltos pretos e o cabelo solto, com a franja.Segundo Hoper,eu ficava mais fofa assim.E, por fim, a maquiagem.Odiava me vestir para agradar alguém, só que achei que, dessa vez, poderia passar.
— Só falta o batom vermelho. —Minha amiga praticamente puxou o meu rosto. — Ótimo.Agora, você está irresistível. Se rolar beijo, vai deixar uma marca.
— Não sonhe muito alto. —reclamei. —Não rola interesse algum desse tipo. —menti, pois eu desejava muito isso e atésonhava às vezes com essa situação. Sentia-me culpada por ter sonhos assim. —Não é um conto de fadas ou algum filme bobo que você já viu. Homens como Joseph se casam com mulheres ricas e finas.Eu não tenho um par no mundo, nem quero.
Minha amiga balbuciou algo e depois ouvimos a campainha tocar. Na verdade, foi maiscomo um zumbido estranho. Assim que ela me deixou, encarei o espelho.
Confesso que meu maior problema era pensar demais no que poderia dar errado, se era certo ou não e se estava ridícula ou mais que isso.Talvez procurar algo negativo em mim fosse um trauma do abandono. Se minha mãe não me quis, por que outra pessoa iria querer?
Tive que mandar embora esses pensamentos para não desistir de ver Joseph. Na verdade, eu queria isso, queria acabar de vez com essa piada. Ser amiga dele era uma grande piada.Em menos de três meses descobri que...
Senti meu coração ir à boca ao notar que ele me encarava, e nem fazia ideia de onde tinha ido pararHoper. Ela sempre sumia quando eu mais precisava dela.Não pude dizer nada;minha língua travou, meus neurônios ficaram malucos e ele ainda me olhava. Estava tão lindo quanto há uma semana,usando roupas escuras, embora despojadas, e com o cabelo penteado.Não precisava de mais que um perfume para me destruire me deixar sem palavras.
Nesse momento, eu me senti como uma palhaça. Usava algo sensual— ou achava que sim — para um jantar com esse homem. Ele devia me achar uma...
— Você está linda.
— Gentil da sua parte. —afirmei tímida. Dava para sentir meu rosto pegando fogo. — Acho exagerado. Queria testar algo novo, mas...
— Não é só gentileza, é uma constatação. —Aproximou-se de mimem passos curtos, fazendo com que meu coração diminuísse. — Fica bonita de qualquer maneira.
Como de costume, ele pegoua minha mão e a beijou, sem tirar os olhos de mim. Era quase uma tortura silenciosa. Pensei em, simplesmente, puxar a mão e o mandar embora, pois acreditava que, a qualquer momento, poderia dizer tudoque estava preso na minha garganta.
— Ela está linda, não é? — O clima tenso foi cortado pela voz irritante de Hoper soando ao nosso lado. Ela estava com um sorriso no rosto que eu quis tirar com um tapa. — Você tem a missão de alegrá-la. Tem algo estranho acontecendo com a Sam hoje.
— Você está bem? —ele me perguntou preocupado.
— Claro.Hoper só está me importunando.
Tomei a iniciativa de sair.Se ficasse parada lá, desistiria de ir.