Capítulo 16

1229 Words
Alicia caminhava lentamente pelo tapete vermelho da igreja, seus passos sincronizados com a melodia suave que preenchia o ambiente. Cada olhar dos convidados parecia se fixar nela, mas seus olhos estavam presos apenas em Roberto, que a aguardava no altar. Ele estava deslumbrante em seu terno azul-escuro, os acessórios pretos realçando ainda mais sua elegância. As mãos dele cobriam a boca, tentando conter a emoção, enquanto lágrimas se acumulavam em seus olhos. Ao se aproximar, conduzida pelo pai, Alicia sentiu o coração acelerar. Seu pai, com um sorriso orgulhoso, beijou sua testa e apertou a mão de Roberto, entregando sua filha ao noivo. Os olhos de Alicia e Roberto se encontraram, trocando olhares de admiração e amor. — Você está linda, meu amor. Te amo! — sussurrou Roberto. — Você também está, Roberto. Te amo! — respondeu Alicia, levemente envergonhada. O padre iniciou a cerimônia com toda a pompa, suas palavras ecoando pela nave da igreja. Tudo corria perfeitamente, como planejado. Na hora da troca das alianças, a criança escolhida para levá-las entrou sorridente, distribuindo beijos e sorrisos aos convidados, um gesto espontâneo que emocionou a todos, arrancando lágrimas dos noivos. Chegou o momento crucial da cerimônia. — Roberto Assunção, aceita Alicia Carvalho como sua legítima esposa? Roberto sorriu para Alicia, os olhos marejados. — Sim, eu aceito! — respondeu com firmeza. — Alicia Carvalho, aceita Roberto Assunção como seu legítimo esposo? Alicia hesitou por um instante. Uma onda de calor percorreu seu corpo, e o homem da Grécia invadiu seus pensamentos. Suava frio, suas mãos tremiam. Era como se ele estivesse ali, sussurrando para que ela não aceitasse. Mas, reunindo forças, respondeu: — Sim, eu aceito! Os convidados aplaudiram e riram, emocionados, antes mesmo do padre concluir. Os olhos dos noivos se voltaram para seus familiares e amigos, compartilhando aquele momento de felicidade. Foi então que a porta da igreja se abriu, e Alicia o viu. Mesmo de máscara, ela o reconheceu instantaneamente. Era ele, o homem da Grécia. Seus olhos se encontraram, e ele passou a mão pelos cabelos grisalhos. Antes que Alicia pudesse reagir, o padre declarou: — Eu os declaro marido e mulher. Pode beijar a noiva. Roberto a puxou pela cintura e a beijou. Alicia fechou os olhos, pensando que, ao abri-los, ele não estaria mais ali. Quando o beijo terminou, os convidados aplaudiam, alguns se aproximando para cumprimentá-los. Roberto parecia ansioso para sair dali. — Meu pai veio. Meu pai está aqui — disse ele ao ouvido de Alicia. Ela sorriu, feliz por finalmente conhecer o sogro. Saíram da igreja sob uma chuva de arroz e bolhas de sabão, tiraram fotos com os convidados. Antes de entrarem na limusine, Roberto, alto como era, avistou alguém na multidão. — Pai, vem cá! — gritou para o homem que Alicia tanto desejava conhecer. Quando ele se aproximou, Alicia congelou. Não era uma miragem. Era ele, o homem misterioso. — Alicia, esse é o João, meu paizinho — disse Roberto. A visão escureceu, e Alicia desmaiou. João foi mais rápido que qualquer outra pessoa ao ver o corpo de Alicia amolecer diante dele. Antes que ela encontrasse o chão, ele a amparou com firmeza e delicadeza, como se instintivamente seu corpo soubesse exatamente como segurá-la. Com cuidado, a deitou sobre o banco de couro branco da limusine. O rosto dela estava pálido, os olhos fechados, os lábios entreabertos. Parecia uma boneca de porcelana prestes a se quebrar. Roberto, em desespero, correu até o motorista e pediu água gelada. Estava em choque com o desmaio repentino da esposa. — Amor? Alicia? — chamava, tentando não entrar em pânico. Enquanto isso, João continuava ali, agachado diante da moça, observando cada detalhe do rosto dela. Um turbilhão de pensamentos passava por sua mente, como um filme antigo sendo rebobinado com violência. Sua respiração estava acelerada, as mãos trêmulas. "Não, não pode ser ela. Ela não pode ter acabado de se casar com meu filho. Isso não tá acontecendo." Seu olhar percorreu os traços que ele jamais esqueceu. Aqueles olhos — agora fechados — que o fitaram na Grécia, aquela boca que ele beijou tantas vezes com desejo e fascínio, aquela pele macia que tinha o cheiro do verão e gosto de liberdade. Tudo nela gritava o passado que ele tentava enterrar desde o dia em que voltou para o Brasil. João estendeu a mão, hesitante, e passou suavemente os dedos pelo rosto de Alicia. Acariciou sua bochecha com reverência, como se estivesse tocando algo sagrado. O contato fez seu corpo estremecer. Seu coração, que já carregava o peso da culpa por aquele romance proibido, agora parecia esmagado pela revelação brutal: a mulher pela qual ele se apaixonou no outro lado do mundo acabara de se tornar esposa do seu próprio filho. Foi nesse momento que Alicia começou a recobrar os sentidos. Ela piscou lentamente, sentindo uma vertigem leve. Quando abriu os olhos e viu aquele rosto tão perto do seu, seus instintos falaram mais alto. Se assustou, arregalou os olhos e soltou um pequeno grito abafado. — João? — sussurrou ela, tentando se sentar de súbito, mas sem forças. João recuou imediatamente, como se tivesse levado um tapa no peito. A água que Roberto trazia caiu da garrafa e escorreu pela lateral da porta. — Você conhece ele? — perguntou Roberto, olhando de um para o outro, confuso, tentando entender a tensão no ar. Alicia olhou para João, depois para Roberto. A cabeça girava, o estômago embrulhava, o coração batia tão rápido que parecia querer escapar pelas costelas. Ela sabia que era impossível explicar tudo naquele momento, não na frente de todos, não no dia do seu casamento. João deu um passo para trás, visivelmente abalado. Passou a mão pelos cabelos grisalhos e desviou o olhar, como se estivesse tentando recuperar o fôlego. — Eu... acho que ela está bem agora. — disse, com a voz embargada. Roberto ajudou Alicia a se sentar com cuidado e a ofereceu a água novamente. — Amor, tá tudo bem? O que aconteceu? Foi emoção demais? Ela assentiu com a cabeça, ainda encarando João, mas tentando forçar um sorriso para o marido. — Sim... acho que foi isso. Mas dentro dela, nada estava bem. A presença de João ali era como uma bomba-relógio prestes a explodir. Ela precisava de respostas. Precisava saber se o que viveu com ele na Grécia foi real, ou apenas um capítulo esquecido de uma história proibida. Mas, acima de tudo, precisava entender como o destino teve a ousadia de colocá-lo justamente como pai do homem com quem acabara de se casar. João, por sua vez, deu meia-volta e saiu sem dizer mais nada. Entrou no carro em silêncio, mãos no volante, mas sem coragem de ligar o motor. Lágrimas escorriam pelo rosto marcado pelos anos, enquanto sussurrava para si mesmo: — Isso não pode estar acontecendo... Alicia observava pela janela da limusine enquanto ele se afastava. Um pedaço do seu passado, que ela achava ter enterrado no coração, agora caminhava dentro da sua vida de forma c***l e inesperada. — Amor... — disse Roberto, acariciando os cabelos dela com ternura — Vamos pra festa. Vai passar, tá? Ela assentiu, mas por dentro estava em frangalhos. O verdadeiro casamento, ela agora percebia, era com o destino. E ele estava determinado a não deixá-la esquecer. ADICIONE O LIVRO NA SUA BIBLIOTECA COMENTE MUITO PRA EU PODER SABER QUE ESTÃO GOSTANDO
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