Ponto de Vista: Pietra
A noite caiu pesada sobre a comunidade. O barulho do morro parecia diferente da noite anterior — havia uma agitação estranha no ar, um zumbido constante de motores de motos subindo e descendo as vielas com pressa. Do terceiro andar do quartel-general, onde o escritório se localizava, eu conseguia ver o movimento intenso de homens armados conversando em tom baixo perto do portão principal.
Passei as últimas horas revisando relatórios financeiros detalhados. Para alguém que tentava se convencer de que era apenas uma prisioneira, eu estava absurdamente mergulhada nos números de Greco. E o pior de tudo: os números faziam sentido. O homem gerenciava o morro como uma corporação implacável, onde cada centavo tinha destino certo, desde a compra de munição até o financiamento de cestas básicas e medicamentos para os moradores mais velhos.
A porta do escritório se abriu com um estrondo, fazendo-me dar um salto na cadeira.
Greco entrou. Ele não usava mais a jaqueta de couro casual. Estava com um colete tático escuro ajustado ao peito largo, duas pistolas no coldre e uma expressão que exalava perigo puro. Breno vinha logo atrás, com o rosto tenso e o rádio comunicador estalando sem parar nas mãos.
— Reúna os papéis e suba para o quarto agora, Pietra — ordenou Greco, sem nem mesmo olhar diretamente para mim. A voz dele era fria como aço.
— O que está acontecendo? — perguntei, levantando-me e segurando a pasta de documentos contra o peito. — Que correria é essa lá fora?
— Não é da sua conta — cortou ele, caminhando até uma gaveta trancada na parede, retirando dali um pente de munição e carregando uma das armas com um estalo seco. — Apenas faça o que eu mandei. Breno vai trancar você no quarto.
— Greco, a contenção da curva do S avisou que tem três carros estranhos subindo pela via secundária — Breno interrompeu, a voz carregada de urgência. — Não são da nossa comunidade. É o pessoal da facção rival. Eles vieram fechar a conta do mês passado.
Senti um gelo instantâneo percorrer minha espinha. Invasão. Um confronto armado no topo do morro.
— Eles acham que podem entrar na minha casa sem avisar? — Greco deu um sorriso sombrio, um vislumbre de pura ferocidade que fez meu coração disparar. — Breno, mande fechar todos os acessos do morro. Ninguém entra, ninguém sai. Vamos resolver isso na entrada do complexo.
— Greco... — chamei involuntariamente, dando um passo na direção dele.
Ele se virou para mim devagar. A aura ao redor dele era avassaladora. Naquele momento, não havia espaço para ironia ou provocações; ele era o senhor da guerra daquele lugar, o homem que mantinha a supremacia à base de medo e força.
— Fique no quarto, Pietra. Se ouvir tiros, deite-se no chão e não encoste na janela. Entendeu? — ele disse, com a voz baixa e imperativa.
Antes que eu pudesse responder, ele se virou e saiu a passos rápidos pelo corredor, seguido por Breno. Fui levada quase à força por outro segurança até o meu quarto no segundo andar, ouvindo o som seco da chave girando na fechadura logo em seguida.
A solidão do quarto tornou a espera angustiante. Fiquei parada no meio do cômodo, o peito subindo e descendo rapidamente. Eu devia torcer para que o caos lá fora destruísse o império dele. Devia torcer para que a polícia ou os rivais o levassem embora para que eu pudesse pegar as minhas coisas e correr de volta para a minha vida normal.
Mas o pensamento de Greco ferido ou morto provocou um nó estranho e doloroso no meu estômago. Eu odiava o controle que ele exercia sobre mim, mas a ideia de perder a única proteção que mantinha este morro sob um tipo bizarro de ordem era aterrorizante.
De repente, o silêncio da noite foi rasgado.
O som de rajadas de tiros de grosso calibre ecoou pela montanha, fazendo as janelas do quarto tremerem.
Ponto de Vista: Greco
O cheiro de pólvora e o som dos estampidos de fuzil eram a minha trilha sonora natural. Na viela principal, logo abaixo da entrada do quartel-general, o tiroteio comia solto. Os desgraçados da facção rival acharam que pegariam o meu morro desprotegido em uma noite de terça-feira. Coitados.
— Protejam o flanco direito! — gritei, disparando contra o capô de um dos carros pretos que tentavam avançar pela rua estreita.
Os vidros do veículo estouraram, e o motorista perdeu o controle, colidindo contra o muro de contenção. Meus homens avançaram como sombras na noite, conhecendo cada beco, cada laje e cada canto deste morro melhor do que a palma da mão. A supremacia do território não é conquistada apenas com armas, mas com o conhecimento estratégico de onde pisar.
— Chefe! Eles mandaram uma equipe secundária pelos fundos! — Breno gritou pelo rádio, o som truncado pela interferência. — Tão tentando invadir a casa principal pela área da piscina!
Senti uma onda de raiva pura subir pelo meu pescoço. A área da piscina dava acesso direto ao segundo andar. Ao quarto onde Pietra estava trancada.
— Cobram minha posição aqui! — ordenei aos meus homens mais próximos. — Ninguém passa desse portão!
Virei-me e corri de volta pelas escadarias de pedra que levavam à mansão no topo. Subi os degraus de dois em dois, o coração batendo no ritmo da adrenalina. Se aqueles invasores encostassem um único dedo na garota, eu estraçalharia cada um deles pessoalmente.
Cheguei aos fundos da propriedade a tempo de ver dois homens armados saltando a cerca de proteção perto da piscina. Eles nem tiveram tempo de reagir. Levantei a pistola e efetuei dois disparos precisos. Os corpos caíram na água com um barulho alto, tingindo a superfície azul com um tom escuro sob a iluminação dos refletores.
Sem hesitar, corri para a porta lateral, subindo as escadas internas em direção ao segundo andar. O corredor do quarto de Pietra estava em silêncio, mas a tranca da porta tinha sinais de ter sido forçada.
Meti o pé na porta, arrombando-a de vez.
— Pietra!
Ponto de Vista: Pietra
A porta se abriu com um estrondo violento, e eu dei um grito, encolhendo-me no canto do quarto, perto do guarda-roupa, segurando um abajur de metal pesado como se isso pudesse me defender de um tiro de fuzil.
Mas não era um invasor. Era Greco.
Ele estava parado no batente, a respiração funda e compassada, o rosto sujo de fuligem e gotas de sangue escorrendo por um corte na linha da mandíbula. O olhar dele varreu o quarto desesperadamente até pousar sobre mim. O alívio que vi passar por aqueles olhos escuros por uma fração de segundo foi tão intenso que quase me fez perder o fôlego.
Ele deu dois passos rápidos na minha direção, abaixando a arma.
— Você está bem? Se machucou? — perguntou ele, a voz rouca pelo esforço.
— Eu... eu estou bem — consegui dizer, soltando o abajur, que caiu no tapete com um som abafado. Minhas pernas estavam tão bambas que m*l consegui me manter de pé. — E você? Você está sangrando...
Greco ignorou a minha pergunta sobre o ferimento dele. Ele estendeu a mão grande e quente, segurando o meu pulso com firmeza e me puxando para longe do canto do quarto, trazendo-me para junto do seu peito.
O contato com o corpo dele foi como um choque elétrico. O colete tático era duro, o cheiro de fumaça e perfume era sufocante, mas sentir o batimento forte e ritmado do coração dele sob a minha mão trouxe uma sensação absurda e inexplicável de segurança.
— O tiroteio acabou? — murmurei, olhando para cima, encarando o rosto dele a poucos centímetros do meu.
— Eles já foram repelidos — disse ele, sem soltar o meu pulso, os olhos fixos nos meus. — O morro continua meu. Ninguém entra aqui sem a minha permissão. Ninguém toca no que é meu.
A forma como ele disse aquelas palavras fez meu peito arfar. Não era apenas sobre o território; a maneira como ele olhava para mim deixava claro que ele me incluía naquela promessa de proteção impiedosa.
— Eu não sou sua, Greco — sussurrei, embora a minha voz tenha saído fraca, traída pela proximidade e pelo turbilhão de emoções que tomava conta de mim.
Greco ergueu a mão livre, os dedos calejados e quentes tocando suavemente a minha bochecha, limpando uma lágrima invisível que eu nem percebi que tinha escorrido. O contraste entre a violência do homem que acabou de vir de um confronto armado e a delicadeza do seu toque na minha pele era perturbador.
— Você está sob a minha proteção, Pietra — ele murmurou, a voz grave ressoando fundo na minha garganta. — Neste morro, isso significa exatamente a mesma coisa.
Ele se aproximou mais um pouco. Por um segundo infinito, achei que ele fosse me beijar ali mesmo, no meio do caos daquela noite. Senti meus lábios se entreabrirem involuntariamente, a respiração falhando enquanto o desejo e o medo se misturavam em uma tempestade perigosa.
Mas o rádio no colete dele estalou novamente, quebrando o feitiço.
— Chefe, a área externa está limpa. Estamos recolhendo os estragos — a voz de Breno ressoou, fria e profissional.
Greco piscou, afastando-se meio passo, embora a sua mão tenha demorado a sair do meu rosto. Ele ajustou o rádio no colete, sem tirar o olhar penetrante de mim.
— Entendido, Breno. Desça com os homens e faça a varredura nos acessos. Já estou descendo.
Ele olhou para mim uma última vez, a expressão voltando a ser a máscara impenetrável de sempre, mas o fogo em seus olhos ainda queimava visivelmente.
— Fique aqui. Vou mandar a Rosa subir para arrumar essa porta. Amanhã, a sua rotina volta ao normal.
Ele se virou e caminhou em direção à saída do quarto, mas antes de atravessar o batente, parou e olhou por cima do ombro.
— Você foi corajosa hoje, Pietra. Poucas pessoas manteriam a cabeça no lugar no meio de um tiroteio no morro.
— Eu só queria sobreviver — respondi, tentando manter a voz firme.
— Pois continue assim — disse ele com um leve esboço de sorriso de canto. — Porque a vida ao meu lado exige muito mais do que apenas sobrevivência.
Ele saiu, deixando-me sozinha no quarto escuro, com o coração acelerado e a incerteza aterradora de que a maior ameaça à minha vida não eram os tiros lá fora — era o homem que acabara de salvar a minha pele.