Capítulo 3

1817 Words
Ponto de Vista: Pietra ​A noite caiu pesada sobre a comunidade. O barulho do morro parecia diferente da noite anterior — havia uma agitação estranha no ar, um zumbido constante de motores de motos subindo e descendo as vielas com pressa. Do terceiro andar do quartel-general, onde o escritório se localizava, eu conseguia ver o movimento intenso de homens armados conversando em tom baixo perto do portão principal. ​Passei as últimas horas revisando relatórios financeiros detalhados. Para alguém que tentava se convencer de que era apenas uma prisioneira, eu estava absurdamente mergulhada nos números de Greco. E o pior de tudo: os números faziam sentido. O homem gerenciava o morro como uma corporação implacável, onde cada centavo tinha destino certo, desde a compra de munição até o financiamento de cestas básicas e medicamentos para os moradores mais velhos. ​A porta do escritório se abriu com um estrondo, fazendo-me dar um salto na cadeira. ​Greco entrou. Ele não usava mais a jaqueta de couro casual. Estava com um colete tático escuro ajustado ao peito largo, duas pistolas no coldre e uma expressão que exalava perigo puro. Breno vinha logo atrás, com o rosto tenso e o rádio comunicador estalando sem parar nas mãos. ​— Reúna os papéis e suba para o quarto agora, Pietra — ordenou Greco, sem nem mesmo olhar diretamente para mim. A voz dele era fria como aço. ​— O que está acontecendo? — perguntei, levantando-me e segurando a pasta de documentos contra o peito. — Que correria é essa lá fora? ​— Não é da sua conta — cortou ele, caminhando até uma gaveta trancada na parede, retirando dali um pente de munição e carregando uma das armas com um estalo seco. — Apenas faça o que eu mandei. Breno vai trancar você no quarto. ​— Greco, a contenção da curva do S avisou que tem três carros estranhos subindo pela via secundária — Breno interrompeu, a voz carregada de urgência. — Não são da nossa comunidade. É o pessoal da facção rival. Eles vieram fechar a conta do mês passado. ​Senti um gelo instantâneo percorrer minha espinha. Invasão. Um confronto armado no topo do morro. ​— Eles acham que podem entrar na minha casa sem avisar? — Greco deu um sorriso sombrio, um vislumbre de pura ferocidade que fez meu coração disparar. — Breno, mande fechar todos os acessos do morro. Ninguém entra, ninguém sai. Vamos resolver isso na entrada do complexo. ​— Greco... — chamei involuntariamente, dando um passo na direção dele. ​Ele se virou para mim devagar. A aura ao redor dele era avassaladora. Naquele momento, não havia espaço para ironia ou provocações; ele era o senhor da guerra daquele lugar, o homem que mantinha a supremacia à base de medo e força. ​— Fique no quarto, Pietra. Se ouvir tiros, deite-se no chão e não encoste na janela. Entendeu? — ele disse, com a voz baixa e imperativa. ​Antes que eu pudesse responder, ele se virou e saiu a passos rápidos pelo corredor, seguido por Breno. Fui levada quase à força por outro segurança até o meu quarto no segundo andar, ouvindo o som seco da chave girando na fechadura logo em seguida. ​A solidão do quarto tornou a espera angustiante. Fiquei parada no meio do cômodo, o peito subindo e descendo rapidamente. Eu devia torcer para que o caos lá fora destruísse o império dele. Devia torcer para que a polícia ou os rivais o levassem embora para que eu pudesse pegar as minhas coisas e correr de volta para a minha vida normal. ​Mas o pensamento de Greco ferido ou morto provocou um nó estranho e doloroso no meu estômago. Eu odiava o controle que ele exercia sobre mim, mas a ideia de perder a única proteção que mantinha este morro sob um tipo bizarro de ordem era aterrorizante. ​De repente, o silêncio da noite foi rasgado. ​O som de rajadas de tiros de grosso calibre ecoou pela montanha, fazendo as janelas do quarto tremerem. ​Ponto de Vista: Greco ​O cheiro de pólvora e o som dos estampidos de fuzil eram a minha trilha sonora natural. Na viela principal, logo abaixo da entrada do quartel-general, o tiroteio comia solto. Os desgraçados da facção rival acharam que pegariam o meu morro desprotegido em uma noite de terça-feira. Coitados. ​— Protejam o flanco direito! — gritei, disparando contra o capô de um dos carros pretos que tentavam avançar pela rua estreita. ​Os vidros do veículo estouraram, e o motorista perdeu o controle, colidindo contra o muro de contenção. Meus homens avançaram como sombras na noite, conhecendo cada beco, cada laje e cada canto deste morro melhor do que a palma da mão. A supremacia do território não é conquistada apenas com armas, mas com o conhecimento estratégico de onde pisar. ​— Chefe! Eles mandaram uma equipe secundária pelos fundos! — Breno gritou pelo rádio, o som truncado pela interferência. — Tão tentando invadir a casa principal pela área da piscina! ​Senti uma onda de raiva pura subir pelo meu pescoço. A área da piscina dava acesso direto ao segundo andar. Ao quarto onde Pietra estava trancada. ​— Cobram minha posição aqui! — ordenei aos meus homens mais próximos. — Ninguém passa desse portão! ​Virei-me e corri de volta pelas escadarias de pedra que levavam à mansão no topo. Subi os degraus de dois em dois, o coração batendo no ritmo da adrenalina. Se aqueles invasores encostassem um único dedo na garota, eu estraçalharia cada um deles pessoalmente. ​Cheguei aos fundos da propriedade a tempo de ver dois homens armados saltando a cerca de proteção perto da piscina. Eles nem tiveram tempo de reagir. Levantei a pistola e efetuei dois disparos precisos. Os corpos caíram na água com um barulho alto, tingindo a superfície azul com um tom escuro sob a iluminação dos refletores. ​Sem hesitar, corri para a porta lateral, subindo as escadas internas em direção ao segundo andar. O corredor do quarto de Pietra estava em silêncio, mas a tranca da porta tinha sinais de ter sido forçada. ​Meti o pé na porta, arrombando-a de vez. ​— Pietra! ​Ponto de Vista: Pietra ​A porta se abriu com um estrondo violento, e eu dei um grito, encolhendo-me no canto do quarto, perto do guarda-roupa, segurando um abajur de metal pesado como se isso pudesse me defender de um tiro de fuzil. ​Mas não era um invasor. Era Greco. ​Ele estava parado no batente, a respiração funda e compassada, o rosto sujo de fuligem e gotas de sangue escorrendo por um corte na linha da mandíbula. O olhar dele varreu o quarto desesperadamente até pousar sobre mim. O alívio que vi passar por aqueles olhos escuros por uma fração de segundo foi tão intenso que quase me fez perder o fôlego. ​Ele deu dois passos rápidos na minha direção, abaixando a arma. ​— Você está bem? Se machucou? — perguntou ele, a voz rouca pelo esforço. ​— Eu... eu estou bem — consegui dizer, soltando o abajur, que caiu no tapete com um som abafado. Minhas pernas estavam tão bambas que m*l consegui me manter de pé. — E você? Você está sangrando... ​Greco ignorou a minha pergunta sobre o ferimento dele. Ele estendeu a mão grande e quente, segurando o meu pulso com firmeza e me puxando para longe do canto do quarto, trazendo-me para junto do seu peito. ​O contato com o corpo dele foi como um choque elétrico. O colete tático era duro, o cheiro de fumaça e perfume era sufocante, mas sentir o batimento forte e ritmado do coração dele sob a minha mão trouxe uma sensação absurda e inexplicável de segurança. ​— O tiroteio acabou? — murmurei, olhando para cima, encarando o rosto dele a poucos centímetros do meu. ​— Eles já foram repelidos — disse ele, sem soltar o meu pulso, os olhos fixos nos meus. — O morro continua meu. Ninguém entra aqui sem a minha permissão. Ninguém toca no que é meu. ​A forma como ele disse aquelas palavras fez meu peito arfar. Não era apenas sobre o território; a maneira como ele olhava para mim deixava claro que ele me incluía naquela promessa de proteção impiedosa. ​— Eu não sou sua, Greco — sussurrei, embora a minha voz tenha saído fraca, traída pela proximidade e pelo turbilhão de emoções que tomava conta de mim. ​Greco ergueu a mão livre, os dedos calejados e quentes tocando suavemente a minha bochecha, limpando uma lágrima invisível que eu nem percebi que tinha escorrido. O contraste entre a violência do homem que acabou de vir de um confronto armado e a delicadeza do seu toque na minha pele era perturbador. ​— Você está sob a minha proteção, Pietra — ele murmurou, a voz grave ressoando fundo na minha garganta. — Neste morro, isso significa exatamente a mesma coisa. ​Ele se aproximou mais um pouco. Por um segundo infinito, achei que ele fosse me beijar ali mesmo, no meio do caos daquela noite. Senti meus lábios se entreabrirem involuntariamente, a respiração falhando enquanto o desejo e o medo se misturavam em uma tempestade perigosa. ​Mas o rádio no colete dele estalou novamente, quebrando o feitiço. ​— Chefe, a área externa está limpa. Estamos recolhendo os estragos — a voz de Breno ressoou, fria e profissional. ​Greco piscou, afastando-se meio passo, embora a sua mão tenha demorado a sair do meu rosto. Ele ajustou o rádio no colete, sem tirar o olhar penetrante de mim. ​— Entendido, Breno. Desça com os homens e faça a varredura nos acessos. Já estou descendo. ​Ele olhou para mim uma última vez, a expressão voltando a ser a máscara impenetrável de sempre, mas o fogo em seus olhos ainda queimava visivelmente. ​— Fique aqui. Vou mandar a Rosa subir para arrumar essa porta. Amanhã, a sua rotina volta ao normal. ​Ele se virou e caminhou em direção à saída do quarto, mas antes de atravessar o batente, parou e olhou por cima do ombro. ​— Você foi corajosa hoje, Pietra. Poucas pessoas manteriam a cabeça no lugar no meio de um tiroteio no morro. ​— Eu só queria sobreviver — respondi, tentando manter a voz firme. ​— Pois continue assim — disse ele com um leve esboço de sorriso de canto. — Porque a vida ao meu lado exige muito mais do que apenas sobrevivência. ​Ele saiu, deixando-me sozinha no quarto escuro, com o coração acelerado e a incerteza aterradora de que a maior ameaça à minha vida não eram os tiros lá fora — era o homem que acabara de salvar a minha pele.
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