Júlia Fernández
Estou sem ar.
Encurralada como uma presa diante de um predador faminto. E que predador...
Allonso me olha como se pudesse me devorar com os olhos — e meu corpo inteiro treme, não de medo, mas de uma vontade louca que me envergonha.
— Senhor Albuqu...
Nem consigo terminar. A boca dele volta para a minha como se fosse sua posse.
Seus lábios são quentes, firmes, suaves e intensos. O gosto dele me hipnotiza e, por mais que minha mente grite que é errado... alguma coisa em mim implora pra continuar.
Mas não. Não posso. Não devo.
Sou a mulher que aprendeu a fugir do afeto. Não por orgulho, mas por sobrevivência.
Com um esforço quase c***l, o afasto.
— Senhor Albuquerque, por favor... isso não pode mais acontecer.
Respiro fundo, tento manter a postura, mesmo sentindo meu corpo inteiro implorar por mais.
— Você é meu chefe. Estou aqui para trabalhar, não para alimentar seus impulsos sexuais.
Ele arqueia uma sobrancelha. Mas fica calado. Me observa como se eu tivesse cuspido fogo.
— Se o senhor pensa que vai me levar pra sua cama como faz com qualquer outra, está enganado. Aceitei o cargo de ajudante, e só isso. Se me vê de outra forma… pode considerar minha demissão.
O silêncio dele me arrebenta. Ele me encara com tanta intensidade que por um segundo, me arrependo de ter falado. Por medo. Ou por desejo.
— Está certo, senhorita Fernández — diz por fim, com aquela voz grave e gelada. — Isso não voltará a se repetir.
Ele se afasta como se tivesse apertado um botão de desligar sentimentos. O chefe voltou. O homem foi embora.
— Vá dormir. Amanhã é dia de trabalho. E eu odeio empregados desocupados.
Ele vira as costas.
E nem olha pra trás.
Meu peito aperta como se alguma coisa dentro de mim tivesse desmoronado. Talvez tenha sido meu ego. Talvez tenha sido meu coração. Ou ambos.
Volto pro meu quarto. Me jogo na cama. Mas é inútil tentar dormir com essa confusão dentro de mim.
Pego o celular. Jade. Preciso dela.
Ligação on
— Oi, gatona! — ela atende com aquele tom animado que parece sempre saber que algo deu errado.
— Oi, miga…
— Aconteceu alguma coisa, Jujuba?
— Sim… e não.
— Como assim?
— Miga… acho que tô gostando do meu chefe.
— O QUÊÊÊ?! — grita.
— Eu tô ferrada, né?
— Miga… você tá COMPLETAMENTE ferrada.
— Ah, que bom. Agora me sinto muito melhor. 🙄
— Miga, me fala… como é que alguém não se apaixona por aquele deus grego? Ver ele todo dia já é provocação divina.
— Eu sei, mas… eu não posso me deixar levar. Você sabe por quê.
Ela fica em silêncio por um segundo.
— Eu sei, miga… Mas já faz tanto tempo. Ele nem sabe de nada. E, vamos combinar… se ele te quer, é porque vê em você o que ninguém mais viu.
— Ele deve me querer só pra cama, Jade.
— E se quiser? Você também quer? — pergunta, rindo.
— Claro que não! — respondo… meio mentindo.
— Jura? Nem um pouquinho?
— A gente se beijou ontem.
— O QUÊÊ?! — grita de novo.
— E hoje também. E quase…
— VACA! Você tá pegando o delegado gostoso e só me conta agora?!
— Não é assim… eu parei. Não consegui. Me deu um nó por dentro.
— Ai, miga… e você não quis nem aproveitar um pouquinho?
— Eu não sei, Jade. Eu tô tão quebrada… que mesmo quando quero, parece que tem uma parede me bloqueando.
— Miga… se você quiser, eu posso resolver isso.
— Como assim?
— Eu durmo com ele e depois te conto como foi. 😂
— Sabia que você ia mandar uma dessas!
— Tô brincando, sua doida. Mas agora é sério: siga o seu coração.
— Será mesmo que ele sabe o caminho?
— Ele sabe. Você é maravilhosa, Jujuba. Só tá com medo de ser feliz.
— Vou pensar. Prometo.
— Tá certo. Qualquer coisa, a Doutora Jade está à disposição pra consultas sentimentais e sexuais.
— Beijos, sua vaca.
— Tchau, sua deusa confusa.
Ligação off
Solto o celular na cama e olho pro teto. A cabeça girando. O coração bagunçado.
Allonso Albuquerque.
O homem que me deixa sem chão.
Será que posso ao menos fantasiar com ele sem me sentir culpada?
Fecho os olhos.
E, entre a confusão e o calor que ainda sinto nos lábios, finalmente adormeço.
(...)
Já faz um mês desde aquele maldito beijo... Desde que tive que dizer "não" para Allonso Albuquerque.
Desde então, ele passou a me tratar como se eu fosse sua pior inimiga.
Tudo que faço está errado. Respiro? Incomodo. Pisco? É demais. E quando fico em silêncio, é porque "não estou sendo profissional o suficiente".
Pra piorar, ele parece ter feito da minha tortura um novo hobby.
Quase toda noite aparece com uma mulher diferente — lindas, sensuais, algumas quase nuas — desfilando pela casa como se fossem donas de tudo. E eu?
Fingindo que não ligo.
Mas por dentro? Me rasgando.
Porque por mais que eu lute, o cheiro dele, a voz dele, o jeito que me olha... tudo me destrói.
Sou arrancada dos meus devaneios quando ouço sua voz rouca vindo da cozinha:
— Júlia.
Quando viro, ele está ali.
Só de calça de moletom, cabelo bagunçado, peitoral definido e aquela barriga trincada brilhando sob a luz da manhã.
Meu Deus… como alguém pode ser tão gostoso assim logo cedo?
— Sim, senhor Albuquerque?
— Meu café.
— Já está aqui, senhor.
Antes que eu consiga ir embora, uma voz feminina surge como uma navalha nos meus ouvidos:
— Gostoso, onde você tá?
Olho instintivamente.
A mulher surge como se tivesse saído de uma revista de lingerie: loira, alta, cheia de silicone e usando apenas um sutiã minúsculo.
O ciúme me bate como um tapa na cara.
— Aqui está você, delícia — ela ronrona, agarrando o braço dele.
— O que deseja comer, linda? — ele pergunta, fingindo charme.
— Nada, docinho. Só quero você.
Docinho.
Se eu não estivesse com a xícara na mão, teria gargalhado alto. Mas engulo seco.
— Algo mais, senhor? — pergunto, tentando soar neutra.
— Não. Pode se retirar.
— Com licença.
Saio da cozinha como se minhas pernas estivessem pegando fogo. A vontade era enfiar a cara num travesseiro e gritar.
Por que ele faz isso?
Se eu não sou nada, por que me provocar?
Se eu sou só uma ajudante, por que me f***r psicologicamente todos os dias?
Termino de limpar o quarto dele e volto para a cozinha só quando percebo que já saíram. Pelo menos isso. Bentinha faz uma falta danada, mas sei que ela precisou se afastar pra cuidar da saúde. Só não sei se eu aguento muito mais...
(***)
Allonso Albuquerque
Um mês.
Trinta dias tentando tirar a maldita Júlia da minha cabeça.
Desde que ela me disse “não”, comecei a agir como um adolescente birrento. Cada noite uma mulher diferente. Cada beijo forçado tentando substituir o gosto do beijo dela.
Mas nada funciona.
Porque nenhuma boca tem o sabor da dela. Nenhum corpo me faz perder o controle como aquele corpinho desaforado escondido debaixo do uniforme.
Tô ficando louco.
Hoje temos uma operação pesada: invadir uma loja que usa fachada de sapatos, mas na real, é um covil de tráfico de drogas e armas.
Mas minha cabeça... está nela.
— Fala, irmão. Tudo pronto? — diz Davi.
— Tudo.
— E em casa, como estão as coisas?
— Um inferno.
Ele não insiste. Ainda bem.
Vestimos os coletes, pegamos as armas e saímos com a equipe. Eu e Davi vamos pela frente, os outros pelos lados. Quando entramos, percebo que a loja está vazia.
Algo tá estranho.
No fundo, encontramos um alçapão. Faço sinal e todos se aproximam. Desço primeiro. Um corredor estreito e, no fim, uma porta pesada.
— Polícia! Mãos na cabeça! Ninguém se mexe!
Lá dentro, apreendemos 50 quilos de cocaína. Seis homens, duas mulheres e um adolescente levados sob custódia.
Adolescente.
Essa parte sempre me fere. Moleques jogando fora o futuro por causa de uma ilusão barata.
Na delegacia, os interrogatórios não rendem. E os advogadinhos de porta de cadeia aparecem como ratos dizendo que “bandido tem direitos”.
Direitos tem quem levanta cedo e batalha pela vida. Não vagabundo armado.
Cansado, aceito o convite pra comemorar com o pessoal. No barzinho perto da delegacia, bebo demais. E não é pela operação.
É por ela.
Quando percebo, já passa da uma da manhã. Tô bêbado.
— Davi, leva meu carro, mas cuida bem do meu bebê.
— Pode deixar, irmão.
Chamo um Uber e volto pra casa. Tudo gira. Entro meio tonto, esbarro num vaso e quase derrubo tudo. Faço “shhh” pra mim mesmo. Que patético.
— Senhor Albuquerque? — diz uma voz doce atrás de mim.
Me viro.
Ela.
Júlia.
Cabelos soltos, rosto limpo, e um baby doll cinza que deixa suas pernas à mostra. Linda. Irritantemente linda.
— O senhor está bem?
— Vocês não tão vendo?
Ela se aproxima e me ajuda a subir as escadas. A forma como me toca, mesmo tentando manter a distância… me acende por dentro.
Chegamos no quarto. Me jogo na cama.
E antes de apagar, ainda vejo seus olhos sobre mim.
Porra, Júlia.
Você tá me destruindo.