Capítulo 3 – Primeiros Socos do Destino

1062 Words
O sol ainda nem havia nascido quando Rayca cruzou a fronteira de Pacaraima com uma mochila nas costas, uma criança nos braços e o coração apertado entre o medo e a esperança. Depois de dias inteiros caminhando, pegando caronas e enfrentando filas de imigrantes, ela finalmente estava no Brasil. Mas não era como ela imaginava. Nada era. Nina dormia agarrada ao pescoço da mãe, suada, cansada, mas viva. Rayca apertou os lábios, sentindo o gosto amargo da poeira misturado com o sal das lágrimas que ela se recusava a deixar cair. Ela não tinha pra onde ir. Só tinha a vontade desesperada de recomeçar. Durante os primeiros dias, viveu em um abrigo provisório com dezenas de outras famílias, todos espremidos em barracas improvisadas. Ouvia histórias de horror de outros venezuelanos: mães que haviam perdido filhos, pais que vendiam o pouco que tinham por um prato de comida. Rayca segurava firme a filha e repetia para si mesma: — Eu vou conseguir. Eu não vim até aqui pra fracassar. Nina tossia à noite. O ar estava seco, e a comida era escassa. Mesmo assim, Rayca procurava emprego todos os dias, batendo de porta em porta, mesmo sem saber bem o português. A cada "não", ela engolia o orgulho. A cada olhar de desprezo, ela apertava a filha contra o peito. — Uma hora alguém vai dizer sim — murmurava, cansada, sentada na calçada de uma padaria. Foi então que viu o cartaz. “Procura-se faxineira. Academia Zona Norte Boxe Clube. Comparecer com documentos.” Ela leu três vezes pra ter certeza. Olhou para Nina, que desenhava na terra com o dedo. — É isso. Vamos. A academia ficava em um bairro popular, não muito longe do abrigo. O prédio era simples, com paredes pichadas e o som de socos e gritos ecoando das janelas abertas. Lá dentro, o cheiro de suor, couro e esforço impregnava o ar. Era um ambiente bruto, masculino, mas vivo. Quase familiar, de um jeito estranho. O dono da academia era um senhor chamado Seu Dário, um senhor de barba branca e a voz rouca de cigarro, ele olhou para Rayca com desconfiança. — Tem experiência com limpeza? — Sim. Muitas casas. Sei lavar, passar, limpar, tudo. — É pesada a rotina aqui. O chão suja de sangue e suor. Aguenta? — Aguento. Aguento tudo. Ele a observou por um instante, depois suspirou. — Começa amanhã. Cinco da manhã. Sem atraso. Rayca assentiu, o coração disparado. Finalmente, um "sim". Na manhã seguinte, chegou cedo, antes mesmo de o portão abrir. Vestia uma calça jeans gasta, uma camiseta larga e o cabelo preso num coque apressado. Nina ficou aos cuidados de uma senhora do abrigo que ela havia conhecido. Era um risco, mas necessário. Ela começou o trabalho esfregando os vestiários, recolhendo toalhas suadas, limpando as arquibancadas internas. Era exaustivo, mas era digno. Às vezes, parava um instante para assistir aos lutadores treinando. O som dos socos no saco de pancada era quase terapêutico, como se cada golpe limpasse as dores de dentro dela também. Foi nesse cenário que ela viu o viu pela primeira vez. Nicholas Santiago. Estava no centro do ringue, sem camisa, suando em bicas, os músculos tensos e os olhos focados como se encarasse um inimigo invisível. Os outros lutadores o olhavam com respeito e admiração. Rayca ficou imóvel por alguns segundos, observando aquele homem que se movia como um animal em alerta, feroz e elegante ao mesmo tempo. Era jovem, talvez menos de trinta anos, moreno, corpo musculoso sem tatuagens e uma cara de poucos amigos. Ele parecia não vê-la. Mas ela sentiu algo. Um arrepio. Um reconhecimento estranho. Os dias passaram, e o turno de limpeza de Rayca sempre coincidia com os treinos de Nico. Eles se esbarravam nos corredores, mas m*l trocavam palavras. Às vezes ele a cumprimentava com um aceno de cabeça. Outras vezes, ela desviava o olhar, com vergonha do uniforme sujo ou do seu português carregado. Mas havia algo entre eles. Um silêncio que falava. Um tipo de atração sutil, feita de olhares rápidos e presenças sentidas. Até que, numa tarde, o silêncio foi rompido. Nico estava no meio de um sparring com outro lutador mais jovem, quando um golpe m*l calculado acertou em cheio seu supercílio. O sangue escorreu rápido, tingindo o rosto e o chão do ringue. — Para! — gritou Seu Dário. Mas Nico insistiu em continuar. Teimoso, como sempre. Rayca, que limpava as escadas próximas, largou o balde no chão e correu até ele, pegando um pano limpo da cesta. Subiu no ringue sem pedir permissão, ignorando os olhares surpresos dos demais. — Você precisa parar. Está sangrando muito — disse, em espanhol, o rosto a poucos centímetros do dele. Ele a olhou pela primeira vez como se realmente estivesse vendo. Seus olhos castanhos, intensos, se suavizaram por um instante. — Não é nada — respondeu, num português arrastado, meio ofegante. Ela pressionou o pano contra o corte com firmeza, ignorando a expressão de dor. — Tem que cuidar disso. Não vai querer infecção. Nico sorriu de canto. — Você é médica agora? — Enfermeira. Ou pelo menos fui. — Hm... então você sabe o que tá fazendo. Ela assentiu. Ele piscou devagar, como se quisesse guardar aquele rosto na memória. — Obrigado...? — Rayca. — Rayca... nome bonito. Ela disfarçou o rubor e desceu do ringue rápido, voltando ao trabalho. Nos dias seguintes, algo mudou. Nico passou a buscá-la com o olhar quando entrava. Às vezes, deixava uma garrafinha d’água perto do balde dela. Outras, fazia piadas tímidas em português enrolado só pra vê-la rir. Rayca, por sua vez, se permitiu sorrir mais, relaxar um pouco. — Por que você veio pra cá? — ele perguntou um dia, sentados nos degraus da arquibancada. — Porque não tinha mais nada lá. Só cinzas. E uma filha pra criar. Ele olhou para as próprias mãos, marcadas por calos e cortes. — Eu entendo. — E você? Sempre foi lutador? Ele riu sem alegria. — Sempre fui sobrevivente. O resto veio depois. Era o início de algo que eles ainda não sabiam nomear. Mas ambos entendiam que, de alguma forma, haviam se reconhecido. Duas almas marcadas, tentando encontrar abrigo no caos. E naquele ringue, entre baldes, suor e cicatrizes, uma nova batalha começava — a mais difícil de todas: A de se aproximar de alguem sem medo.
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