Capítulo 6 – Verdades e Feridas

819 Words
Rayca passou o domingo em silêncio. Não saiu do quarto, não trocou palavras com ninguém. Até Nina, esperta como era, notou o clima pesado e brincou menos do que o normal. A menina apenas se aninhava ao lado da mãe, passando os dedinhos no braço dela como se quisesse aliviar a dor que nem entendia. No fundo, Rayca se sentia tola por ainda pensar em Nico. Em qualquer outro momento da vida, ela já teria construído um muro entre eles. Mas havia algo nele... algo que não deixava seu coração se fechar por completo. No início da noite, uma batida na porta do abrigo a despertou do torpor. — Rayca? — Era a dona Marta, a coordenadora. — Tem um rapaz bonito aqui perguntando por você. Um tal de Nico. Rayca prendeu a respiração. — Diz que fui dormir — respondeu, sem pensar. Mas era tarde. A voz dele já vinha do corredor. — Rayca, por favor, eu só quero conversar! Ela fechou os olhos com força. Lutou contra o impulso de abrir a porta e jogar tudo na cara dele. Mas, no fim, respirou fundo e girou a maçaneta. — Tem cinco minutos. Nico entrou devagar, tirando o boné da cabeça. Vestia um moletom simples, sem marcas, e estava com os olhos vermelhos de cansaço — ou arrependimento. — Obrigado por me deixar falar. — Fale. Ela cruzou os braços, mantendo-se firme. — Eu vi você no ginásio. E vi... ela. Sua noiva. Ele passou a mão no rosto, como quem carregava um peso. — Aquilo não é real. Ou pelo menos... não como parece. Rayca arqueou uma sobrancelha. — Vai me dizer que o beijo foi acidental? — Não foi um beijo. Foi encenação. Fabiana é... é parte do pacote. Ela tem contatos, grana, visibilidade. Meu empresário acha que essa imagem de “casal perfeito” vende. Ajuda com patrocínio, com as lutas grandes. Tudo isso é um teatro, Rayca. — Um teatro que você parece interpretar muito bem. — Você acha que eu queria te magoar? — Acho que você conseguiu. Nico deu um passo à frente, os olhos sinceros. — Eu pensei que você entenderia. — Entender o quê? Que eu sou só o bastidor enquanto você sobe no palco com ela? Ele balançou a cabeça, frustrado. — Você não é bastidor. Você é a única pessoa com quem eu consigo ser eu mesmo. A única que me viu quando eu ainda não era ninguém. E mesmo assim ficou. Ela sentiu o chão vacilar sob seus pés. — Você devia ter me contado. Antes. — Eu sei. E me arrependo. Mas eu precisava ter certeza do que sentia. E agora eu sei. Ela o encarou por um momento longo. Nico parecia tão perdido quanto ela. — E o que exatamente você sente? Ele não hesitou. — Que gosto de você. Que penso em você o tempo todo. Que... quando você saiu daquele ginásio, foi como se eu tivesse levado um nocaute sem nem entrar no ringue. Rayca sentiu o peito apertar. Ainda estava magoada, mas não conseguia ignorar a sinceridade dele. O olhar que dizia tudo sem precisar de palavras. — Isso não vai ser fácil, Nico. — Eu sei. E não estou pedindo facilidade. Só quero uma chance. De fazer certo. De te mostrar que, mesmo em meio à fama, ainda existe espaço pra algo verdadeiro. O silêncio entre eles se prolongou. Lá fora, a noite avançava, e as luzes da rua desenhavam sombras tênues no chão do quarto. — Eu tô cansada, Nico. Cansada de sempre ser a que entende, a que perdoa, a que fica na sombra... — Então me deixa te mostrar que agora é diferente. Que eu não quero você na sombra. Quero você ao meu lado. Rayca respirou fundo. O coração batia rápido, confuso. Mas havia uma verdade nos olhos dele que ela não podia negar. Ela se aproximou devagar. Olhou nos olhos dele. E então, pela primeira vez, deixou o corpo decidir. Os lábios se encontraram num beijo calmo, mas carregado de tudo que foi reprimido até ali: dor, saudade, desejo, ternura. Foi um beijo de quem se encontrou depois de muito tempo perdido. Quando se afastaram, ainda de olhos fechados, Rayca sussurrou: — Isso não muda nada Nico, os problemas continuam. Ele sorriu triste. — Muda sim, e nós dois sabemos que muda. Nina resmungou no colchão ao lado, e os dois falaram baixo. __ Eu não disse que aceito essa situação, só porque nos beijamos. Ele acariciou o rosto dela com carinho. __ Tenha calma minha linda, vamos dar tempo ao tempo, tudo vai ficar bem. Rayca sentiu que, talvez, só talvez, ela pudesse deixar o medo de lado. Pelo menos por um tempo. A noite seguiu silenciosa, mas dentro deles, algo havia mudado. Não eram mais apenas dois sobreviventes sozinhos, eram dois pássaros feridos tentando ganhar asas para voar. Eram dois corações se permitindo, recomeçar.
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