Faltavam apenas quatro dias para o campeonato internacional de boxe que poderia colocar o nome de Nicholas Santiago no topo do mundo.
Quatro dias.
E naquele fim de tarde abafado, quando o sol se escondia tímido atrás das nuvens carregadas de Roraima, Nico corria seus últimos treinos com o coração mais leve do que o de costume. Rayca e Nina estavam bem, e ele já fazia planos para, após a vitória, assumir de vez seu relacionamento com Rayca diante de todos.
Mas a paz durou pouco.
— Nico… por favor, atende…
A voz de Rayca tremia do outro lado da linha. Nico saiu correndo do vestiário da academia, ainda com as mãos enfaixadas.
— Fala comigo, o que aconteceu?
— A Nina… ela tá com febre, não para de vomitar, eu tô indo pro hospital agora. Eu não sei o que fazer, ela tá tão molinha…
O coração dele disparou. Ele já estava na moto antes mesmo de desligar.
hegou no hospital em minutos, encontrou Rayca sentada no banco do pronto-socorro, abraçando a filha. Nina choramingava, com o rostinho pálido e os olhos fundos.
— Já foram atendidas?
— Ainda não… disseram que tem que esperar um pediatra chegar.
Nico foi direto até a recepção, tirou a máscara e deixou o nome dele ser reconhecido de imediato. Bastaram duas palavras — “É a filha da minha companheira” — para que levassem Nina rapidamente para o atendimento.
Horas depois, após exames e soro, os médicos diagnosticaram uma virose forte, mas que exigia repouso absoluto e cuidado com a hidratação.
Na saída, com Nina dormindo no colo de Rayca, Nico acariciou o cabelo da menina com carinho.
— Eu posso ficar aqui com vocês essa noite.
— E o campeonato?
— Que se dane o campeonato.
Rayca ergueu os olhos, surpresa.
— Nico… você tá dizendo isso no calor da emoção. Essa luta é tudo pra você. É a chance da sua vida.
— Você e a Nina também são.
Silêncio.
Ela sorriu com tristeza, os olhos marejados.
— Eu não posso deixar você jogar tudo fora por nossa causa.
— E eu não posso fingir que tá tudo bem com você me ligando chorando por causa da nossa filha.
— Nossa filha?
Ele a olhou com ternura.
— É isso que ela é, não é?
No dia seguinte, enquanto Nina dormia, o celular de Nico vibrou. Era Rogério Villar.
— Preciso falar com você. Urgente. Na academia. Agora.
O treinador estava sentado na arquibancada do ringue, com uma pasta sobre o colo. Quando Nico entrou, ele não disse nada. Apenas abriu a pasta, tirou um envelope e jogou sobre o banco ao lado.
— Isso é pra te lembrar de quem você é. E do que tem a perder.
Nico abriu o envelope. Era uma cópia de um antigo processo judicial. Seu nome estampado no topo. A acusação: associação ao tráfico.
— Isso é do passado…
— Sim. Mas o que você não sabe, é que só está livre por minha causa. Fui eu que paguei advogado. Que mexi os pauzinhos. Que fiz aquele juiz esquecer teu nome.
Nico fechou os olhos.
— Você disse que isso nunca viria à tona.
— Disse, e estava sendo sincero. Mas se você não embarcar pro campeonato amanhã, essa cópia vai chegar direto nas mãos da imprensa. Em menos de 24 horas, sua carreira, sua imagem, sua vida… estarão arruinadas.
Nico se levantou, atônito.
— Você está me chantageando?
— Estou te lembrando que você me deve. E que não pode se dar ao luxo de bancar o herói agora. Vai lutar. Vai vencer. Depois... você decide se quer continuar jogando esse jogo ou não. Mas até lá… se comporte.
Nico saiu da academia em silêncio. O céu parecia mais escuro do que o normal. Os trovões rugiam ao longe, mas ele m*l os ouvia.
Quando chegou à casa de Rayca, ela estava na sala, com Nina no colo e um pano úmido na testa da menina.
— Você tá pálido… aconteceu alguma coisa?
Ele hesitou. Pensou em esconder, em poupá-la, mas seus olhos suplicavam por verdade.
— Eu tenho que ir amanhã.
Rayca arregalou os olhos.
— Você disse que…
— Eu sei. Mas... eles têm um documento antigo. Um processo. E se eu não for, vão divulgar tudo. Eu posso perder tudo. Ser preso. Perder até o direito de ficar com vocês.
Ela ficou em silêncio por alguns segundos.
— Então vai.
— Você não entende, Rayca. Se eu for… e perder, eu fico com nada. Se eu for... e vencer, ainda vou ter que lutar com tudo isso por muito tempo.
Ela tocou o rosto dele com carinho.
— E se você ficar… perde agora. Vai. Luta. Vence. Mas volta. Promete que volta?
Ele beijou a testa dela, depois a de Nina.
— Prometo. Por vocês.
Naquela noite, Nico não dormiu. Assistiu Nina respirar. Sentiu Rayca se remexer no colchão improvisado da sala. E em meio ao silêncio e à escuridão, percebeu que sua luta mais difícil não era no ringue.
Era manter o amor de pé… em meio a tantos golpes invisíveis.